Sociedade

Grande ABC coleciona derrotas
entre Lula da Silva e LulaLivre

  DANIEL LIMA - 12/11/2019

Sei que estou mexendo num vespeiro. Os radicais sem alma e inteligência vão procurar dar conotações política e ideológica ao que se segue, mas a verdade precisa ser dita e reiterada: entre o Lula da Silva de memorável greve dos metalúrgicos em 1979, amealhador de mentes e corações com a assembleia-monstro no Estádio de Vila Euclides, e o LulaLivre de sábado passado, no Sindicato dos Metalúrgicos, poucas horas após deixar a prisão em Curitiba, o Grande ABC conheceu derrotas seguidas.

Essas quatro décadas formam o período de maiores perdas econômicas e sociais, principalmente em São Bernardo, centro de operações do lulismo sindical e político.

Essa brutalidade atingiu duramente a cidadania. Fervilhávamos em riquezas no passado. Definhamos na sequência, até chegar ao raquitismo do presente.

Lula é uma ideia

Lula tem muito a ver com isso. Ele e seus seguidores. Até porque, como disse antes de ser levado pela Policia Federal em abril do ano passado, Lula não é uma ideia, não mais um ser humano. Lula é uma ideia, uma obsessão filosófica, desde sempre.

Lula teve vida fácil no Grande ABC porque contou com o adesismo materialista e a omissão covarde da sociedade do outro lado da linha ideológica e política. Faltou ativismo construtivista para equilibrar o jogo e instaurar uma região de capital social que não passa de ficção.

Os entrechoques entre capital e trabalho, no fundo de ordem ideológica, de direita versus esquerda que o Brasil vê exacerbada nestes últimos tempos, vicejaram e proliferaram no Grande ABC, sobretudo em São Bernardo e Diadema, desde muito tempo. O Brasil do presente é o Grande ABC desde quatro décadas.

Vou fazer uma abordagem breve que sintetiza pontos importantes que estão longe de crucificar a grande liderança sindical que o Grande ABC e o Brasil conheceram a partir do final dos anos 1978. Não entra nessa contabilidade nada que esteja vinculado ao político Lula da Silva. Tampouco o presidente Lula da Silva.

Nossa viagem é curta no sentido de trajetória, porque específica nos insumos essencialmente regionais. Notadamente de São Bernardo, centro irradiador regional de uma concepção de sindicalismo em oposição ao capitalismo privado sobretudo das montadoras de veículos.

Relações incestuosas

Capitalismo privado não necessariamente intocável. As relações entre as automobilísticas e o governo federal sempre foram privilegiadas. Tanto que contemplaram igualmente os trabalhadores sob o guarda-chuva do Sindicato dos Metalúrgicos liderados presencialmente e, em seguida, em conceitos, por Lula da Silva.  

O que poucos se deram conta ao longo de quatro décadas é que o sindicalismo emanado do grupo liderado por Lula da Silva imprimiu a São Bernardo e, em seguida, ao Grande ABC um modelo de estreitas relações entre o Estado e a galinha dos ovos de ouro da indústria automotiva. Até os oito anos do presidente Fernando Henrique Cardoso colaboraram para consolidar a premissa de que, primeiro os afortunados trabalhadores das montadoras; depois, o restante da classe trabalhadora.

A desindustrialização brutal é a face mais cruel dessa combinação de favores trocados. O socialismo sindical associado ao Estado mandachuva ultrapassou os limites ao criar uma sociedade brutalmente desigual no Grande ABC, particularmente em São Bernardo. Vejam os pontos principais dessa operação à qual poucos prestaram atenção ao longo dos tempos. Por descuido, omissão ou principalmente porque a ideologia está acima de tudo.  

1. Divisionismo social exacerbado.

2. Improdutividade industrial.

3. Desigualdade empresarial.

4. Imagem regional deteriorada.

5. Acovardamento institucional.

6. Desigualdade salarial

7. Mobilidade social reversa. 

 Divisionismo social exacerbado

O separatismo do movimento sindical procurava proteger os interesses do chão de fábrica e repudiava a aristocracia nos gabinetes de funções gerenciais e administrativas nas fábricas. Tudo isso se espalhou pela sociedade do Grande ABC. O nós-contra-eles que o Brasil viria a conhecer bem mais tarde, com Lula da Silva na presidência da República, foi antecipado na região. Quem quer que fosse profissional fora das lides de macacão não era bem visto. Essa dicotomia cristalizou-se no tempo. O território do Grande ABC passou a reproduzir o parque industrial de empregados contra patrões, de classes populares versus classe média.  

