Administração Pública

Paulinho Serra despreza óbvio
e marketing vira carro-chefe

  DANIEL LIMA - 18/11/2019

Melhor que José Auricchio e muito abaixo de Orlando Morando. Eis o resumo de três anos da gestão de Paulinho Serra à frente da Prefeitura de Santo André. A metodologia aplicada vai muito além de eventuais subjetividades que dariam campo a tentativas desclassificatórias. Os critérios são basicamente técnicos, divididos nas áreas Administrativa, Política, Econômica e Regionalidade. De Zero a Dez a nota de Paulinho Serra é 1,70. Acima do 0,5 do prefeito de São Caetano e abaixo do 3,4 do prefeito de São Bernardo.

Quando se exclui o fator Regionalidade, que tem peso 40 na costura de avaliações, a nota final de Paulinho Serra, para efeitos municipais, cai para 1,40. Nesse aspecto, a nota final de José Auricchio não sofreu mudança, mas a de Orlando Morando saltou para 5,4.

A pontuação de Paulinho Serra que evitou derrocada ainda maior se deve à Administração, que consiste na capacidade de gestão fiscal. Os dados primários do Tesouro Nacional, metabolizados por especialistas contratados pela Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro) colocam os dois anos do tucano em dicotomia: melhoraram em relação ao que recebeu de herança do antecessor Carlos Grana, mas não trafegaram na mesma velocidade média de algumas dezenas de municípios paulistas; embora fosse também, na média, superior ao resultado geral no País.

A Nota Cinco atribuída ao quesito Administração tem peso 20 na composição final. Isso significa que do total de 1,70 da nota final de Paulinho Serra, 1,00 se refere à gestão fiscal. O fiasco à frente do Clube dos Prefeitos garantiu ao prefeito de Santo André apenas 0,4 ponto na nota final no quesito Regionalidade, que tem peso 40. Já em Economia, com peso 30, Paulinho Serra recebeu Nota Zero. O 0,3 ponto complementar à nota final de 1,70 se deve à Política, que recebeu Nota Três e conta com peso 10. Tudo isso está explicado longo abaixo. 

 Economia Nota Zero

Paulinho Serra é como um aspirante a um papel de destaque num filme qualquer e acredita que um dia vai aparecer do nada agentes que lhe dão suporte como porta de entrada a uma grande produtora. Em três anos de mandato o tucano não encontrou nem cheiro do eixo que o levaria a ser visto no futuro como desbravador de uma reviravolta econômica e social em Santo André, Município que há muito tempo não tem por que sustentar o hino cuja letra remete a “Viveiro Industrial”.

Santo André é um viveiro de serviços de baixíssimo valor agregado, irresponsavelmente cantado em prosa e verso pelo prefeito e assessores como sinalizadores de novos tempos. A baixíssima média salarial é denunciatória do estágio de uma atividade que passa longe das fronteiras industriais em remuneração.  Santo André está substituindo craques por pernas de pau.

Como os demais prefeitos da região que não despertam para os fatos e por isso não contextualizam a gestão em que estão metidos, Paulinho Serra tateia a economia de Santo André. Ele acha que medidas burocráticas para facilitar a abertura de empresas são suficientes.

O prefeito esqueceu que Santo André tem baixa atratividade porque está atravancada em logística desde o surgimento da Via Anchieta e, mais tarde, da Imigrantes. Paulinho Serra passou anos e anos em alheamento típico de vereador e, como prefeito, mantêm o vício do varejismos.

Paulinho Serra promete em manchetes o que não resolveria em nada a situação. Está para aprovar o requentamento de nova fornada de guerra fiscal, lançada há mais de duas décadas pelo então prefeito Celso Daniel em contrapartida ao que a vizinhança metropolitana iniciava como forma de reação ao esvaziamento dos cofres públicos. Tempos distintos, situações distintas. O que era potencialmente estratégico no passado virou complicador no presente.

Se a guerra fiscal sem sustentação inclusive legal virou anedota requentada, o fetiche do Polo Tecnológico é desfraldado como grande saída. Na verdade, se trata de possibilidade que, convertida em realidade, não alterará o jogo de competividade perdido há muito tempo pelo Município.

