Esportes

Sem Saul Klein, o que virá
após dramática conquista?

  DANIEL LIMA - 18/11/2019

Quem acredita que a dramática conquista da Copa Paulista desta temporada é o ponto máximo de emoção do São Caetano despreza o potencial da crise gerada pela descoberta de que o dinheiro farto do mecenas Saul Klein não foi aplicado de forma adequada no clube-empresa de maior sucesso neste século no Grande ABC.

O que vem pela frente não é exatamente o que se chamaria de dias inspirados à retomada de São Caetano no circuito nacional, após quatro anos de afastamento. A Copa Paulista dá vaga à Série D do Brasileiro do ano que vem, mas não é um pó de pirlimpimpim para mudar a situação. O São Caetano está à beira da insolvência.

Tudo pode acontecer no São Caetano nos próximos tempos. Inclusive a absoluta incapacidade de gerar recursos financeiros para se manter minimamente competitivo na Série A2 do Campeonato Paulista que começa em janeiro. Sem as doações de Saul Klein, que injetou perto de R$ 80 milhões nos últimos cinco anos, não parece haver alternativa senão o desespero do presidente Nairo Ferreira. Ele estaria prestes a jogar a toalha.

Entre as alternativas de alocar recursos que se apresenta ao agora investidor Saul Klein, o suporte financeiro ao São Caetano quer no modelo de doação, que como empreendedor, conta com probabilidade mínima.

Saul fora é a projeção

O filho mais novo do lendário Samuel Klein, fundador da Casas Bahia, que agora integra o conglomerado Via Varejo, não estaria mesmo disposto a qualquer iniciativa que envolva o São Caetano.  Tanto como clube-empresa, em forma de São Caetano Futebol Limitada, como de clube associativo, a Associação Desportiva São Caetano, que representa oficialmente o futebol da cidade nas instâncias esportivas.

Há informações que dão conta de que Nairo Ferreira renunciaria ao São Caetano Futebol Limitada. Sem a galinha dos ovos de ouro chamada Saul Klein, não lhe restaria outra saída. Mas não é bem assim que tudo se resolve: Nairo Ferreira tem uma montanha de R$ 30 milhões de dívidas para pagar no curto, médio e longo prazo como acionista praticamente único da agremiação empresarial.

É tanto passivo financeiro que eventuais pretendentes a assumir o São Caetano não resistiriam à vasculhada nos balancetes. É horror puro. Mais do que se poderia conceber quando se considera o fluxo de milhões liberados por Saul Klein.

Trata-se de dinheirama sem a correspondente eficiência dentro de campo. O São Caetano só agora voltará ao circuito nacional, e mesmo assim numa competição que não tem choro nem vela: é ficar num dos quatro primeiros lugares ou voltar à fila classificatória sempre problemática. Sem contar, claro, que é uma competição deficitária para quem pretende subir.

Drama em duas dimensões

A diferença entre o drama do jogo com o XV de Piracicaba e o drama que se intensificará fora dos gramados é que o primeiro foi breve, emocionante, mas reconfortante para quem não chegava há tanto tempo a ocupar o pódio de uma competição organizada pela Federação Paulista de Futebol. O segundo promete fortes emoções e um final potencialmente nada feliz.

Resta sonhar com a possibilidade de algo inesperado acontecer para o São Caetano sair do encalacramento em que está metido depois de mais de duas décadas de regime de clube empresarial sob o controle de Nairo Ferreira.

De fato, para valer, clube empresarial é um exagero. O São Caetano de Nairo Ferreira converteu-se em algo muito menos efetivo que qualquer instituição de caridade, cujos responsáveis vão a campo em busca de receitas paralelas que se somam a dos doadores. O São Caetano de Nairo Ferreira não se inseriu na sociedade de São Caetano para ter respaldo em situação como a que se apresenta. Foi uma reserva exclusiva do presidente. Consolidou-se como um clube de megadoador exclusivo.

Bastidores fervilhantes

Ainda está para ser contada sem riscos de incorreções a reta de chegada do São Caetano na Copa Paulista após o anúncio de Saul Klein de não mais oficializar doações. Há muitas histórias paralelas, mas uma está sincronizada aos fatos: Nairo Ferreira praticamente foi excluído das relações com os jogadores e da comissão técnica.

Conselheiros do clube associativo teriam agido nos bastidores para evitar o pior. E o pior seria a equipe fracassar nas rodadas finais, inclusive abandonado a competição por conta de salários atrasados. A contratação de reforços, após se constatar ao fim da fase de classificação que a equipe não iria longe, teria partido desses conselheiros. Inclusive com as respectivas obrigações financeiras. Nada, entretanto, que será prorrogado nos próximos tempos. Foi uma espécie de pronto-socorro.

Essa ressalva é relevante na medida em que o senso comum poderia sugerir que Nairo Ferreira é um vitorioso a ser festejado após o empate de um a um sábado à tarde diante do XV de Piracicaba. O resultado garantiu o inédito título do São Caetano. A equipe venceu no Interior, na semana anterior, por três a dois. O São Caetano do título não é o São Caetano que Nairo Ferreira teria capacidade financeira de sustentar. Pelo menos quanto a diversos jogadores.

Expulsão do goleiro

O drama que se viu nos últimos minutos do jogo poderia ter sido evitado se o goleiro Luiz Daniel, um dos destaques da equipe, não reagisse à provocação do centroavante adversário quando se enroscaram na rede após o gol de empate do XV aos 46 minutos do segundo tempo.

A troca de sopapos resultou na expulsão dos dois por um árbitro que fez de acertos uma sequência de decisões. Como o São Caetano já fizera as três substituições, teve de improvisar o volante Mazinho no gol.  O XV foi com tudo ao ataque, mas, nervoso, parece ter esquecido que sem chutar a bola não entra. Principalmente num volante-goleiro.

Houve apenas uma situação de o goleiro improvisado usar as mãos pouco hábeis. De resto, muita ameaça de finalização, muita tensão, muito desespero de ambos os lados. 

Se o XV desempatasse, o título seria decidido em cobranças de penalidades máximas -- como nas quatro edições anteriores da Copa Paulista. Os seis minutos suplementares foram tormentosos. O São Caetano só respirou aliviado com o apito final.

Não se tem ideia de quando algo semelhante na área administrativa poderá ser igualmente comemorado. O melhor é se preparar para o pior. Sem Saul Klein, não se deve projetar o horizonte próximo atribuindo algo que não seja crise. 

Leia mais matérias desta seção: