Economia

Risco automotivo sugere que
Morando atropele Paulinho

  DANIEL LIMA - 07/11/2019

Se a retirada da Ford não foi suficiente para que se compreenda o tamanho da encrenca que significa morar no Grande ABC excessivamente dependente da indústria automotiva; se, anteriormente, com a recessão econômica, não caiu a ficha sobre esse perigo, vou ser mais didático hoje. Ou tomamos juízo para construir um manual de sobrevivência por estar no olho do furacão da atividade mais competitiva do mundo, ou estaremos ainda mais fritos e mal pagos.

Me acompanhem e entendam que não estou a fazer terrorismo econômico e social. E tampouco maluco ao pretender, como demonstra o título desta análise, que o prefeito de São Bernardo passe por cima do prefeito de Santo André. Que passe mesmo. Até porque esses dois tucanos não se bicam como antigamente. E também porque o que proponho é mais que justo, porque inadiável.

Se deixar para o prefeito de Santo André também prefeito do Clube dos Prefeitos o que tem de ser feito acho que nada será feito porque o prefeito dos prefeitos de plantão não está nem aí com a brilhantina automotiva. Santo André é menos dependente do setor, mas nem por isso está livre dos rescaldos. São Bernardo contamina toda a vizinhança.

Sebo nas canelas

Uma reportagem do Financial Times, de Londres, publicada na edição de ontem do Valor Econômico, mostra que não estava errado este jornalista quando escreveu e segue a escrever que a Doença Holandesa Automotiva que atinge principalmente São Bernardo, mas se espalha pela região como um todo, merece tratamento especial.

Vou ser mais específico: precisamos de comitê de especialistas que monitorem sistematicamente as condições de tempo, pressão e temperatura da economia regional. Seguir entregue às baratas de improviso e desespero, como se viu no caso da Ford, é uma atitude altamente tóxica para a qualidade de vida regional. Agir preventivamente é a melhor alternativa. Teremos custos menos impactantes.

Vou reproduzir escalonadamente a seguir alguns trechos mais que inquietantes da reportagem do Financial Times. Sei que muita gente tem conhecimento do assunto, mas poucos estão por dentro dos detalhes. E o diabo, como se sabe, mora nos detalhes. Leiam: 

 A indústria automotiva impacta o estado da economia mundial muito mais do que a sua proporção na produção como um todo sugeriria: as montadoras têm longas cadeias de fornecimento de autopeças terceirizadas; também consomem grandes quantidades de matérias-primas e produtos químicos, têxteis e eletrônicos; e seu desempenho afeta milhões de empregos, de reparos e de manutenção – escreveu o Financial Times.

Ovos de ouro

Embora essa cadeia de produção seja óbvia, porque os carros não saem das fábricas num passe de mágica, as autoridades públicas do Grande ABC, e o que chamaria com muito boa vantagem de inteligência de representantes da sociedade servil, praticamente nada fizeram ao longo de décadas.

A região é um campo aberto a todos os experimentos do mundo automotivo. Aqui reinam os comandantes das empresas, sobretudo das montadoras, e os sindicalistas. O terceiro vértice da equação, os interesses da sociedade em seu conjunto, jamais existiu. Sempre achamos que a galinha dos ovos de ouro seria imortal. A Ford talvez tenha despertado algum sentimento de sobrevivência, mas desconfio de que não tenha sido suficiente. Ainda.

Por essas e outras vamos em frente com a reportagem do Financial Times que tanto nos interessa, porque somos prevalecentemente automotivos:

 Em 2018, o setor encolheu pela primeira vez desde a crise mundial. O Fundo Monetário Internacional (FMI) acredita que esse declínio na produção automotiva representou mais de 25% da desaceleração na economia global entre 2017 e 2018. O setor também pode ser o responsável por até um terço da desaceleração do crescimento no comércio global observada entre 2017 e 2018, segundo informou o FMI em outubro, depois de calcular os efeitos secundários sobre o comércio de autopeças e outros bens intermediários.

Cegos estratégicos

Lembro aos leitores que minha preocupação com os efeitos deletérios do setor automotivo (de forma ampla) e do setor químico-petroquímico (a outra Doença Holandesa da região) vem de um passado distante.

Em 2004, quando preparei o Planejamento Editorial Estratégico para conduzir o Diário do Grande ABC (por apenas nove meses), constou da proposta a especialização editorial nas duas atividades econômicas mais relevantes da região. Jamais o jornal contou com gente especializada na matéria por muito tempo, dada a rotatividade de profissionais no setor. Sempre ficou a reboque principalmente de fontes sindicais, que controlaram a pauta todo o tempo. Façam uma experiência e vejam com os próprios olhos se tanto o Diário do Grande ABC quanto os grandes jornais do País se metem a vasculhar o mundo sindical. Os vilões sempre são os empresários. As pequenas empresas foram praticamente varridas do universo automotivo regional.

Mais alguns parágrafos do Financial Times publicados no Valor Econômico que deveriam ser leitura obrigatória do comando político da região. Não remeto a obrigatoriedade de informação a uma organização específica do conjunto da sociedade regional porque não a temos com foco na indústria automotiva e tampouco para valer mesmo em qualquer outra atividade econômica. Somos uma terra de cegos estratégicos. Leiam mais Financial Times:

 A previsão do FMI de uma modesta recuperação no comércio global em 2020 depende de uma recuperação da indústria automotiva. A análise, no entanto, também ressalta o potencial de que ocorram mais impactos negativos se o setor se tornar a próxima vítima da escalada na guerra comercial entre Estados Unidos e União Europeia (EU). A Casa Branca deve decidir em 13 de novembro se vai impor sobretaxa de 25% à importação de veículos de países europeus.

