Economia

São Bernardo e Santo André
lideram massa de excluídos

  DANIEL LIMA - 28/11/2019

Os resultados econômicos e sociais do Grande ABC neste século (como se não bastassem os dados das duas últimas décadas do século anterior, quando começou o processo de desindustrialização) são extremamente preocupantes. Ganhamos um presente de grego nos últimos 20 anos em forma de mais que uma Ribeirão Pires de famílias de excluídos, como podem ser considerados os pobres e os miseráveis.

E quem mais sentiu a fragilização da sociedade é São Bernardo, Capital Econômica da região e sede de quatro das cinco montadoras do Grande ABC. São Bernardo teve sobrecarga de pobres e miseráveis de 51,59%. O resultado está bem acima dos 30,00% da média regional.

O acréscimo de excluídos em 20 anos no mapa regional foi de 45.143 famílias. Chegamos a quase 200 mil moradias de pobres e deserdados. Praticamente 20% do total geral.

Encolhimento e crescimento

Em qualquer lugar do mundo civilizado e minimamente responsável, senão solidário, os dados que captamos da Consultoria IPC, maior empresa brasileira especializada em potencial de consumo, promoveriam orquestração em busca de saídas que minimizassem a situação. Até porque, como mostramos nesta semana, do outro lado do estrato socioeconômico, das famílias ricas, encolhemos bastante. Temos cada vez menos famílias ricas em números absolutos e relativos.

No Grande ABC de quinquilharias administrativas e de varejismos políticos, parece que tudo continua como antes.  E mesmo se tudo continuasse como antes, ou seja, antes da chegada deste século, a situação já seria suficientemente preocupante. A degringolada regional vem do passado. Não é obra circunstancial, como alguns irresponsáveis com acesso à mídia sugerem. Uma obra bem-acabada, por assim dizer, porque não é consequente de acasos, mas de abusos, covardias, compadrios e tudo que possa ser rotulado de passivo de uma sociedade amorfa.

Capital Econômica disseminadora

O quadro é de inquietação porque justamente São Bernardo é a mais duramente atingida pelas transformações a bordo de uma desindustrialização incessante. Quando o carro-chefe de uma economia regional cai pelas tabelas, o restante, mesmo que não tão impactado assim, segue na mesma direção. Em velocidade inferior, é verdade, mas desfiladeiro abaixo.

Maior poderio econômico do Grande ABC, São Bernardo assiste à multiplicação de famílias de classe pobre e miserável. Eram 39.957 residências em dezembro de 1999. Agora são 60.571 nesta temporada. Um aumento de 51,59%. Um aumento de 20.614, ou 45,66% do acréscimo regional de 45.143 unidades.

Ribeirão Pires conta com 40.461 moradias no conjunto da população, ou seja, na soma de todas as classes sociais. Portanto, um universo geral inferior ao universo específico de aumento de deserdados no Grande ABC. 

Experimente esse voo

Imagine um voo panorâmico sobre Ribeirão Pires. Experimente. Olha para baixo. Tudo que for visto em forma de residência é o tamanho do estrago regional sob a ótica de aumento da exclusão social em 20 anos.

Que fique bem claro: um pouco mais que Ribeirão Pires de excluídos é apenas o saldo negativo deste século. Quando se constata que o Grande ABC conta com 195.686 residências de pobres e miseráveis, a imagem comparativa é outra. Temos praticamente a soma de São Caetano e de Diadema como resultado final.

Experimente um novo voo panorâmico, agora na geografia desses dois municípios, e veja o quanto de complicações sociais o Grande ABC reserva. Pior que isso só a projeção de que esses números continuarão crescendo. O Grande ABC perdeu o rumo econômico e isso gera infortúnio social.

Muito marketing

A negligência com que gestores públicos e entidade tratam o empobrecimento do Grande ABC e especialmente de São Bernardo neste século é o retrato do comportamento geral: há preocupação cotidiana com aparências promocionais de um marketing exagerado, politizado, enquanto a população sofre com o esvaziamento econômico.

No ranking do PIB Geral dos Municípios neste século, o Grande ABC ocupa os últimos lugares na Região Metropolitana de São Paulo.

Dupla dominadora

Em termos relativos, São Bernardo viu a população de excluídos mais que dobrar em relação às famílias de classe rica. Entre 2000 e 2019, aumentou em 156,07% essa proporção: eram 2,14 famílias pobres para cada família rica em 2000; e passou para 5,48%.

No Grande ABC como um todo o resultado foi menos dramático: eram 3,94 famílias de pobres e miseráveis em 2000 para cada família de classe rica, enquanto na ponta da tabela a proporção passou para 6,06%.

Embora de forma menos impactante, mas também grave, Santo André ocupa o segundo lugar no ranking regional de inchaço de famílias pobres e miseráveis neste século. Eram 39.824 residências no começo do século e agora são 51.458. Crescimento de 29,21% no período. Juntas, Santo André e São Bernardo representam 57,25% dos excluídos do Grande ABC.

Diadema é a terceira colocada no ranking regional de excluídos neste século. Eram 24.411e passaram para 30.413, com crescimento de 24,59%. Mauá conta com números relativos semelhantes: aumentou em 23,77% as casas de excluídos, que eram 25.446 em janeiro de 2000 e passaram a 31.495 nesta temporada.

São Caetano na lista

São Caetano também expõe números preocupantes, porque aumentou o contingente de deserdados em 16,13%, passando de 8.952 para 10.396 famílias. Já Ribeirão Pires reduziu discretamente as moradias de excluídos, em 2,33%: eram 7.856 e passaram para 7.673. Rio Grande da Serra aumentou discretamente em 3,49%, passando de 3.556 para 3.680 residências.

Em números redondos, um quinto da população do Grande ABC é integrada por famílias pobres e miseráveis na escala econômica, segundo a métrica da Consultoria IPC com base em dados de um coquetel de fontes oficiais.

A menor proporção de excluídos em relação ao total de residência está em São Caetano, onde 10.396 moradias significam 17,40%. Em Santo André são 20,50%, em São Bernardo 21,30%, em Diadema 21,50%, em Mauá 20,20%, em Ribeirão Pires 19,00% e em Rio Grande da Serra 21,90%.

Enquanto as autoridades públicas e as forças vivas dos formadores de opinião não acordarem para a realidade dos fatos que parecem se perpetuar, com agravamento persistente, o melhor é rezar para que alguma mudança, mesmo que acidental, faça pousada no Grande ABC. O Eldorado econômico de parte da segunda metade do século passado está virando pó.

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