Esportes

Mais um primo rico versus
primo pobre no Bruno Daniel

  DANIEL LIMA - 27/01/2020

Na tarde desta quarta-feira teremos um novo encontro entre o primo pobre Santo André e o primo rico Água Santa de Diadema, agora pela Série A1 do Campeonato Paulista. Depois de duas rodadas de 12 programadas, o Santo André carrega a vantagem de 100% de aproveitamento diante de um adversário que não ganhou ponto algum. Favorito, então? Depende. 

Se prevalecer o perfil de rendimento até agora, o Santo André salta para nove pontos e praticamente se tornaria um fugitivo de sucesso na luta contra o rebaixamento. E o Água Santa aprofundaria o fosso rumo à Série A2, de onde saiu por obra da Federação Paulista de Futebol num caso mais que conhecido como a vaga da vergonha.

Embora seja o clube mais longevo e persistente no futebol profissional da região, o Santo André configura-se como primo pobre dentro de campo porque conta com poucos recursos financeiros para enfrentamentos de alto nível. 

O Água Santa é um time mantido por milionários do setor de transporte público e gasta o quanto pode. Mas não têm a experiência histórica de entender o futebol profissional da Série A1. Novos ricos no futebol não costumam cortar caminho rumo ao sucesso com facilidade. Geralmente apanham muito. 

Rodadas emblemáticas 

Possivelmente o tempo vai dar ao Água Santa o que o Água Santa tanto precisa para transformar fartura financeira em glórias estaduais e quem sabe um lugar no circuito nacional do qual o Grande ABC está excluído após grandes resultados na primeira década deste século. 

Embora seja muito precoce alinhavar as possibilidades do Água Santa e do Santo André na Série A1 desta temporada, o que as duas primeiras rodadas mostraram é que há dois modelos de praticar futebol em disputa. 

O Santo André é mais modesto em salários, em técnica e em argamassa econômica, mas cortou o caminho próprio dos potenciais vencedores ao definir o modo de operação tática que utilizaria na competição. O técnico Paulo Roberto dos Santos é especialista em fazer muito com pouco. Foi assim no São Bento de Sorocaba, de sucessivos acessos. E de rebaixamento assim que Paulo Roberto deixou a agremiação. 

O Santo André que venceu a Ferroviária ontem no Estádio Bruno Daniel por dois a um e que na estreia venceu a Ponte Preta em Campinas por três a dois é um modelo de contradição de sucesso. Nos dois jogos sempre fez gols na medida em que parecia estar sob o domínio do adversário. 

Tecnologia ameaçadora

O time organizado por Paulo Roberto dos Santos faz da marcação intensa e do contragolpe rápido e objetivo armas essenciais. Quando mais parece próximo de sofrer gol, mais está na cara do gol adversário. 

Tradução: o Santo André deste início de competição é um time-armadilha. Prepara o bote e o executa. Não tem rebuscamento técnico. Exceto o pequenino Branquinho, travesso atacante que usa muito a individualidade para quebrar a marcação adversária.

Talvez o único entrave que pode reduzir a velocidade de conquista de pontos do Santo André seja a tecnologia que cada vez mais invadiu o futebol como extensão da própria humanidade. Os times são cada vez mais devassados por mineradores de dados. 

Tudo o que ocorre dentro de campo é medido, esquadrinhado e analisado. O Santo André é um time de jogadas repetitivas, quer explorando as laterais para cruzamentos a quem invade a área vindo de trás pelo meio, quer explorando o meio e enfiando a bola em diagonal a quem vem das extremas. 

Será possível anestesiar as linhas do Santo André tendo a ajuda da tecnologia? Só o tempo dirá. Mas é mais que provável que as dificuldades serão impostas. Inclusive a partir desta quarta-feira contra o visitante Água Santa. 

Autossuficiência demais 

O mesmo Água Santa de duas derrotas iniciais e que transmite a sensação de que é autossuficiente, que acredita que a força técnica e a experiência da maioria dos jogadores seriam o suporte ao sucesso. 

A derrota diante do São Paulo não deve ser levada em conta porque a diferença estrutural é gigantesca, mas o insucesso em casa contra o Novorizontino no final de semana foi emblemático: o Água Santa achou que ganharia o jogo a qualquer momento e não se deu conta de que o desfile técnico, lento, improdutivo de passes laterais e a baixa profundidade o colocam a um passo da derrota diante de adversários como o Santo André, que privilegiam a forma de marcar gols, não interessa se o conteúdo sofisticado ou não. 

Devagar, devagar, Santo André versus Água Santa vai se tornando um clássico regional. A sucessão de jogos e o incremento de rivalidade são peças-chaves para que se abandone a premissa de que disputam clássicos apenas porque pertencem à mesma região. A tendência é que se aqueçam as turbinas emocionais.

O jogo desta quarta-feira tem tudo para ganhar contornos dramáticos porque ao primo rico Água Santa é indispensável ganhar para reduzir a carga de rebaixamento que sempre ronda os sete condenados da Série A1 (os times sem-calendário nacional), e ao primo pobre Santo André o sonho de chegar ao mata-mata pode ganhar contornos de projeção viável. 

Leia mais matérias desta seção: