Sociedade

Nostratamos de Resolver faz
24 anos de alegria ou decepção?

  DANIEL LIMA - 28/01/2020

Como estariam as profecias de Nostratamos de Resolver 24 anos depois? Vou explicar do que se trata, garantindo consequência: nesta semana devo apresentar o resultado daquela iniciativa. Acabei de apanhar o material no acervo da revista LivreMercado. Mal passei os olhos sobre o conteúdo, mas tenho a impressão de que vou me dar mal.

Como profeta, apesar do nome, sucumbi à malemolência regional. Sucumbir não é verbo adequado. Ao propor aqueles desejos, por assim dizer, estava mesmo desafiando a sociedade como um todo, especialmente as autoridades eleitas, não a mim mesmo. Já estava suficientemente vacinado. O ceticismo azucrinava minha consciência.

Lembro-me como se fosse hoje. Estávamos numa das etapas do Prêmio Desempenho Empresarial (que depois se multiplicou em forma de Prêmio Desempenho Social, Prêmio Desempenho Público e outros filhotes) em pleno palco do Teatro Municipal de Santo André. Teatro lotadíssimo de convidados, não de apaniguados políticos.

Gente atenta, sobretudo porque o inferno tecnológico dos aparelhos celulares dotados de aplicativos a dar com pau estava longe da imaginação dos humanos que ainda provavam ser humanos.

Cobrança em forma de profecia

Nostratamos de Resolver foi um personagem de criei com o abuso natural do cinismo, por assim dizer. A marca remetia, claramente, ao futuro a ser construído. Produzi uma lista de 40 profecias. Alguns anos após aquele lançamento cheguei a comentar, ou melhor, a monitorar aqueles desejos todos. Há muito tempo deixei de fazer a atualização. Mas prometo que nesta semana, mais tardar na próxima, vou entregar as respostas.

Estou certo de que vou mesmo quebrar a cara. O Grande ABC é um convite à prostração mesmo em situações que já se punham sarcasticamente como redentoras.

Aqui tudo se repete no pior modelo de repetição possível, a repetição da mesmice inócua. Caímos pela tabela econômica (com as consequentes derrapadas sociais) e não há quem apareça em forma de grupo reformista para tirar a máscara dos falsificadores do passado, dos manipuladores do presente e dos procrastinadores do futuro.

O século que vivemos é provavelmente o pior da história do Grande ABC. Um século atrás ainda não me haviam colocado neste mundo, mas basta recorrer à história para entender que se descortinava alguma coisa diferente do que aqueles contemporâneos viviam. Ainda estava longe a chegada das montadoras de veículos, mas o empreendedorismo sobretudo dos imigrantes começava a vicejar e a logística ferroviária prometia investimentos no entorno. Agora o que temos é o reverso da moeda.

Dando no pé

Está dando no pé quem tem pé para correr porque a maré não está para peixe. Enquanto o Brasil mal ou bem ou rastejante saiu da recessão, continuamos atolados de preocupações. Nosso PIB Geral degringolou quando o confronto por habitante se estabelece. E o PIB Industrial, então, virou um pesadelo.

Aleatoriamente escolho uma das 40 profecias que proferi naquela noite de festa do Prêmio Desempenho. Li de forma enfática diante daquele público uma a uma cada profecia. Sei que houve quem torcesse o nariz. Era noite de festa e supostamente não caberia algo daquele tipo crítico.

Aquele pessoal conservador mal sabia que o Prêmio Desempenho sempre foi um pretexto, mas não só pretexto, para desfilar pessoalmente o que tanto escrevia nas páginas de LivreMercado. Ou seja: era uma festa democrática, que levou, sobretudo pequenos empreendedores ao palco, além de tantos outros vencedores, mas nada que não comportasse puxões de orelha em forma de editoriais que pronunciava ante silêncio ensurdecedor. Prêmio Desempenho sem a trilha musical portenha de Por uma Cabeça e os editoriais ácidos não era Prêmio Desempenho.

Regionalidade projetada

Afinal, qual foi a profecia que, repito, encontrei aleatoriamente para reproduzir aqui de forma a levar aos leitores espécie de aperitivo ao conjunto da obra que vou reproduzir e comentar nos próximos dias? Leiam a profecia número dois:  

 O Consórcio Intermunicipal, formado pelos sete prefeitos da região, transforma-se num poder colegiado acima das próprias prefeituras, em defesa da integração e do fortalecimento do Grande ABC. Com receitas garantidas por aprovação de projetos de lei enviados às Câmaras Municipais, o Consórcio finalmente se profissionaliza.

Vou responder de forma bastante sucinta a cada uma das profecias. Serão mesmo respostas curtas.

O que posso garantir é que, entre outras conclusões, quase tudo que se passou a partir de então no Grande ABC em matéria de institucionalidade praticamente esteve preso àqueles enunciados.

Afinal, nem poderia ser diferente. Nostratamos de Resolver foi o somatório (para não dizer multiplicatório) da experiência de então seis anos à frente da revista LivreMercado, e de então 30 anos de jornalismo.

Os retardatários às questões municipais e regionais que saltam nas redes sociais terão, portanto, uma tábua de valores projetados a ser cuidadosamente analisada, sob risco de cometerem injustiças com os atuais mandachuvas e mandachuvinhas da região, ao mesmo tempo em que, contrariamente, poderão reiterar os desvios deste século desses mesmos mandachuvas e mandachuvinhas.  

Acho que vale a pena esperar pelas profecias de Nostratamos de Resolver. Diria que, sem me lembrar patavina da maioria das 40 propostas em forma de esperança, pelo menos 80% deram com os burros nágua. Nada que, francamente, considerava materializável naquela noite de Prêmio Desempenho que mal esperava se tornar tão importante 24 anos depois.

Leia mais matérias desta seção: