Administração Pública

Morando e Paulinho Serra
devem mirar Celso Daniel

  DANIEL LIMA - 19/11/2019

Faço essa sugestão entre outras razões porque os três primeiros anos do primeiro mandato de Celso Daniel devem servir de certo consolo aos prefeitos novatos Paulinho Serra (Santo André) e Orlando Morando (São Bernardo). Os dois foram reprovados na avaliação de três temporadas do primeiro mandato, eleitos em outubro de 2016. 

Deixo de lado o prefeito José Auricchio, provavelmente sem condições temporais de recuperação. Ele está no 11º ano como comandante do Paço Municipal, após dois mandatos seguidos e agora um terceiro como sucessor de Paulo Pinheiro. 

Teria Celso Daniel nota maior que os 3,4 de Orlando Morando e o 1,70 de Paulinho Serra nos três primeiros anos de Administração do primeiro mandato? Resposta imediata, sem pestanejar: claro que sim. Mas o resultado seria bem modesto perto do que alcançaria em 10 anos de Executivo.  

O peso preponderante do fator Regionalidade na composição da nota média final daria a Celso Daniel condições de sobra para superar os atuais prefeitos. São 40% de influência na nota final. Celso Daniel ganharia um Dez com louvor ao terminar o primeiro mandato no quesito Regionalidade, bicho estranho até então, por incrível que pareça, na geopolítica regional. 

Lição para todos 

Só o fato de ter liderado a construção do Clube dos Prefeitos em dezembro de 1990, no segundo ano do primeiro mandato, garantiria a Celso Daniel 4,00 pontos no geral. Esqueçam as demais vertentes (Economia, Administração e Política). 

A lição que Celso Daniel deixou a todos os prefeitos contemporâneos ou não que passaram a ocupar os paços municipais da região é que Regionalidade não é simplesmente um mote propagandístico. 

É o futuro regional que nunca chega porque os prefeitos municipalistas não entendem e jamais procuraram aprender o riscado de prefeitos regionalistas. 

Por isso, de cara, numa competição fundamentada em avaliações técnicas, como a que acabamos de produzir envolvendo os três principais prefeitos da região, é compulsório que comecem e terminem muito mal, porque começam com apenas seis pontos como máximo a atingir. 

Para complicar ainda mais a vida dos prefeitos atuais que não entendem bulhufas de regionalidade e não fazem questão alguma de entender, outros 30% dos pontos gerais estão conectados à atuação no campo Econômico, seara que não frequentam. Resultado: dos 10 pontos máximos possíveis, ficam restritos a apenas 30, dos quais 20 relativos à Administração e 10 à Política. 

Prefeito Regional 

Voltando à Administração de Celso Daniel, não arrisco definir uma nota definitiva àquele que sem dúvida foi o maior prefeito regional do Grande ABC. Muita gente não entende essa definição. Quando escrevo “prefeito regional” quero dizer isso mesmo, um titular de Paço Municipal que tenha tido comprometimento tão importante para amalgamar instituições. 

Não entro em debate sobre que posição teria Celso Daniel como prefeito municipal de Santo André. Há alguns nomes que poderiam lhe fazer forte concorrência e a análise se deslocaria potencialmente para o terreno da subjetividade. 

O maior pecado de Celso Daniel como prefeito de Santo André, e que afeta a suposta nota final que lhe atribuiria numa disputa histórica, foi a burrada de um aumento cavalar ao funcionalismo público justamente no primeiro mandato e que até hoje pesa em forma de precatório no orçamento de Santo André. 

Tenho uma versão de fonte de alta credibilidade sobre o equívoco cometido por um secretário de Celso Daniel. O que deveria ser provisório virou definitivo porque houve negligência na articulação da iniciativa. Isso pode minimizar, mas não alivia o peso em desfavor de Celso Daniel. Entretanto, como Administração tem peso 20 na nota final, a bobagem não comprometeria uma liderança exuberante que lhe estaria reservada. 

Mudança na agenda 

Ainda sobre a criação do Clube dos Prefeitos em 1990, com Celso Daniel e também com Luiz Tortorello como principais agentes de pretensas transformações, devo lembrar que o quesito Economia não constava como prioridade. E aí puxo a sardinha para minha brasa. A história está aí para confirmar e reconhecer a verdade dos fatos. 

E a verdade dos fatos é a seguinte: foi a partir de março de 1990, quando lancei a modesta revista LivreMercado logo após o Plano Collor, que a Economia da região ingressou na pauta de preocupações dos formadores de opinião e tomadores de decisões da sociedade. Até então, as empresas em geral eram vistas com enorme desconfiança. 

