Política

Quantos prefeitos o PT pode
fazer este ano no Grande ABC?

  DANIEL LIMA - 22/01/2020

Em 15 de junho de 2016 fiz uma projeção sobre o comportamento dos eleitores que iriam às urnas menos de quatro meses depois: “PT corre o risco de não contar com um prefeito sequer em 2017”. Agora, com um pouco mais de distância temporal, a quase nove meses das eleições, pergunto algo semelhante: “Quantos prefeitos o PT pode fazer este ano no Grande ABC? ”. 

A diferença entre uma pergunta e outra é que o PT de 2016 estava sob o fogo cruzado da Operação Lava Jato e foi às urnas com três prefeitos na ativa. Agora, sob os efeitos mais diluídos da Operação Lava Jato e do impeachment de Dilma Rousseff, o PT não conta com uma Prefeitura sequer. 

Com quantas prefeituras poderá contar quando as urnas eletrônicas forem apuradas em segundo turno? 

Passado embasa presente 

Vou responder com várias ressaltas. Antes, vou recorrer a alguns trechos da matéria que publiquei em 2016 para justificar aquela pergunta provocativa e, com isso, procurar transplantar avaliações ao contexto atual. Vamos lá? 

 A batalha está praticamente perdida em São Bernardo. Em Diadema, mais perdida do que ganha. Em São Caetano, nem mais com Paulo Pinheiro como cavalo de Troia. Em Rio Grande da Serra e Ribeirão Pires, praticamente sem possibilidades. Sobram Santo André e Mauá, principalmente porque a oposição não é lá essas coisas -- embora também não seja coisa nenhuma. Esse é um retrato apressado, confesso, das perspectivas do PT nas eleições de outubro próximo. Pela primeira vez desde que Gilson Menezes, em 1982, ganhou a Prefeitura de Diadema, o PT pode não contar com um representante sequer no Poder Executivo da região. Seria uma catástrofe para a imagem já tão debilitada da agremiação. E um golpe fatal nas pretensões do prefeito Luiz Marinho disputar o governo do Estado, projeto que, a bem da realidade, já deve ter sido desativado. 

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 Em outubro de 2012 o PT garantiu três prefeituras na região (São Bernardo, Mauá e Santo André), surfando ainda nos resultados do governo federal de Lula da Silva, que combateu o que chamou de marolinha com o incremento de crédito farto e barato, o qual, como se sabe, está na origem dos descalabros que nos custa a maior crise econômica da história. Não bastasse a crise nacional, as torneiras de financiamento eleitoral daquela temporada podem custar caro a muitos petistas, conforme o andar da carruagem dos filhotes da Operação Lava Jato. Ou o leitor acredita que o PT das campanhas eleitorais de 2012 construiu uma barreira ética para impedir que a dinheirama do Petrolão chegasse à região? Os sinais exteriores de aquecimento das turbinas das candidaturas avermelhadas impressionavam. 

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 Também entrou na contabilidade petista de 2012 a vitória de Paulo Pinheiro em São Caetano, antecipada exclusivamente por este jornalista. Os demais veículos de comunicação se calaram ante o suporte financeiro do PT de um Luiz Marinho então de olho na estruturação de uma base política e eleitoral que o levaria ao Palácio dos Bandeirantes. Faltou combinar com os russos da Lava Jato. Paulo Pinheiro virou prefeito e custou a se livrar mesmo que parcialmente do jugo petista, com ampla distribuição de cargos comissionados. A votação geral do PT em 2012 foi levemente superior à dos azulados e assemelhados. Os votos válidos aos candidatos petistas às prefeituras naquelas eleições representaram 51,29% do eleitorado, contra 48,71% dos adversários. O berço do petismo dava provas de vigor.