 Improdutividade industrial

Principalmente São Bernardo vai mal das pernas quando se calcula a produtividade industrial no Grande ABC. No ranking do G-22, grupo dos 20 maiores municípios do Estado de São Paulo, que adiciona Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra exclusivamente por integrarem a região, e exclui a grandiosidade de São Paulo, São Bernardo é a 18ª colocada. O PIB Industrial local registrado em 2016 (dados mais atualizados do IBGE) alcançou R$ 8.223,9554 bilhões, com a ocupação de 74.935 trabalhadores. A produtividade média, divisão do PIB do setor pelo total de carteiras assinadas, chegou a R$ 109.742 mil. Bem abaixo, por exemplo, de São José dos Campos, que detém produtividade média por trabalhador de R$ 1.494.676 milhão como polo aeroespacial e cujos salários médios industriais não são proporcionalmente tão díspares no confronto com São Bernardo.

Mesmo em Santos, cidade turística, a produtividade das fábricas registrou R$ 312.083 mil por trabalhador. Taubaté, polo automotivo como São Bernardo, registrou R$ 285.518 mil. Para onde se olhar no ranking, São Bernardo perde feio. E os demais municípios da região também. Exceto Mauá, por conta do Polo Petroquímico. A herança de Lula da Silva na Capital Econômica do Grande ABC é um mau exemplo de competitividade. Há imantado nos trabalhadores um viés de repulsa ao capitalismo. Sobretudo no setor automotivo.

 Desigualdade empresarial

Um dos equívocos fatais que determinaram o fracasso do modelo sindical imposto pela liderança de Lula da Silva a partir das greves no final dos anos 1970 foi colocar no mesmo pacote de reivindicações e retaliações ou despreparo pequenas e médias indústrias de setores variados diante de pautas endereçadas às grandes montadoras de veículos.

Reivindicações trabalhistas iguais para empresas desiguais em atividades econômicas e em tamanhos tornaram a vida de pequenos e médios empreendedores um inferno. Sobretudo no setor de autopeças.

Um exemplo emblemático da carnificina sindicalista foi contabilizado por Claudio Rubens Pereira, engenheiro que criou a Anapemei, Associação das Pequenas e Médias Empresas Industriais, em Santo André. A entidade chegou a contar com uma centena e meia de filiados.

Durou o quanto pode. Praticamente todos os filiados desapareceram em forma de deserção, mortalidade ou incorporação por grandes grupos internacionais. Era impossível dar conta das exigências trabalhistas somadas às pressões dos clientes, as grandes empresas, e do Estado incapaz de controlar a inflação. A cisão entre trabalhadores e pequenos empresários era a extensão lógica do nós-contra-eles na sociedade fragmentada.

 Imagem regional deteriorada

Ninguém ou poucos se deram conta de que o período mais impetuoso do movimento sindical aprofundou o Complexo de Gata Borralheira do Grande ABC em relação à Capital vizinha. A notoriedade dos sindicalistas a partir de Lula da Silva correspondeu a certo embevecimento ingênuo do conjunto da sociedade. O noticiário de greves a ocupar as principais redes de televisão e os principais jornais do País transmitia aos ingênuos a sensação de grandiosidade imune a custos de depreciação do produto chamado Grande ABC.

Demorou para cair a ficha geral. Menos dos sindicalistas, claro. O Grande ABC acumulou cada vez mais toxinas próprias de um sindicalismo que afastava novos investimentos e estimulava deserções.

Basta dar um passeio pelas regiões metropolitanas de Campinas, Sorocaba e São José dos Campos para ver o quanto de logomarcas que desfilavam no Grande ABC mudaram de ares, a retratar uma corrida que ainda está longe de se encerrar. O Grande ABC, e São Bernardo em particular, imaginava que a chegada do trecho sul do Rodoanel o reabilitaria no jogo de investimentos. Caiu do cavalo. Perdeu ainda mais empresas para a Grande Osasco.

