Política

Como ganhar uma prefeitura
com 13 pontos que se misturam?

  DANIEL LIMA - 15/01/2020

Como chegar a uma prefeitura é o grande desafio aos candidatos locais a cada quatro anos. Como se tornar viável eleitoralmente é um enfrentamento constante e que deve ser encarado como etapas de uma guerra. São batalhas a serem vencidas tendo em vista como sinal de alerta a perspectiva de que os concorrentes estarão no encalço ou à frente. Listamos 13 pontos imprescindíveis à empreitada.

Desalojar qualquer um desses vetores da casa de preparação à disputa é o mesmo que entender que chão é desnecessário, que parede é supérfluo e que teto é bobagem dos arquitetos. Casa de fantasias infantis não enche a barriga de probabilidade de vitória. Serve apenas (e muito) para encantar ouvintes que carregam Vinicius de Moraes no coração.

A competitividade de uma disputa eleitoral majoritária numa geografia complexa com a do Grande ABC deveria ser replicada nos quatro anos seguintes, quando os vencedores praticamente não são acossados. Vivem no bem-bom de acordos políticos e tantos outros que os colocam a salvo de maiores injunções democráticas.

Treze pontos cardeais

Pretendo desdobrar esse texto-central em capítulos que abordariam cada um dos 13 pontos listados como essenciais à disputa. Nem sempre é possível dar vazão ao interesse de colaborar com a sociedade com matérias mais alongadas.

A saída seria produzir texto único, com todas as variáveis que vou listar abaixo. Já adotei essa medida muitas vezes, mas estou com preguiça e sem tempo para repetir algo parecido neste dia. Daí ter decidido esquartejar a proposta de supostamente saciar o interesse do leitorado.

Como ganhar uma eleição em 13 capítulos? Olha que esse poderia até ser o título de um livro que serviria como manual de orientação. Ótimo, ótimo e ótimo. Mas se estou com preguiça para preparar uma análise mais longa, o que seria então de um livro? A repartição em capítulos pode ensejar uma dupla satisfação pessoal: basta transformar cada edição num produto que se multiplicaria em páginas de um livro.

Deixemos isso de lado. Vamos revelar de imediato quais são os pontos que mais pesam na definição concorrencial de candidatos ao posto principal do Executivo. A lista que se segue não tem necessariamente nenhum valor no sentido de que seguiria a uma ordem de importância. Exponho os vetores de forma aleatória. Conforme me deu na telha. Vamos lá, então: 

1. Agenda Local.

2. Agenda Regional.

3. Imprensa.

4. Programa Eleitoral.

5. Política Estadual.

6. Política Nacional.

7. Economia Regional.

8. Economia Nacional.

9. Redes Sociais.

10. Mobilidade Urbana.

11. Memória Eleitoral.

12. Ambiente Metropolitano.

13. Pesquisas Eleitorais. 

Sem uso de torniquete

Para que não digam que preparei um torniquete de conceitos que imobilizariam um aspecto essencial à construção de uma candidatura competitiva, antecipo que não estabelecerei peso algum aos 13 quesitos listados.

Isso quer dizer que não vou definir uma equação na qual 100% seja o limite-base e, com isso, passe a atribuir valores percentuais a cada modalidade proposta. O que é potencialmente uma mistura de objetividades e subjetividades ganharia rigidez avaliativa contraproducente.

Querem um exemplo didático? O caro leitor acredita que tem mais peso para cada eleitor no remelexo geral de definição de preferência eleitoral um quesito que leve em conta a influência das Pesquisas Eleitorais em relação à Economia Regional ou entende que é exatamente o contrário, ou mesmo que tanto um ponto quanto outro seguem a mesma dimensão?

É praticamente impossível (nem as pesquisas eleitorais conseguiriam chegar a uma hierarquia de valoração quando se colocam os 13 pontos em confronto entre si) pegar a lista aí de cima e alterar a ordem de valor de acordo com cada cabeça do eleitorado. Mesmo que os eleitores fossem instados a escolher três das 13 alternativas como carros-chefes os resultados finais não contemplariam uma lógica consistente.