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 Dois anos depois, já com o desgaste do governo Dilma Rousseff, o PT rebaixou o capital de votos na região e perdeu pela primeira vez, desde a vitória de Lula da Silva em 2002, o mando do jogo local, ou seja, a supremacia como agremiação mais popular. Na disputa com Aécio Neves, o PT de Dilma Rousseff ficou com 41,68% dos votos na região, contra 58,32% do ex-governador de Minas Gerais. Não venham me dizer que não há cabimento técnico-sociológico e o escambau ao comparar os votos petistas para as prefeituras da região em 2012 e os votos petistas para Dilma Rousseff dois anos depois. É muito estreita a margem de erro de juntar as duas partes. O PT conta com eleitorado ideológico, engajado, uniforme, aqui nesta Província, muito mais que no restante do Brasil. A história regional de disputas sindicais, de trabalhadores versus patrões, destilada pelos petistas, dá lastro à assertiva. Portanto, não existe disparate analítico nessa avaliação.

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 Basta pegar qualquer mapa eleitoral dos municípios locais para constatar essa verdade. Carlos Grana, por exemplo, ganhou as eleições de Aidan Ravin em 2012 na medida em que se abriam as urnas da periferia. Marinho estourou nas beiradas de São Bernardo. Diadema periférica também votou mais no candidato petista. É a esse ponto – no encaixe do voto popular favorável ao petismo – que pretendia chegar. As pesquisas preliminares de vários candidatos da região apontam que o exército de eleitores das áreas mais pobres da região já não tem o PT como preferência extraordinariamente majoritária. E a classe média baixa, beneficiada com as políticas econômicas de Lula da Silva, execra os tempos de Dilma Rousseff. O engajamento eleitoral de conveniência favorável ao PT está fragilizado. Desemprego, inflação, escândalos e tudo o mais formam uma composição explosiva ao petismo.

Retomada do tempo

Paro com a reprodução de trechos da análise de oito anos atrás. As pesquisas que medem o tamanho da satisfação dos eleitores com o governo de Jair Bolsonaro indicam que nas periferias das cidades metropolitanas e no Nordeste, principalmente, o PT volta a contar com prestígio. A Lava Jato vai sendo esquecida aos poucos. Até porque não faltaram concorrentes a retirar o cetro de malandragens dos petistas. Senão a retirarem, pelo menos a dividirem. Ou seja: a leitura dos eleitores é de que havia um conglomerado geral e irrestrito de bandidos políticos distribuídos por todos os partidos.

Isto posto, saco da arma do pragmatismo meio arriscado para antecipar o que penso sobre as eleições no Grande ABC neste fim de janeiro.

Para começo de conversa, é melhor o prefeito Orlando Morando se cuidar porque Luiz Marinho vem com tudo e pode ter o apoio de Alex Manente, embora se propague acordo informal de que uma mão lavaria a outra, ou seja, Manente incentivaria seu eleitorado cativo a votar em Morando e teria a garantia de que não seria incomodado pela turma tucana na eleição seguinte.

Instituto especulativo

Hoje, segundo o Instituto DataDaniel, aquele que é especulador por natureza, mas não tem a safadeza de institutos oficiais, a diferença que separa Morando de Marinho é de 20 pontos percentuais. Provavelmente até outubro haverá redução acentuada, independentemente de Alex Manente ser ou não candidato.

Em Diadema, o prefeito sem direito à nova eleição Lauro Michels divide-se entre alguns aliados para representar a situação contra um adversário que vem com fogo nas ventas de probabilidade de sucesso, o ex-prefeito José de Filippi Júnior. É um jogo dificílimo para os verdes e aliados.

Outra praça em que o PT pode chegar ao pódio é Mauá, cuja gangorra de ocupação do Paço Municipal é um acinte que provavelmente será punido pelo eleitorado. Qualquer que seja o candidato petista, o ex-prefeito Oswaldo Dias ou outro escolhido, a tendência é de estreitamento do intervalo de votos entre os dois principais concorrentes.

Mauá pornográfica

Possivelmente o enroladíssimo prefeito Atila Jacomussi disputará a reeleição. Nem sei se é lúcido chamar de reeleição algo que sofreu várias interrupções por força judicial. O bate-e-volta no cargo caracteriza algo não recomendável a menores de 18 anos. Caso houvesse um símbolo gráfico inspirado em pornografia a classificar o desempenho de uma administração pública nos moldes das estrelas de hotéis, a gestão de Atila Jacomussi encontraria algo compulsório e sem contestação.

