Esportes

Futebol da região volta ao
circuito nacional em 2020

  DANIEL LIMA - 29/10/2019

Está entre os semifinalistas da Copa Paulista, São Caetano e Esporte Clube São Bernardo, a vaga a uma das competições da Confederação Brasileira de Futebol da próxima temporada. O São Caetano está mais próximo de comemoração depois de empatar de dois a dois o clássico de sábado à tarde no Estádio Primeiro de Maio. O resultado foi melhor para o visitante. Tanto quanto o futebol.

No outro jogo de outros dois semifinalistas, novo empate de dois a dois, entre o Mirassol e o XV de Piracicaba. Desenha-se final entre São Caetano e XV. Quem ganhar vai escolher uma vaga na Série D do Brasileiro. Quem perder ficará com uma vaga na Copa do Brasil. Algo diferente disso é estupidez.

Afinal, disputar a Série D pode abrir as portas à Série C, cujo calendário de jogos, salvo mudanças da CBF, é mais compatível com o futebol profissional que não pode viver de competições curtas ou excessivamente eliminatórias.

Ainda com dinheiro farto do empresário Saul Klein, o São Caetano melhorou consideravelmente durante a competição. Entre o jogo que assisti presencialmente no Estádio Primeiro de Maio pela fase de classificação e o que vi na transmissão da Fox de sábado passado, houve uma metamorfose completa do técnico Marcelo Vilar.

Favoritismo relativo

O São Caetano é outro. Favoritíssimo à vaga na final. Mas que não dê o resultado como favas contadas. O Esporte Clube São Bernardo (é terrível ter de escrever o nome completo da equipe, mas é preciso para que não se confunda com o São Bernardo Futebol Clube, o outro time da cidade) tem uma definição tática que compensa as limitações técnicas da maioria dos jogadores. O enquadramento organizacional explica o sucesso numa competição que disputa pela primeira vez.  

O técnico Renato Peixe merece ser observado. Esse ex-lateral-esquerdo parece contar com mais futuro como treinador do que teve como atleta. Não é caso único no futebol. Distante disso. Há jogadores medíocres (no sentido literal do termo) que arrebentam como treinadores, enquanto craques em campo viram exemplares de incompetência como treinadores. Também há os que são ou foram medíocres nos dois sentidos. E outros igualmente competentes.

O que a crônica esportiva que acompanha a Copa Paulista (é essa competição da FPF que está sendo disputada como vestibular à Série D do Brasileiro ou a uma vaga na Copa do Brasil) não reparou é que houve uma revolução conceitual no São Caetano durante a competição.

Muito mais qualidade

Está morto e enterrado o time que durante anos privilegiou o futebol força e, sobretudo, um meio de campo de marcação sem o acompanhamento técnico de criação e finalização. Com as contratações solicitadas pelo técnico Marcelo Villar o São Caetano é um novo time na forma de entender a prática de futebol. Tem mais criação no setor visceral. É essa a diferença básica entre o time da fase de classificação do time dessas semifinais.  

Foram embora ou estão na reserva jogadores que fizeram do meio de campo do São Caetano uma arena de combate, não espaço de virtuosismo temperado de competitividade, como é o time de agora. E tudo indica que o conceito veio para ficar e ser aprimorado, à parte a guerra provocado por um presidente que é o sonho de consumo de todos aqueles que optam por gastar o dinheiro de terceiros sem se preocupar com princípios básicos de responsabilidade administrativa.

Se não bastasse a decisão de trocar o excesso de transpiração sem qualificação por transpiração associada a virtuosismo, a nova onda do futebol brasileiro, na esteira do Flamengo espetacular, deverá acentuar a preocupação do São Caetano e das equipes em geral a investir em talentos. Chega de pernas de pau a combater no espaço mais relevante dos gramados.

Portanto, o São Caetano está em sintonia com a mentalidade que o treinador português implantou no Flamengo e que supera de longe alguns concorrentes mais nobres que também investiram em qualidade. A diferença entre o Flamengo e os concorrentes diretos é que o português à beira do gramado leva à última instância tanto a intensidade ofensiva como a persistência defensiva. O São Caetano, guardadas as devidas proporções, transmite a sensação de que percorrerá essa vereda de agora em diante. Exceto se a crise diretiva provocar desmanche. 

O jogo de volta entre São Caetano e São Bernardo provavelmente será uma repetição do primeiro, com ênfase ainda maior na principal característica da equipe visitante: a construção de contragolpes em jogadas que sempre pretendem pegar a linha defensiva adiantada, e as penetrações centrais com aproximações rápidas.

Já o São Caetano possivelmente deixará de ser o três-em-um do primeiro jogo para exercer perfil mais sólido e, portanto, com menor grau de oscilação. Explico o que é três-em-um: o time de Marcelo Vilar dominou completamente o primeiro tempo, principalmente os primeiros 30 minutos, foi submetido ao domínio do adversário nos primeiros 15 minutos do segundo tempo e, em seguida, nos 30 minutos finais, voltou a ter o controle tático do jogo, embora sem se distanciar do rendimento do adversário como o fizera no primeiro tempo.

Entendo que a opressiva marcação que o São Caetano exercitou no primeiro tempo, o ambiente de time mandante e a maior experiência dos jogadores, além da natural supremacia histórica que sempre influi em momentos decisivos, prevalecerão na decisão deste final de semana.

Mas não se deve desdenhar da possibilidade de o EC São Bernardo criar mais dificuldades do que parece. Até porque tem um meia talentoso e um ala direito mais que atrevido para amenizar a desvantagem coletiva geral. Valerá a pena ver quem vai ser o próximo representante do futebol da região no Campeonato Brasileiro ou na Copa do Brasil.

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