Não necessariamente o que penso sobre a grade de importância dos 13 pontos esquadrinhados se reproduz no conjunto do eleitorado que vai às urnas em outubro. Cada cabeça, uma sentença avaliativa.

Resultados imprevisíveis

Sei que o leitor está louco para saber, por exemplo, quais seriam as três principais âncoras à competitividade de um concorrente a prefeito no Grande ABC, notadamente nas grandes cidades locais. Tenho preferências, claro, mas minha escolha é tão relevante quanto a de qualquer outro eleitor.

Enquanto dedilho estas linhas (sempre me imagino ao piano quando estou diante do computador) projeto a possibilidade de matar minha própria curiosidade e, olhos grudados nas 13 propostas, procura escolher as três principais sob o meu ponto de visto. Passo os olhos na lista mais duas vezes. Alongo no tempo o desafio de sair com uma resposta. Insisto em botar os olhos nos 13 pontos. Nada, absolutamente nada, me conduz a uma conclusão.

A explicação é simples, no meu caso, mas poderá nem ser levada em conta em tantas outras situações com leitores de diferentes perfis: vejo o todo como intrinsecamente indescartável. Não dá mesmo para escolher os três melhores jogadores em campo (essa é a proposta, não é verdade?) sem considerar que o todo tem um peso conjunto indissociável ao rendimento individual.

Um exemplo prático

Querem que traduza em termos práticos? Como é possível, por exemplo, ceder à tentação do lugar-comum de que a Agenda Local é o cerne da questão eleitoral (é o que repetem em todas as entrevistas os chamados cientistas políticos) se não houver um quadro estruturante a dar suporte? Um prefeito bom de obra, por exemplo, não resiste a uma disputa eleitoral se fiar preponderantemente no legado que carregaria a um segundo mandato.

Talvez a melhor resposta que possa ser dada para um diagnóstico de probabilidade de sucesso coloque os 13 pontos listados em duas categorias distintas, mas complementares: a) Quesitos Imprescindíveis; b) Quesitos Reforçadores.

Feito isso, mas sempre lembrando que sem as duas metades da mesma laranja não se tem a laranja inteira, arrisco definir os dois grupos dos 13 pontos listados. Repito a lista e acrescento I (para Imprescindível) e R (para Reforçadores). Vamos lá, então:

 Agenda local (I).

 Imprensa (I).

 Programa eleitoral (R).

 Agenda regional (R).

 Política estadual (R).

 Política nacional (R).

 Economia regional (I).

 Economia nacional (I).

 Redes sociais (I).

 Mobilidade urbana (R).

 Memória eleitoral (R).

 Ambiente metropolitano (R).

 Pesquisas eleitorais (I). 

Entrecruzamentos complexos

Não custa lembrar que não é porque se situariam em dois grupos distintos e complementares que os quesitos de uma turma têm o mesmo peso ponderável e, também, que os quesitos da outra turma também tenham igualmente o mesmo peso ponderável. Na valoração individual dos vetores, a subjetividade seguirá mantendo o espirito do avaliador.

Ou seja: Quesitos Imprescindíveis e Quesitos Reforçadores entrecruzam também fora dos respectivos agrupamentos. Quem achar que Memória Eleitoral é mais importante que Mobilidade Urbana (os dois quesitos são reforçadores) certamente terá razões para isso. Da mesma forma que quem entender justamente o contrário o fará na definição de voto levando em consideração o contexto que o cerca.

Sei que parece complexo o que acabo de escrever. Tudo que é complicado à primeira vista pode ser simplificado em seguida porque na engenharia político-eleitoral não existem facilidades aparentes que se sustentem quando escrutinadas. Da mesma forma que o aparentemente emaranhado não passa de uma porção de peças que, manejadas com destreza, se encaixam perfeitamente.

Espero levar adiante a proposta de esmiuçar nos próximos tempos cada uma dessas 13 variáveis eleitorais. Os leitores cada vez mais participantes do mundo político (e cada vez mais engajados em disputas acaloradas) estão na praça para serem decifrados pelos especialistas, da mesma forma que esses mesmos leitores também são protagonistas de conhecimentos e sensações que colocam os especialistas sob os rigores de um contraditório mais denso.

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