Nos demais municípios da região parece não haver possibilidade de o PT vingar. Até porque não tem peso de representatividade ressurrecional mesmo com eventuais triunfos.

Estava me esquecendo de Santo André. As más línguas garantem que o PT está tão entranhado na Administração de Paulinho Serra que é bobagem qualquer conjectura eleitoral que os coloque em confronto direto. A candidatura de Bete Siraque seria apenas um jogo de cena. Lideranças petistas beneficiárias da gestão Paulinho Serra não dariam suporte necessário. O PT já entregou a rapadura em Santo André e o que vier a fazer não passará mesmo de jogo de cena. Qualquer enredo diferente disso seria uma tremenda zebra. 

Arrastamento eleitoral

Embora não me jogue inteiramente nas águas passadas das eleições à Presidência da República, em 2018, há uma cultura de arrastamento eleitoral no País que indicaria a influência daqueles números nos números que virão.

Quem entende que eleição presidencial é uma coisa muita diferente de eleição municipal talvez esteja certíssimo, menos quando se trata do território do Grande ABC. Aqui o PT está umbilicalmente preso a um eleitorado fiel e como tal possivelmente se comportará em outubro.

Nesse caso, como desconsiderar o caudal de petistas que votaram em Fernando Haddad contra Jair Bolsonaro no segundo turno presidencial em São Bernardo ao se constatar uma diferença de 59,57% a 40,43% dos votos válidos? Considerando-se que Luiz Marinho, concorrendo apenas por concorrer ao governo do Estado contra três medalhões da política (João Doria, Márcio França e Paulo Skaf), obteve 25% dos votos válidos em São Bernardo, não é nada sensato avaliar a disputa como perdida.

Igualdade em Diadema

Em Diadema, o jogo foi ainda mais virulento em termos numéricos. O petista Fernando Haddad foi derrotado por Bolsonaro por estreitíssimos 52,00% a 48,00% votos válidos. Talvez na cidade mais vermelha da região, berço do primeiro prefeito petista do País, no longínquo 1982, com Gilson Menezes, o PT tenha efetivamente mais probabilidade de acabar com o zero no placar de representatividade no Grande ABC. Um zero sofrido pela primeira vez desde a redemocratização.

Completando o trio de permeabilidade dos eleitores à sedução petista em outubro, em Mauá a situação é tão complexa em forma de candidaturas como em números. Na eleição presidencial os bolsões bolsonaristas foram mais expressivos que os dos petistas de Fernando Haddad. A votação final de 62,07% a 37,93% foi estrondosamente negativa para o PT, mas tanto a polarização entre petistas e bolsonaristas quanto o fracasso de Atila Jacomussi podem conduzir a disputa deste ano a um terreno menos desigual.

Números como desafios

Ainda devo voltar várias vezes a esse nicho eleitoral porque tenho certa compulsão por prospecções. Tanto que até mesmo a matemática me seduz com pesquisas sobre diversos indicadores da região, geralmente em confronto com outras áreas geográficas do Estado.

Para quem detestava essa matéria nos tempos de escola, acho que sofri uma lavagem cerebral e tanto.  Que tipo de lavagem cerebral? O inconformismo por não ver o futuro como um desafio constante da sociedade em qualquer que seja a atividade humana.

Costumo dizer que não gosto de política, mas, paradoxalmente, juntamente com Economia e Esporte, me seduz a elucubrações. Tanto que nesta altura do campeonato diria que o jogo regional está seis a um para os adversários do PT (o gol petista vem de Diadema), com possibilidades de redução da diferença.

Os eleitores e os leitores já relativizaram os escândalos que puniram duramente os petistas; ou seja, os casos denunciados já não têm o mesmo impacto junto ao eleitorado. Parece que já se precificaram as perdas e os danos. Não haveria virgem na casa de massagens. E quanto tudo parece indicar que todos os gatos são pardos, encontrar diferenças é uma tarefa restrita aos mais detalhistas.

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