Esportes

Mesmo em crise São Caetano
retorna ao circuito brasileiro

  DANIEL LIMA - 04/11/2019

O São Caetano sofreu mais que o imaginado para superar o Esporte Clube São Bernardo na semifinal da Copa Paulista e retornar ao calendário do futebol brasileiro após quatro anos de espera. A vitória de um a zero no Estádio Anacleto Campanella coloca a equipe do técnico Marcelo Vilar na decisão da competição com o XV de Piracicaba, que venceu em casa o Mirassol também por um a zero.

Coincidentemente, no jogo de ida, tanto o São Caetano quanto o XV arrancaram empate de dois a dois. Se o jogo de sábado servir de referência, é melhor o torcedor do São Caetano se prevenir. A vaga menos precária, que seria a disputa da Série D do Brasileiro do ano que vem, pode virar uma vaga mais precária, de disputar a Copa do Brasil.

A transmissão do jogo pela televisão (Fox) revelou antes do apito inicial uma obviedade: tanto o técnico do São Caetano quanto o do São Bernardo optaram previamente pela disputa da Série D do Brasileiro ao invés da Copa do Brasil caso chegassem e vencessem a disputa estadual.

A Copa do Brasil, disputada desde 1989, foi vencida por poucos times de menor expressão nacional (Juventude, Santo André e Paulista de Jundiaí), é um ponto fora da curva de possibilidades de glória nacional e não agrega valor de acesso. Já a Série D oferece calendário mais prolongado e possibilidade consistente de ingressar na Série C, cujo valor de mercado é muito maior.

Quatro anos distante

O último rebaixamento do São Caetano no circuito nacional já completou quatro anos. Em 16 de outubro de 2015 a equipe decidiu em casa com o Botafogo de Ribeirão Pires uma das quatro vagas da semifinal da Série D, com direito a acesso à Série C. Precisava da vitória depois de ter perdido o jogo de ida em Ribeirão Preto por dois a um. Não saiu do zero a zero.

A Série D é espécie de território maldito: quem não sobe é automaticamente retirado do circuito nacional, porque a participação das equipes se renova a cada temporada, de acordo com critérios classificatórios definidos pela CBF e que tem nas disputas estaduais regras classificatórias de acesso à competição.

Aquele resultado retirou o São Caetano de 18 temporadas seguidas do Campeonato Brasileiro. Foram rebaixamento atrás de rebaixamento, entremeados de uma exceção de melhora com direito de respirar a possibilidade de retornar à Série A.

No Brasileiro da Série A, com a denominação de Copa João Havelange, o São Caetano despontou para o futebol brasileiro com dois vice-títulos, contra o Vasco e o Atlético Paranaense. Daí ter participado seguidamente da Taça Libertadores da América. Foi vice-campeão da competição sul-americana em 2001.

Crise instalada

Por tudo isso, ganhar a finalíssima da Copa Paulista contra o XV de Piracicaba pode representar a ressurreição do São Caetano a partir do ano que vem, quando se submeteria, novamente, ao céu-inferno da Série D do Brasileiro.

Tudo isso deve ser observado com certo cuidado, entretanto. A crise porque passa a gestão do São Caetano Futebol Limitada, ainda presidido por Nairo Ferreira, pode ter desdobramento inescapável.

O inescapável seria novo afastamento de Nairo Ferreira, por conta de irregularidades no manejo das doações milionárias do empresário Saul Klein, maior mecenas do futebol brasileiro. Nairo já não é mais presidente da Associação Desportiva São Caetano, agremiação que dá respaldo legal ao São Caetano Futebol Limitada. A genealogia do São Caetano Futebol Limitada passa pela Associação Desportiva São Caetano. 

Conselheiros da Associação Desportiva São Caetano não encontraram no afastamento de Nairo Ferreira razão suficiente para se acalmarem. Mesmo entendendo que o clube empresarial é distinto do clube associativo, eles querem Nairo Ferreira fora do futebol da cidade. O dirigente está disposto a sair da enrascada em que se meteu, mas não há quem se disponha a assumir as ações que representam cerca de R$ 30 milhões de dívidas consolidadas.

Pegando fogo

São incendiárias as informações que circulam entre quem tem proximidade com Nairo Ferreira, quer como últimos dos moicanos, quer como adversários que o querem banido do futebol da cidade.

Ramificam-se versões de que Nairo Ferreira vive os últimos dias de São Caetano, qualquer que seja a alternativa que emergirá após a descoberta de que as coações de Saul Klein foram utilizadas de forma heterodoxa mesmo para os padrões éticos do futebol brasileiro. O caso poderia ter desdobramentos criminais.  

Os supostos desvios éticos e materiais que teriam sido confirmados por conselheiros do São Caetano extrapolam no tempo. E começaram muito antes de outubro de 2016, quando o São Caetano foi retirado da Série D do Campeonato Brasileiro entre outras razões porque o então técnico Luiz Carlos Martins preferia um futebol de resultados que nas horas decisivas costumava fracassar.

Daquele time que empatou com o Botafogo há quatro anos, apenas o zagueiro Júnior Alves e o lateral-esquerdo Bruno Recife jogaram sábado contra o São Bernardo. O Botafogo contava com um jogador que faz sucesso nestes tempos, o meia Diego Pituca, do Santos.

São Bernardo melhor

O desencanto com a atuação do São Caetano diante do São Bernardo no último sábado é proporcional ao encantamento causado pelo adversário, uma equipe de investimentos muito mais modestos. Dirigido pelo ex-lateral Renato Peixe, o São Bernardo dominou completamente o segundo tempo e também foi melhor que o São Caetano após sofrer (aos 13 minutos do primeiro tempo) o gol que decidiu a vaga à finalíssima.

O São Caetano da vitória de sábado foi bem diferente do São Caetano do empate no sábado anterior no Estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo. Faltou mobilidade, errou demais nos passes, criou poucos contragolpes, falhou no sistema de marcação e cobertura e se submeteu facilmente à determinação ofensiva do adversário.

Tudo isso significou que o São Bernardo jogou como mandante, pressionou o tempo todo, poderia ter empatado, mas não tem razão ao reclamar exageradamente da arbitragem num lance pouco antes do apito final, quando a bola bateu no peito de um zagueiro do São Caetano, não na mão como se reclamou.

Os dois jogos decisivos com o XV de Piracicaba vão estender o que se poderia chamar de trégua oficial entre o presidente Nairo Ferreira e conselheiros do clube associativo. Eles não o querem mais à frente da equipe. Mais que isso: estariam engatilhados para um nocaute de repercussões que fugiriam da linha de fundo do mundo do futebol. Invadiria a grande área do Judiciário. Os anos dourados de dinheiro fácil no São Caetano ficaram no passado. Ao que parece, a temporada de chumbo contra Nairo Ferreira apenas começou.

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