Analogia pertinente

Reparem os leitores que há uma analogia perfeita entre os problemas que vivemos já há muito tempo por conta da indústria automotiva que não se sustenta e a narrativa do Financial Times.

Estamos todos no mesmo barco, com a desvantagem de que ninguém nos salvará dos aborrecimentos e tragédias que começaram a pipocar. Esperar espécie de Plano Marshall é pretender que o Avaí dispute o título brasileiro com o Flamengo.

Aliás, pipocam problemas há muito tempo com a elevada mortalidade e a deserção em massa de pequenas e médias empresas que constam do corolário automotivo. Não é à toa que neste século, quando a métrica é o crescimento do PIB, estamos na rabeira entre os 39 municípios da Região Metropolitana de São Paulo. Nossa dependência do setor automotivo virou ônus. Inebriamos com o passado de glórias e não vimos a Januária de transformações mundiais passar pela janela da arrogância e do comodismo.

Como quero mesmo é tirar o sono dos leitores, para que se deem conta do que nos atinge diretamente por estar no mapa mundo da produção automotiva, não custa nada expor mais alguns parágrafos da reportagem do Financial Times:

 O FMI destacou que, em muitos países, os consumidores têm adiado as compras por causa da rapidez das mudanças nos padrões ambientais, em um momento no qual aumentam ainda as opções de compartilhamento de veículos. (...) Dado divulgado ontem mostrou que o registro de carros novos caiu 6,7% em outubro no Reino Unido, abalado por uma queda de 13% nas compras de pessoas físicas. No total, as vendas de carros caíram globalmente cerca de 3% em 2018, e a produção cerca de 2,4%.  (...). Pesquisa publicada pela agência avaliadora de risco de crédito Fitch Ratings neste ano argumenta que a atual queda das vendas de veículos pode ter reduzido o Produto Interno Bruto (PIB) global em até 0,2% -- bem mais que o FMI estima – quando levados em conta os impactos secundários em outras indústrias e o efeito da queda de salários e de lucros sobre os gastos dos consumidores e das empresas.

Tragédia confirmada

Tudo isso que acabo de expor das páginas do Valor Econômico, na tradução do texto do Financial Times, é fichinha perto do que já revelamos nestas páginas sobre os efeitos das quedas e das oscilações da produção automotiva no Brasil e, particularmente, no Grande ABC.  O impacto global provocado pelas fábricas de veículos e seus entornos é fichinha perto do que estamos vivendo na região. A tragédia aqui é confirmada há muito tempo. Mas os breves períodos de bonança do governo petista, com dinheiro farto do BNDES, entorpecerem de vez o senso crítico de eventuais inquietos. A quebra fiscal do País sugere um horizonte de crescimento modesto do PIB e de mais complicações automotivas. Não podemos esquecer que, mesmo com investimentos nos últimos anos, perdemos competitividade interna no setor.

Mais alguns trechos da reportagem do Financial Times cabem perfeitamente para acordar alguma alma boa que, finalmente, entenda a gravidade da situação estratégica do Grande ABC. Uma situação que poderia levar à redenção da ineficientíssima atuação do Clube dos Prefeito. Como? Com a criação de um departamento específico para atuar no conjunto da indústria automotiva. Para tanto, precisa-se contratar especialistas do ramo. Chega de curiosos.  Vamos a mais Financial Times:

 A situação poderá piorar se a indústria automotiva passar a ser vítima direta da guerra de tarifas. Com cadeias de fornecimento espalhadas por diferentes países e processos de fabricação “just in-time” (no qual as peças vão chegando à medida que são necessárias), o setor é particularmente vulnerável à imposição de novas barreiras tarifárias. (...) Análises publicadas neste ano pelo Peterson Institute for International Economics concluíram que, se os Estados Unidos cumprirem a ameaça de impor as tarifas de 25% sobre as importações de veículos de todos os países, a produção automotiva local cairia 1,5%, o setor perderia quase 2% do total da força de trabalho e 195 mil trabalhadores americanos ficariam desempregados como resultado do impacto macroeconômico. Se outros países retaliarem, a produção dos Estados Unidos cairia 3%, 634 mil empregos seriam perdidos no país e 5% da força de trabalho do setor seria cortada.

Em frente, Morando

Fosse eu o prefeito Orlando Morando, maior autoridade política em atuação executiva na região, não teria dúvida em atropelar o titular do Clube dos Prefeitos, Paulinho Serra. Como assim? Ora, que tome a iniciativa de recuperar o tempo perdido. Coloque no organograma da Prefeitura de São Bernardo um quadradinho relevante ligado diretamente ao chefe do Executivo para tratar da indústria automotiva. Monte e mantenha um gabinete de crise permanente, inclusive para quando chegarem bons e breves períodos de exceção. A Doença Holandesa de São Bernardo espalha-se por toda a região. Portanto, não é justo nem inteligente que fique fora do controle e das ações ao alcance e sob a responsabilidade de Orlando Morando.

O peso maior do setor na região está em São Bernardo e, embora a medida possa transpirar um municipalismo contraditório em relação à defesa da regionalidade, não existe mais possibilidade de se perder tempo com firulas. Até porque, no ambiente ideal para tratar do assunto, o Clube dos Prefeitos, a maior preocupação no âmbito econômico tem sido dar corda à bobagem de um aeroporto de porte razoável em São Bernardo.

Contradizer os ditames da regionalidade com o municipalismo automotivo é apenas uma jogada de mestre para atingir o regionalismo econômico onde mais o peso da ineficiência se faz presente. Atropele, Morando, atropele. Antes que continue sendo atropelado. Entre para a história automotiva do Grande ABC como o primeiro gestor público a reunir um grupo de cabeças que possam decifrar as chuvas e as tempestades que vão continuar a chegar. 

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