Regionalidade

Caso Ford explicita inutilidade
histórica do Clube dos Prefeitos

  DANIEL LIMA - 30/10/2019

Fosse qual fosse o desfecho do caso Ford, que será oficialmente fechada hoje, não restaria dúvida sobre a insolvente institucionalidade geral do Grande ABC, notadamente do Clube dos Prefeitos. Houvesse o acerto de uma alternativa minimizadora da situação, o retrato do Clube dos Prefeitos seria exatamente o mesmo. Pela simples razão de que o Clube dos Prefeitos não existe sob o ponto de vista de atuação econômica. 

Portanto, mesmo se encontrasse uma solução-tampão para a companhia norte-americana que há mais de 60 anos se instalou em São Bernardo, nada se alteraria no front de conclusões. 

A enfermidade representativa do Grande ABC e em particular do Clube dos Prefeitos vem do passado de glórias que se esvaem sem parar. Tanto quanto a preguiça dos mandachuvas e dos mandachuvinhas de plantão em botar a mão na massa. 

É mais interessante à classe política e seus apaniguados controlar o poder com bunkers de militantes digitais que alimentam idiossincrasias e bobagens nas redes sociais do que reunir cabeças pensantes e independentes que tratem da saúde dos setores produtivos da região.  

Terra de ninguém 

O Grande ABC é uma terra de ninguém no enfrentamento estratégico dos problemas específicos locais, regionais, nacionais e macroeconômicos. O resto é papagaiada dos enganadores de plantão.

Há muita choradeira na praça por conta da debandada da Ford. Não faltam sobretudo sindicalistas que atacam a política do governo federal porque o BNDES, ao que parece, deixou de ser a porta da felicidade dos improdutivos, dos aproveitadores, dos sanguessugas. 

Ao vetar a retirada de dinheiro dos contribuintes para abastecer a megalomania de um empresário de ficha nada limpa, o BNDES impôs uma tranca que chama a atenção à realidade. 

Deixem o governador João Doria seguir com o proselitismo de uma guerra fiscal que no conjunto da obra estadual e nacional não leva a nada, a não ser a acentuar a crise fiscal de Estados e Municípios ainda resilientes, em larga maioria, a reestruturações administrativas inadiáveis. 

O Clube dos Prefeitos é imprestável no campo econômico desde sempre e carrega a maior culpa no cartório de desilusões regionais. Sobretudo desde que, dois anos antes de ser assassinado, o prefeito Celso Daniel jogou a toalha da regionalidade e tratou de cuidar dos interesses de Santo André e do Partido dos Trabalhadores. 

Bobo da corte

Celso Daniel Cansou de ser o bobo da corte. A região jamais esteve à altura do maior prefeito regional da história. Celso Daniel era uma Ferrari num congestionamento de fuscas.  Ele enxergou o futuro que não veio. Pior que o futuro que Celso Daniel enxergou e não veio foi o passado então perturbador que piorou e que chegou em forma de presente.

Todas as safras de prefeitos que vieram depois de Celso Daniel só repetiram a mesmice de sempre. Nenhum prefeito dos prefeitos de plantão foi capaz de efetivamente lançar âncoras de uma proposta que se efetivasse na prática em defesa do fortalecimento das duas cadeias de produção sobre as quais se sustenta a economia e o social do Grande ABC: a automotiva e a químico-petroquímica. 

Chegamos ao ponto máximo de mediocridade na gestão de Paulinho Serra. O tucano ocupa a presidência do Clube dos Prefeitos após desastrosa gestão do também tucano Orlando Morando. Este, destruiu as balizas da regionalidade ao partidarizar a agenda que levou à deserção de três dos sete integrantes. O atual, Paulinho Serra, completa o serviço com remendos que, escorados num marketing requenguela, transforma piscinões em obras de arte estratégica. 

Estratégia de piscinão 

Paulinho Serra não tem noção do quanto está aquém da responsabilidade implícita de supostamente gerenciar um território do qual se exige o mais profundo comprometimento regional. É uma barbaridade de incompetência para enxergar a obviedade de que sem investimentos privados, sem focos determinados para impedir o sucateamento ainda maior das cadeias produtivas, mais estaremos condenados a somar novas unidades da Ford na lista de perdas. 

Temos perdido muitas Ford ao longo dos anos. Não vou recorrer ao passado remoto de estatísticas do setor industrial e confrontá-lo com o presente para demonstrar a gravidade do quadro. Fico apenas nos últimos quatro anos já medidos pelo Ministério do Trabalho e Emprego. 

E, mais que isso, vou me limitar a São Bernardo. Choram agora por pouco mais de dois mil empregos diretos que já foram para a cucuia e se desprezam os 48 meses anteriores, entre dezembro de 2014 e dezembro do ano passado. 

Nesse período, a força de trabalho industrial de São Bernardo foi reduzida em 18.211 vagas. Calculem quantos unidades da Ford cabem nesse número. 

Enquanto as autoridades públicas que ocupam o Clube dos Prefeitos desfilam diariamente supostos grandes feitos administrativos sem que se exponham à transparência que poderia revelar os truques marquetológico, perdemos quase 20 mil trabalhadores industriais em 48 meses. 

Estragos calculados 

Sabem quanto isso significou (sempre me referindo a São Bernardo, que é o caso mais grave, mas não único da região) em termos de esvaziamento salarial? Multiplico a média salarial do setor pelos demitidos e chego a R$ 129.495 milhões de desfalque em dezembro do ano passado, comparado a dezembro de 2014. 

Numa conta simples, imperfeita, mas condutora à estrada da quantificação dos estragos, basta multiplicar a perda de um único mês por 12 meses e chegaremos, somente em São Bernardo, a mais de R$ 1,5 bilhão de enxugamento salarial na temporada passada.  

As pequenas e médias empresas do setor estão na lista de mortalidade e deserções desde o começo dos anos 1980. Ali se instalara um sindicalismo inconformado com as relações trabalhistas e se iniciara a guerra fiscal no território paulista. 

Passado que condena 

A revolta sindical deu no que deu, inclusive nos excessos que afugentaram investimentos e liquidaram enormes contingentes de pequenas e médias industriais, colocadas no mesmo saco de reivindicações das montadoras. A guerra fiscal foi e continua a ser um adicional devastador. 

Depois vieram os equívocos do governo Fernando Henrique Cardoso, o presente de grego do trecho sul do Rodoanel e tudo o mais. Sempre sob o silêncio e a improvisação reativa das instituições públicas e privadas da região. Nichos de oportunistas que não reproduzem os interesses da sociedade que, por sua vez, não alcança o nível mínimo de organização. Temos sim uma sociedade servil. Não custa repetir.

Não se pode dizer nem mesmo que a Ford seja a ponta do iceberg do desmonte industrial do Grande ABC. O processo vem de longe e incontrolável entre outras razões porque os burraldos e os incompetentes ocuparam os postos mais avançados de uma suposta regionalidade e se mantiveram e se mantêm omissos. 

A Ford, de fato, é o capítulo emblematicamente mais definidor da desindustrialização regional. Que vai prosseguir. Seremos no futuro o que são hoje tanto Santo André como São Caetano. Os dois municípios que abriram as cortinas do desenvolvimento regional antes da chegada da Via Anchieta contam no setor industrial com apenas 12% dos empregos gerais com carteira assinada.  Essa dieta de transformações não foi amparada ou minimizada por fatores de produtividade.  

Nosso PIB desabada a cada temporada. Quando reage só o consegue por conta de nossas doenças holandesas, cada vez mais comprometedoras. Nossos ciclos de bonança se perdem no nevoeiro constante de deserções e baixa competitividade. 

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