Esportes

Araraquara festeja Saul Klein;
São Caetano de Nairo estrebucha

  DANIEL LIMA - 21/11/2019

Está-se delineando com certa clareza o futuro do agora investidor Saul Klein, o maior mecenas que o futebol brasileiro já conheceu. O homem que é a síntese do sucesso do São Caetano no futebol brasileiro está acertando os ponteiros com a Ferroviária de Araraquara. Nada está assinado e confirmado, mas o encaminhamento jurídico vai nesse sentido. As formalidades legais avançam.

Mais certo que isso é que São Caetano está completamente fora do radar do herdeiro da Casas Bahia. E está estrebuchando com Nairo Ferreira.

Duas das várias alternativas disponíveis a Saul Klein para ancorar a empresa que constituiu para comandar uma equipe de futebol estavam vinculadas ao São Caetano. Não estão mais. Tanto uma quanto outra são barcos furados, segundo interpretação do entorno de Saul Klein. E, mais que isso, não despenderiam qualquer novo esforço. Nairo Ferreira criou um monstro de dívidas. Resta-lhe a tentativa de passar o ponto. Não será fácil.

Descaso municipal

O que é chamado de insensibilidade, quando não de descaso da Administração de José Auricchio Junior, agravou a situação. O prefeito de São Caetano parece não considerar relevante o futebol patrocinado durante duas décadas por Saul Klein. Não teria havido um único contato de José Auricchio com Saul Klein. Ou seja: não houve esforço algum para tentar encontrar uma saída. Ou mesmo um gesto de agradecimento pela trajetória de sucesso do São Caetano.

A festa que Araraquara fez na noite de anteontem, com centenas de torcedores comemorando a aprovação do negócio envolvendo a empresa de Saul Klein pelos conselheiros-associados do clube, é inversamente proporcional ao silêncio e ao desinteresse de São Caetano.

Araraquara comemora a chegada de Saul Klein, mesmo que ainda tudo não esteja preto-no-branco. São Caetano simplesmente desdenha do empreendedor que colocou a cidade no mapa de admiração nacional.

Futebol é uma atividade que vende a imagem de qualquer município. Ferroviária de Araraquara chega a ser redundante, por exemplo. Como Guarani de Campinas, São Bento de Sorocaba e tantas outras denominações. São Caetano, então, é duplamente interessante. Como Santo André, São Bernardo, Taubaté e tantas outras agremiações que carregam o nome da cidade que representam.

Alternativas descartadas

As duas alternativas que poderiam segurar Saul Klein em São Caetano foram para o beleleu. Definitivamente, segundo alguns conselheiros do clube que têm interlocução com amigos muito próximos de Saul Klein.

O São Caetano Futebol Limitada, presidido por Nairo Ferreira, colocou a Associação Desportiva São Caetano, então também presidida por Nairo Ferreira, em um saco duplo de complicações. A gestão de cada entidade esportiva, que deveria ser independente, foi extravagantemente misturada. Houve contaminação dos recursos financeiros, prevalecentemente de doações milionárias de Saul Klein. O malabarismo seria um fosso sem fundo de complexidades fiscais.

Por isso, não há como separar clube associativo de clube-empresa em qualquer tentativa de resolver a situação do futebol do São Caetano. Não existe água e óleo a se distinguirem. São gestões farinha do mesmo saco.

Deixar que Nairo Ferreira se esborrache com o São Caetano Futebol Limitada e dirigir todas as baterias de investimentos a um novo clube-empresa que teria o aval da Associação Desportiva São Caetano está completamente fora de cogitação. Há tanta contaminação que as duas instituições não escapam. Tem-se quadro de metástase jurídica letal. 

Metades complementares

Sempre é interessante lembrar que São Caetano Futebol Limitada e Associação Desportiva São Caetano são metades da mesma laranja. A Associação Desportiva representa legalmente o Futebol Limitada nas instâncias esportivas. Até outro dia Nairo Ferreira presidia as duas agremiações. Renunciou à Associação Desportiva após ser pressionado por conselheiros.

Nairo ficou com o pepino maior da Sociedade Limitada, cujo contrato de representação do futebol vai até 2027. Essa representação legal poderia ser rompida pelo clube associativo, mas não resolveria o problema. O clube associativo tem 1% de participação acionária no clube-empresa. Fração suficiente para sofrer as consequências sucessórias de eventual e mais que provável dissolução do clube-empresa. Ou seja: sem Saul Klein o São Caetano se tornou um mico duplo. 

Uma dívida estimada em mais de R$ 30 milhões desestimularia eventual venda das ações a investidores. Diferentemente, portanto, do negócio que Saul Klein está fechando com a Ferroviária de Araraquara, também um clube-empresa com vínculos legais com a outra metade de clube associativo. Os sócios do clube associativo já aprovaram a negociação com Saul Klein. Agora restam os acionistas do clube-empresa.

Tentativa frustrada

Essa operação poderia ter sido realizada no São Caetano presidido por Nairo Ferreira, enquanto Saul Klein estava fora de combate, com problemas de saúde que o retiraram de cena esportiva durante cinco anos. O empresário de futebol Giuliano Bertolucci enviou emissários para avaliar a aproximação. Houve recuo diante de várias inconformidades que, então, tornaram o estado de saúde financeira mais que comprometedor. O ambiente estrutural do São Caetano assustou emissários de Bertolucci. Havia indícios de contratempos em vários setores.

Em seguida, houve aproximação do grupo de Bertolucci com Saul Klein durante as negociações preliminares para assumir o Santo André. Havia encaminhamento à aprovação. Uma empresa especializada chegou a ser contratada para inventariar as finanças do Santo André. Tudo parecia encaminhar-se à troca do São Caetano pelo Ramalhão, mas uma notícia publicada no Diário do Grande ABC, que dava conta de que haveria insatisfação de conselheiros com os valores que envolveriam a transferência de comando do futebol, levou Saul Klein a desistir.

Frustração com Santo André

Os valores mencionados jamais constaram das tratativas. Realizar a incorporação do Santo André significaria contratempos aos dirigentes do clube. Qualquer valor diferente do mencionado pelo jornal poderia conter ilações de desconfiança. Sem contar que Saul Klein quer tudo na vida, menos se meter em enrascada. A experiência com Nairo Ferreira é traumática.

Saul Klein parece feliz com a solução encontrada no Interior do Estado. Há um ecossistema de comunicação muito mais interessante a investimentos. Redes de emissoras de rádio e de retransmissoras de televisão fermentam noticiário esportivo muito mais caudaloso que no Grande ABC.

O Poder Público veste a camisa daquele clube fundado em 12 de abril de 1950 e cujo melhor momento foi o terceiro lugar no Campeonato Paulista de 1959, atrás de Palmeiras e Santos quase imbatíveis. A Ferroviária foi fundada antes de Saul Klein nascer.

Araraquara acredita que, embora o clube tenha saído do ostracismo nos últimos anos, pós-lançamento do modelo empresarial, Saul Klein significa a redenção na parceria com a empresa de Giuliano Bertolucci. Chegar à Série A do Campeonato Brasileiro em cinco anos gerou catarse entre os torcedores.

Em São Caetano não existe reações que lembrem a importância histórica da agremiação. O estrebuchamento de Nairo Ferreira nas manchetes de jornais pode ser o último capítulo de insolvência iminente. Ou de um estado vegetal de manutenção de um time que sempre dependeu das doações de Saul Klein.

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