 Acovardamento institucional

Durante toda a trajetória do sindicalismo lulista, que segue o figurino inexorável mesmo com novos dirigentes a comandar o Sindicato dos Metalúrgicos, as instituições do Grande ABC tanto de empresários do comércio quanto industrial, além das instituições em geral, mantiveram-se bovinamente em silêncio.

Jamais houve no Grande ABC uma reação sequer que se antepusesse aos exageros sindicalistas. No bojo dessa equação estava integrada a mídia em geral, notadamente a impressa. Eram tempos em que a mídia impressa e a mídia eletrônica contavam com mais densidade do que agora. As plataformas digitais provocam revolução.

Os sindicalistas sempre foram tratados como mocinhos e os empresários como vilões. Tudo em nome de bons relacionamentos (e exclusividades informativas) com os representantes dos trabalhadores empregados.

O descompasso de tratamento tornou maldita qualquer expressão que lembrasse o mundo produtivo. Somente as montadoras de veículos, por força de atuação da associação do setor, contrabalançam em parte a ocupação do noticiário. Mas mesmo assim sempre em desvantagem.

As assembleias de trabalhadores nas fábricas sempre ganharam a preferência de cobertura. O empresariado genuinamente regional e os sindicalistas viviam às turras no interior das fábricas. Apenas alguns se aproximaram institucionalmente ao longo dos anos, mas sempre com a desconfiança típica de que capital e trabalho vieram ao mundo como antagonistas.

 Desigualdade salarial

A vinculação histórica de suposto socialismo trabalhista e pretenso capitalismo privado gerou um monstro regional. Dominada pelo sindicalismo anunciado como adepto do socialismo e que tem na cadeia automobilística o principal núcleo de produção, São Bernardo supera largamente os demais municípios do G-22 quando se confronta o salário médio das atividades industriais, comerciais e de serviços dos mais de 700 mil trabalhadores com carteira assinada. Os números são de 2017.

O desequilíbrio de salários em São Bernardo envolvendo atividades industriais, comerciais e de serviços é um atestado de condenação explícita das relações trabalhistas. Não à toa a mobilidade social sofre duros percalços há mais de duas décadas.

Conforme dados de dezembro de 2016 (que pouco se alteraram nos anos subsequentes porque se trata de algo que se movimenta como uma grande embarcação) os trabalhadores do setor industrial de São Bernardo recebiam 49,18% acima da média do setor de serviços e 58,65% dos comerciários.

Quando se comparam os salários do setor industrial de São Bernardo com os demais trabalhadores da indústria de transformação da região, a diferença é extravagante. Chega a superar em 53,24% os salários do setor em Rio Grande da Serra, 29,51% em Santo André e 37,47% em Mauá. Se o corte fosse feito com base no salário médio das montadoras, números não revelados, seria mais de duas vezes superior. 

 Mobilidade social reversa

Mais que qualquer cidade do Grande ABC, todas no mesmo saco de gatos de perdas, São Bernardo lidera a queda de potencial de consumo neste século no âmbito do Grande ABC e está na penúltima colocação no G-22, grupo dos maiores municípios do Estado. Potencial de consumo é a capacidade que determinado endereço municipal detém para acumular riqueza. Para uma São Bernardo recorrentemente desindustrializada, como a vizinhança regional, seria impossível sustentar dados do passado.

O crescimento nominal do potencial de consumo de São Bernardo ocupou a penúltima colocação neste século no G-22 porque cresceu apenas 403,81% contra uma inflação do IPCA de 235,58%. Para se ter ideia mais precisa do que significa esse andar de cágado, basta lembrar que a também automotiva Sumaré, na região de Campinas, cresceu 857,59%, desconsiderando-se a inflação do período. Ribeirão Preto, Sorocaba, São José do Rio Preto, São José dos Campos, Taubaté e Jundiaí, entre outros endereços, cresceram entre 700% e 800% do ano 2000 até 2019.

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