Paulinho Serra ainda não se deu conta de que o Município econômico que dirige está envelhecido. É um time campeão brasileiro no passado que ele imagina em plena forma na segunda década do novo século.

Não faltariam variáveis a lançar a gestão de Paulinho Serra ao acostamento da insensibilidade, mas um dado pode dar o tamanho da encrenca em que se meteu Santo André (e os demais municípios da região) desde que a recessão chegou e o quase congelamento da economia brasileira se mantém: em 36 meses, entre janeiro de 2014 e dezembro de 2016 (os dados de 2017 sairão em dezembro e serão igualmente sofríveis), Santo André sofreu perda real de PIB per capita de 31,33%. – era R$ 39.192 mil e caiu nominalmente para R$ 37.595 mil. Quando se aplica o IPCA como fator inflacionário, a queda real chega a 31,33%.

No Ranking de Competitividade de PIB per capita do G-22, grupo dos 20 maiores municípios do Estado de São Paulo (Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra são penetras para completar o Grande ABC, enquanto a Capital é barrada do baile por causa da grandiosidade desequilibrante), Santo André ficou na antepenúltima posição no período, à frente apenas de São Bernardo e de São Caetano. Um trio desastroso que reforça o sucateamento industrial da região, com efeitos colaterais em todo o ecossistema econômico.

A expectativa de que Paulinho Serra poderia fixar bases de uma Santo André que penetrasse no reformismo desenvolvimentista virou desilusão. O tucano nada fez nesse sentido que possa ser diagramado como uma das medidas recomendadas por especialistas.

A Economia de Santo André é o que menos apetece o prefeito como fator de dedicação. Paulinho Serra não tem preparo intelectual e também motivação, empenho, para começar uma virada de jogo. E a emergência há muito bate na porta do Município.

Ou alguém é capaz de negar os fatos?  Alguém que é eleito prefeito de Santo André deveria preparar-se automaticamente para reagir no campo econômico, porque o campo econômico é o feixe à redução dos danos colaterais da desindustrialização iniciada nos anos 1980.

Santo André deste século coleciona números estarrecedores. O PIB Geral é o resumo de uma ópera bufa: entre o ano 2000 e 2016, o Município ficou na 31ª posição no ranking da Região Metropolitana de São Paulo, com crescimento nominal de apenas 203,45%. Em termos reais, o crescimento médio não chegou a 1% ao ano.

Entre 39 competidores, o 31º lugar não é algo apreciável na gôndola de vitalidade. Osasco, do outro lado da metrópole, beneficiadíssima pelo traçado do Rodoanel e sempre vista pelos prefeitos da região como território de segunda classe, cresceu no mesmo período 499,11%. Terminou a corrida do século em quinto lugar entre os 39 municípios.

Sob qualquer aspecto econômico, Santo André de Paulinho Serra não difere dos prefeitos que o antecederam. Pior que isso: como teria a obrigação de observar o balanço do navio de perdas que veem do passado e que emitem clara advertência da improcedência daquele trecho da letra do hino oficial, Paulinho Serra deveria ter constituído força-tarefa econômica como carro-chefe da Administração. Venderam-lhe a ilusão de que bastaria um marketing requenguela e uma imprensa servil para que tudo se resolvesse. Pode até conseguir a reeleição, mas jamais será lembrado pela população. Exceto de der uma guinada durante eventuais novos anos de administração.

 Política Nota Três

O prefeito de Santo André não tem a mesma embocadura política do vizinho e líder regional Orlando Morando. É verdade que não soma tantos adversários quando se observa a região como um todo, mas no âmbito local a capacidade de industrializar desafetos poderá comprometer o objetivo de reeleger-se.

Além disso, o governador João Doria não lhe é exatamente um parceiro. Exceto por conveniências político-partidárias. Doria teria sido traído por Paulinho Serra na disputa do ano passado. O tucano de Santo André optou por apoiar o socialista Marcio França por baixa dos panos. E romper o trato com Orlando Morando no apoio a Carla Morando.

O termômetro do quanto Paulinho Serra perde-se na articulação política municipal poderá ser verificado na campanha eleitoral que se aproxima. Há potencial recorde de adversários em busca de um segundo turno com o tucano. E é o segundo turno a batalha mais que final. Pesará evidente tentativa de Paulinho Serra consertar os estragos de relacionamentos ao centro e à direita do espectro eleitoral.

As redes sociais exprimem com grau relevante de interpretação o quanto a Administração de Paulinho Serra tem gosto pelo enfrentamento errático. Paus-mandados passam dia e noite em confrontos com correligionários de ex-prefeitos e também de aspirantes a prefeito.

Há entre frequentadores dos gabinetes do Paço Municipal também quem prefira fazer o papel de bombeiro. É gente muito próxima a Paulinho Serra, inclusive vereadores e secretários. Entretanto, os estragos causados pelos mercenários ligados ao gabinete do prefeito são volumosos. Existe uma organização paralela que é espécie de torcida organizada. Inclusive com batedores de carteira moral e ética outrora ligados a outros prefeitos.

Há um erro tático do qual o prefeito ainda não se apercebeu: diferentemente do ambiente nacional, de extremismos entre bolsonaristas e esquerdistas, em Santo André o ambiente é mais elástico na concepção de política. Radicalizar é o pior método para quem sabe que o segundo turno é a conclusão comum. Todos ou quase todos os hostilizados agora contra Paulinho Serra na etapa final não seria equação eleitoral fantasiosa. Talvez os consertos custem muito caro.

 Regionalidade Nota Um

Em 29 de novembro do ano passado o prefeito Paulinho Serra declarou ao Metro ABC que pretendia reunir os sete prefeitos da região e propor um novo modelo para discussão das pautas de interesse regional. “Acho que isso tudo (a deserção de três prefeitos durante a gestão de Orlando Morando) mostra que a gente precisa repensar o modelo do Consórcio, porque esse está provado que não funcionou e não funciona. Não tenho nenhuma dúvida de que todos os prefeitos sabem da importância de a gente ter a discussão regional para a implementação de política públicas, independentemente de estar ou não no Consórcio” – afirmou o tucano.

Dois projetos supostamente grandes, mas que não ultrapassam a linha de fundo da mediocridade do regionalismo embutido na gestão dos atuais prefeitos do Grande ABC, inclusive Paulinho Serra, resumem o histórico do tucano durante os 12 meses que se seguiram. O primeiro é um oba-oba em torno da construção de piscinões e o segundo é o retorno dos que foram, mas nunca estiveram para valer, casos de São Caetano, Rio Grande da Serra e Diadema.

A única vantagem, por assim dizer, de Paulinho Serra sobre o antecessor Orlando Morando é que não arrumou as encrencas do prefeito de São Bernardo. Mais nada. A agenda econômica do Clube dos Prefeitos, que deveria ser o ponto central das atividades teóricas e práticas, seguiu congelada.

Aliás, regrediu. Chegou-se ao cúmulo da estupidez ao dar crédito a uma patifaria econômica, ambiental, política e tudo o mais: a construção de um aeroporto de grande porte em São Bernardo, proposta pelos alquimistas em forma de acadêmicos da USCS (Universidade Municipal de São Caetano). Aeroporto em área ambiental é acinte quando se sabe que o trecho sul do Rodoanel foi cercado de todos os cuidados.

O Clube dos Prefeitos seguiu com Paulinho Serra a mesma toada brancaleone dos antecessores. Nenhum prefeito depois de Celso Daniel valorizou vetores estratégicos à competitividade econômica da região. Perde-se o Clube dos Prefeitos com programações de variadas proposições sociais que não desaceleram na direção de desfiladeiro econômico. Há de tudo na programação de eventos que se esgotam por si só.

A transformação do Clube dos Prefeitos em espécie de Departamento Regional de Piscinões faria Celso Daniel, formulador maior de práticas regionalistas, revirar no túmulo. Pior que dar essa conotação de infraestrutura específica aos desígnios do Clube dos Prefeitos é tornar a inciativa algo extraordinário, com direito a artigos nos jornais.

Paulinho Serra e os demais prefeitos estão à altura da profundidade e dos entulhos permanentes das duas dezenas de exemplares dessa invenção urbana para minimizar os custos sociais e econômicos das enchentes que vieram por conta de administradores descuidadas que os antecederam.