As montadoras de veículos eram as queridinhas da praça tanto quanto os sindicalistas. Não havia quem tivesse a coragem de questionar o futuro da região. Vivia-se ambiente de euforia. 

Foi com LivreMercado, cuja primeira edição é histórica porque botou o dedo na ferida do risco das montadoras excessivamente mandantes no ritmo da economia regional, que introduzimos um jornalismo econômico, embora com as limitações naturais da periodicidade mensal. 

LivreMercado norteadora 

Para que os leitores possam conferir essa verdade dos fatos, eis que apanho o que chamo hoje de manchetíssima da revista LivreMercado de março de 1990, a edição de lançamento de uma publicação pobre no aspecto físico-plástico, mas já prenunciadora da revolução que provocaria na região. 

Tanto é verdade o papel histórico de LivreMercado (vou escrever mais sobre isso nos próximos tempos) que não demorou para o Clube dos Prefeitos, com o retorno de Celso Daniel ao Paço Municipal de Santo André, em 1996, encetar série de medidas no âmbito econômico. 

Sob o título “Esvaziamento industrial da região compromete poderio econômico”, os insumos daquela manchetíssima parece que acabaram de ser redigidos por este jornalista. 

Infelizmente, 30 anos se passaram e tudo parece tão atual, tão gravemente atual. Leiam alguns trechos entre dezenas que sustentaram aquela análise histórica: 

 O Grande ABC não está com a bola toda, como muitos imaginam, ou como considera uma parcela razoável de investidores nas áreas de comércio e de serviços. Se é verdade que nos últimos anos descobriu-se o filão dos grandes shoppings centers e das lojas de departamentos e as principais representações de serviços deslocaram baterias principalmente para o A e o B do ABC, não é menos real que o esvaziamento industrial, ditado pelo crescente êxodo de grandes e médias empresas, acentua-se discreta e perigosamente. Mais grave que as perdas econômicas estrategicamente enrustidas pelas representações empresariais e contundentemente sentidas pelos trabalhadores, é a política suicida de ignorar ou mascarar os fatos. O Grande ABC está empobrecendo a olho nu. É verdade que a situação macroeconômica do País esparrama diretamente sobre a região uma onda de desalento. Mas é inconcebível que as autoridades dos mais diversos setores e calibres permaneçam praticamente imobilizadas. O ABC perde cada vez mais sua face industrial, situação que poderá empalidecer seus indicadores econômicos e sociais.  

Mais 30 anos atrás  

 Embora faltem estatísticas na região, como de resto ao Brasil, os poucos números coletados e distribuídos por algumas instituições são elucidativos. Reduz-se a força industrial da região e tolos são aqueles que acreditam que os setores comercial e de serviços assumirão automaticamente os espaços que se abrem e, desse modo, evitarão o pior. Sem produção, já está provado no grande palco do capitalismo, os Estados Unidos, não há resistência do comércio e dos serviços. O que mais assusta é a falta de unidade entre as representações políticas, empresariais e sociais no Grande ABC. Se organizar de forma conjunta os sete Municípios do Grande ABC parece ser tarefa impossível para os políticos, sobretudo quanto às questões da produção industrial, porque há bloqueios naturais do ponto de vista doutrinário a desestimular tal proposta, pelo menos as bases empresariais da região poderiam unir-se para uniformizar gestões junto às prefeituras, de modo a que surgisse algo como um plano industrial. 

Razões das notas 

Um e outro ignorante nas redes sociais, sobretudo ligados a prefeitos de plantão, procuram satirizar o modelo de mensuração de resultados dos atuais prefeitos dos municípios mais importantes da região. Eles são tão burraldos que não perceberam que a iniciativa carrega um caminhão de criatividade no sentido de que procura mesmo dar conotação mais popular a um assunto árido.  

As notas são apenas a cereja do bolo de massificação da ideia de que o jornalismo pode, precisa e deve imiscuir-se mais e mais em avaliações técnicas.  

Expor como andam Santo André, São Bernardo e São Caetano após três anos de Paulinho Serra, Orlando Morando e José Auricchio sem a ambientação de uma disputa, de uma concorrência entre eles, poderia passar em branco pelos leitores.  

Contra uma minoria estúpida porque é de encomenda, uma maioria estonteante pode acompanhar o alinhavar de análises que, fosse o jornalismo nacional menos refém de demandas insossas, seriam uma constante nos veículos de comunicação. 

O prevalecimento do varejismo, especialmente de política no sentido mais rasante da atividade, mostra o quanto jornalismo nacional está divorciado das necessidades de mudanças tão demandadas pelos consumidores de informações.

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