Economia

Região perde 3,5 fábricas da
Ford com os atuais prefeitos

  DANIEL LIMA - 30/01/2020

O Grande ABC perdeu o equivalente a 3,5 fábricas da Ford nos últimos 36 meses (entre janeiro de 2017 e dezembro do ano passado) de empregos industriais com carteira assinada. O período coincide com a chegada dos atuais prefeitos. Protagonistas da maior derrocada da regionalidade do Grande ABC, em forma do estraçalhamento do Clube dos Prefeitos, herança futurista de Celso Daniel, os atuais titulares dos paços municipais vão encerrar mandatos em dezembro com baixa num dos principais medidores econômicos da região. 

Em números práticos, que simbolizam com objetividade o tamanho da encrenca regional que vem de longe e parece não ter fim, o Grande ABC perdeu 9.849 empregos industriais nos 36 meses dos atuais prefeitos.

Isso significa que a cada mês a região sofreu em média a perda de uma fábrica de 273 trabalhadores. No conjunto da obra, os demitidos no período representam 3,5 vezes o contingente de 2,8 trabalhadores apeados da logomarca da Ford em São Bernardo. Ou seja: perdemos mais de uma fábrica da Ford a cada ano dos atuais prefeitos. A barulheira em torno da debandada da multinacional esconde, portanto, situação muito mais grave. Até porque, é sistêmica. Os infortúnios da economia do Grande ABC formam uma corruptela do hino de São Paulo: vêm do passado.

Doença Holandesa Automotiva

Quem sofreu maiores dores no período foram os dois municípios mais suscetíveis à Doença Holandesa Automotiva. São Bernardo (4.659 demissões) e Diadema 1.530 demissões) somaram 6.189 postos de trabalho, ou 62,83% do total.

Doença Holandesa Automotiva é uma expressão com a qual cunhei a economia de São Bernardo, principalmente, pela dependência exagerada do setor automotivo. A atividade, carro-chefe do PIB regional, gera distorções no tecido social e econômico que vão além de São Bernardo e de Diadema.

É preciso que o emprego e a economia de São Bernardo revelem dados muito favoráveis para que o Grande ABC como um todo respire com certo alívio à constante permanência na zona de rebaixamento de Desenvolvimento Econômico.

Como essa possibilidade torna-se cada vez mais improvável, porque os conceitos de gerenciamento do Estado se alteraram e as plantas automotivas ganharam novos endereços nacionais, o que alguns ainda insistem em chamar de crises cíclicas se consolida como crise estrutural.

Só não enxerga desindustrialização do Grande ABC como processo praticamente irreversível quem é ruim de ideologia ou doente de econômica.

Consumismo sem lastro

Uma das facetas da desindustrialização (no caso a queda líquida de emprego industrial) se mantém irreversível em períodos médios e longos. O governo petista, que começou em 2003 e se estendeu além do impeachment de Dilma Rousseff, provocou mais danos ao Grande ABC do que os oito anos de Fernando Henrique Cardoso.

A política econômica do tucano destruiu pequenas e médias indústrias familiares da região com abertura econômica desigual entre desiguais. Há algo em comum entre os dois modelos de governo federal: o sindicalismo metalúrgico, sobretudo de São Bernardo, forçou a barra à manutenção de espécie de Estado paralelo.

São Bernardo e Diadema concentraram a massa de carteiras assinadas rebaixadas nos últimos 36 meses, mas os demais municípios da região não escaparam, exceto Ribeirão Pires. Santo André sofreu queda de 720 trabalhadores, São Caetano de 1.633, Mauá de 1.996 e Rio Grande da Serra de 452 postos de trabalho. Ribeirão Pires teve saldo positivo de 141 carteiras assinadas.

Mauá lidera derrocada

Em termos proporcionais (que é a melhor aferição para se tomar o pulso do emprego formal), o maior fosso no estoque de empregos formais do setor nos três anos dos atuais prefeitos está localizado em Mauá, onde foram destruídos 9,60% dos vínculos profissionais do setor industrial. Ou seja: para cada 100 empregos industriais de dezembro de 2016, quase 10 desapareceram nos últimos 36 meses.

Em São Bernardo foram 6,24% de baixa, em São Caetano 7,18%, em Diadema 3,64%, em Rio Grande da Serra 29,73% e em Santo André 2,93%. Há explicações específicas sobre essas variações. Trataremos disso em outra análise.

O Grande ABC registrou em dezembro do ano passado o acumulado de 170.545 empregos formais no setor industrial. Uma queda de 5,46% quando comparado a dezembro do ano anterior, que registrou 180.394.

É mais que provável que os reveses no mercado de trabalho não tenham o acompanhamento do ritmo do PIB dos Municípios locais. Os números são revelados sempre com dois anos de atraso. Em dezembro último o IBGE anunciou o resultado geral do Grande ABC de 2017, com crescimento de 0,99% em volume gerado. Abaixo do 1,1% do PIB do Brasil no mesmo ano.

Os dois últimos anos, que coincidiriam com o balanço do emprego industrial formal, deverão registrar índice do PIB Regional semelhante ao de 2017. Parece haver nesse período forte tendência de racionalidade dos quadros de trabalhadores na indústria de transformação da região.

O período petista, de proteção às montadoras de veículos e também à casta de trabalhadores do setor automotivo de grande porte, criou distorções em toda a cadeia produtiva também no aspecto trabalhista. As indústrias do Grande ABC, em média, são menos produtivas que a maioria da concorrência do G-22, grupo dos 20 maiores municípios do Estado de São Paulo.

Marinho melhor que Morando

Parece não existir dúvida de que ao fim de quatro anos de mandato, este ano, o prefeito Orlando Morando terá balanço de emprego formal industrial abaixo dos primeiros quatro anos de mandato do petista Luiz Marinho, que o antecedeu. Marinho registrou saldo positivo de 2.219 postos de trabalho no setor. O déficit já acumulado da gestão de Orlando Morando, de 4.659 postos de trabalho, deverá elevar-se até dezembro.

Entre outros motivos de desconforto a Orlando Morando é que mais demissões serão anotadas no caso da Ford. Afinal, não estão contabilizadas as baixas da transferência dos setores gerenciais da multinacional para a Capital. A Ford de São Bernardo desaparecerá de vez.  

Resta saber o que seria do currículo do prefeito Orlando Morando, quando comparado ao de Luiz Marinho, se esticar por mais quatro anos o atual mandato. Dessa forma, o tucano completaria, como Luiz Marinho, 96 meses à frente da principal economia do Grande ABC.

Nesse caso, dificilmente Orlando Morando deixaria de ficar à frente do petista. O mandato de Luiz Marinho entre 2013 e 2016 foi triturado pela brutal recessão contratada pelo PT que, no governo federal, confundiu gastança consumista com investimentos produtivos e competitividade internacional. Dessa forma, o Brasil contratou a maior recessão dos últimos 100 anos.

Morando vencerá Marinho?

Tanto contratou que Luiz Marinho encerrou os oito anos de dois mandatos com déficit de 21.987 postos de trabalho industrial. É pouco provável que, reeleito, Orlando Morando entre para a história de São Bernardo como o pior prefeito em matéria de emprego formal industrial. O título parece mesmo de propriedade do ex-sindicalista Luiz Marinho.

Não vou me estender sobre a relatividade de bônus e ônus dos prefeitos da região na contabilidade do emprego industrial formal no Grande ABC. Já tratei disso e o farei em outra edição.

O certo é que, independentemente das limitações impostas por uma economia e uma política em larga parte fora do controle dos prefeitos, há exemplos de sobra no País de agentes públicos locais que minimizam os estragos nacionais e internacionais, ou mesmo levam seus municípios a avanços.

Os prefeitos do Grande ABC são refratários a qualquer terapia corretiva. Desenvolvimento Econômico é algo desprezado por todos eles. Desde muito tempo. Todos, exceto Celso Daniel, sempre desdenharam dos riscos de o Grande ABC desmilinguir-se frente a outros endereços concorrenciais. E se deram mal.

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