A esculhambação dos objetivos do Clube dos Prefeitos foi coroada na última semana, quando o Legislativo de São Bernardo deu uma lição a Paulinho Serra. Os vereadores, em maioria, negaram-se a aprovar uma medida que regularizaria as dívidas de São Bernardo junto aos cofres da entidade.

O parcelamento em 200 meses, sem juros e correção monetária, foi observado como aviltante pelos vereadores. Em suma, eles perceberam com clareza o que inclusive representantes da mídia são incapazes porque presos a gestões municipais: pagar uma dívida que não representa quase nada no orçamento milionário de São Bernardo em 200 suaves prestações significava o atestado de óbito do Clube dos Prefeitos.

O esvaziamento econômico-financeiro do Clube dos Prefeitos, iniciado durante a gestão de dois anos de Orlando Morando, que desmontou estrutura organizada pelo petista Luiz Marinho, sinaliza que a instituição está praticamente morta, embora não enterrada.

Quando uma classe historicamente alheia ao destino do Clube dos Prefeitos, caso de vereadores, dá uma lição de gestão ao titular de plantão da entidade, não é preciso mais nada para registrar que o fundo do poço finalmente chegou.

Enquanto perdurar o desprezo a um macroprojeto econômico que coloque os sete municípios do Grande ABC no mesmo barco estratégico, de imediato e prolongado revigoramento do tecido produtivo, o Clube dos Prefeitos seguirá enfiado numa armadura de imobilidade e imprestabilidade estonteante.

Paulinho Serra entra para a lista dos improdutivos que ocuparam o cargo que deveria ser o mais importante no espectro institucional da região, mas não passa de um penduricalho cujos integrantes, exceto Santo André, deixa de pagar míseras contribuições mensais há muitos anos. Uma regionalidade supostamente séria que não fornece o combustível de financiamento é uma fraude.

 Administração Nota Cinco

A gestão de Paulinho Serra, após dois anos, é superior ao último ano do antecessor Carlos Grana no Campeonato Brasileiro de Gestão Fiscal. A competição, oficialmente Índice Firjan de Gestão Fiscal (IFGF) é um dos mais respeitados macroindicadores disponíveis com dados do Tesouro Nacional. A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro conta com especialistas renomados para produzir os dados. Paulinho Serra, entretanto, precisa melhorar os quatro quesitos que resultam no IFGF porque, quando deixou a Prefeitura de Santo André, em 2008, o petista João Avamileno ostentava resultados melhores. Muito melhores, aliás.

O processo degenerativo das finanças da Prefeitura de Santo André precisa ser inquietação permanente do titular do Executivo. Os dois próximos anos de mandatos ainda não aferidos (2019 e 2020) vão dar um quadro real do que Paulinho Serra fez.

Santo André está na Série B do Campeonato Brasileiro de Gestão Fiscal com 0,7103 ponto. Quanto mais próximo de 1,000, melhor. A competição reúne quatro vertentes: Autonomia, Gastos com Pessoal, Investimentos e Liquidez. Santo André tem a nota máxima nos dois primeiros, mas vai mal nos dois últimos. No Investimentos, com 0.3823 ponto, ocupa a Série D do Brasileiro. No Liquidez, com 0,4591, ocupa a Série C. Em 2008, com João Avamileno, Santo André estava na Série A nos dois quesitos, ocupava a Série C em Investimentos e a Série A em Gastos com Pessoal. O índice geral de Santo André em 2008 chegava a 0,8403, de Série A.

Quando se tomam os números dos dois primeiros anos de Paulinho Serra e os compara com o último ano da gestão de Carlos Grana, em 2016, a melhora é acentuada no índice geral: era 0,5811 ponto e passou para 0,7103 ponto. Mas a melhora relativa não chegou ao mesmo nível de São Bernardo: no ranking do Estado de São Paulo, Santo André saiu em 2016 da 85ª posição e caiu em 2018 para a posição 104. Ou seja: a concorrência estadual melhorou em velocidade muito superior. Já no ranking nacional, Santo André foi superior ao posicionamento de 2016 ao passar da posição 803 para a posição 584.

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