Economia

Santo André precisa de 15 anos
para recuperar quatro últimos

  DANIEL LIMA - 31/10/2019

Pergunte ao prefeito Paulinho Serra e assessores se, ao se depararem com o título desta análise, tiveram alguma percepção do que se tratava. É claro que não. Desenvolvimento Econômico é papo indigesto para o prefeito de Santo André e também aos demais titulares de Paços Municipais. Eles cuidam mesmo é do varejo, de zeladoria, que são importantes mas não mudam o mundo regional. Distante disso, aliás.

A resposta direta e reta à formulação do título é a seguinte: a desindustrialização em Santo André (e na região como um todo) segue firme e forte em várias faces. No emprego industrial é uma calamidade. Santo André precisará de 15 anos (no ritmo desta temporada) para recuperar os empregos do setor destruídos nos últimos quatro anos, entre janeiro de 2015 e dezembro de 2018.

Outras situações da região serão abordadas aqui. Fixo estaca inicial em Santo André porque o prefeito é o mais ativo pregador de bobagens econômicas. Orlando Morando, de São Bernardo, não fica muito atrás. Mas vamos deixar o primeiro-amigo do governador João Doria para outra ocasião. Ele está se recuperando da ressaca da promessa de que a Ford teria substituta sem dificuldades maiores. Esqueceram, ele e o governador, que o BNDES não é mais a casa da sogra.

Fazendo as contas

Vamos às contas então? Contas que me levaram a chegar a uma década e meia de suposta reposição do estoque de empregos industriais que Santo André ostentava em dezembro de 2014. Ou seja, antes dos dois tombos sequenciais do PIB nacional, seguidos de dois soluços que impediram a vergonhosa marca de tetra-rebaixamento da medida definidora de criação de riquezas.

Em dezembro de 2014 o parque industrial (seria parque de horrores industrial?) de Santo André contava com 33.439 trabalhadores com carteira assinada. O universo de Santo André representava 14,00% do efetivo de trabalhadores do setor na região. Quatro anos depois, dezembro de 2018, o estoque foi rebaixado a 24.216 trabalhadores, correspondente a 13,42% do estoque regional. Uma quebra de 9.223 carteiras assinadas. Média de 2.306 demissões por temporada.

Nesta temporada de 2019, a reação de Santo André no emprego industrial formal é tímida. Mais que tímida: é frouxa. Foram criados, entre admissões e demissões, 46 postos de trabalho. Média de 5,11 a cada um dos nove meses já mensurados. Seguindo esse ritmo, Santo André acumulará ao final deste ano um saldo positivo de 613 postos de trabalho na indústria de transformação. Multiplique por 15 anos e teremos zerado o saldo negativo dos quatro anos anteriores. Ou seja: no ritmo atual, teríamos recomposto o estoque de emprego industrial apenas em 2034.

Guerra fiscal inútil

Não será com uma velha e surrada, além de inútil, reabertura de guerra fiscal interna e regional, com rebaixamento de alíquotas,  entre outras medidas, que a Administração de Paulinho Serra entrará para a história de Santo André como o agente público que deu uma reviravolta no processo de destruição do chamado “viveiro industrial” que consta do hino oficial do Município.

A parada é duríssima e Paulinho Serra é apenas mais um prefeito de Santo André a enfileirar responsabilidade. Esqueçam a exclusividade do quadro econômico estadual e nacional como desculpa à fragilização industrial de Santo André nos últimos anos -- ou mais precisamente desde os anos 1980.

Há vetores locais que pesam também e devem ser reiterados porque fazem parte da coleção de razões. Fosse a atividade municipal isenta de culpa no processo de enfraquecimento do tecido industrial, não teríamos fartos exemplos no Estado que provam a força que os municípios ainda podem dispor para reverter o quadro ou acentuar o movimento de inflexão rumo a novos saldos positivos.

Positivismo embromador

Enquanto continuar a cair na lábia dos ignorantes econômicos e a acreditar que um Polo Tecnológico, por exemplo, atenuará os desvãos que se abrem a cada temporada no conjunto da sociedade de Santo André, mais o prefeito Paulinho Serra se inserirá como elemento a mais de fracasso entre todos aqueles que o antecederam.

Disse pessoalmente a Paulinho Serra num encontro antes de assumir a Prefeitura de Santo André (até porque escrevera antes disso, nesta revista digital), que ele cometia um erro crasso ao, pós-vitória eleitoral, prometer o mundo e os fundos a Santo André no campo econômico. O tucano fez um jogo politicamente correto, mas administrativamente estúpido de pretensamente encher a bola da autoestima municipal em meio a uma situação histórica de empobrecimento.

Faltou a Paulinho Serra, como falta à maioria dos agentes públicos, um mínimo de sensatez no trato com a sociedade.

Ser realista e supostamente crítico possibilitaria a todos um entendimento importante da situação geral de Santo André. A tentativa de roubo arrecadatório no caso do IPTU desmascarou o ambiente positivista do tucano. E os empréstimos para obras provam que Santo André não dá conta, com orçamento próprio, das demandas da sociedade.

Perdendo terreno regional

O pior para quem acha que o desenho industrial que ofereci neste texto é apenas um caso de possível recomposição do estoque de empregos, perspectiva da qual não só duvido como também acrescento que se desmanchará com novas perdas cumulativas ao longo dos próximos 10 anos, é que ainda não expus os valores da média salarial do setor.

No ranking regional, a média salarial do emprego industrial de Santo André perde para São Bernardo e Mauá e sofre forte assédio de Diadema. Trata-se também de péssima notícia porque Santo André perdeu nos últimos 30 anos centenas de pequenas empresas. As grandes que restaram pagam os maiores salários. Comparativamente, há maior peso do emprego industrial de grandes empresas em Santo André do que em outros municípios da região. Mas isso não tem representado salário médio superior.

O salário médio industrial em São Bernardo é de R$ 5.908,82. Bem acima dos R$ 3.937,72 de Santo André. A diferença de 33,35% se justifica e se explica pelo diferencial das montadoras de veículos em São Bernardo. Mas perder para Mauá, que conta com média salarial industrial de R$ 4.163,68, parece demais. Sobremodo porque os dois municípios dividem a fortuna de contarem com o Polo Petroquímico.

São Caetano extrapola

Nos quatro anos em que viu desabar o emprego industrial (os anos anteriores não foram muito diferentes, mas deixem isso para lá neste texto), Santo André sofreu queda do estoque de 27,58%. Ou seja: de cada 100 empregos industriais ostentados por Santo André em dezembro de 2014, quase 28 desapareceram. É uma marca representativa, maior que os 19,74% de São Bernardo, mas abaixo dos 26,73% de Diadema. E principalmente dos alarmantes 41,46% de São Caetano, que é um caso tão à parte quanto ignorado pelos acadêmicos da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), cuja preocupação de executar estudos para a construção de um aeroporto em São Bernardo ultrapassa todos os limites do tolerável.

Para completar: o prefeito de Santo André jamais terá discernimento imprescindível para instalar no Paço Municipal uma força-tarefa com independência para traçar planos que amenizem a desindustrialização de Santo André, processo antigo e perverso. Tanto que apenas 11,78% dos trabalhadores em geral no Município estão na indústria de transformação. Uma marca que supera a concorrência regional. São Caetano conta com 14,62% e ocupa a segunda posição.

Talvez a boa notícia em meio a tanto infortúnio é que Santo André seguirá rumo a novos desfiladeiros de desindustrialização em ritmo menos intenso do que o dos demais municípios do Grande ABC. Afinal, já chegou à média da participação do setor no emprego industrial brasileiro.

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