Esportes

Sete virtudes capitais do
Santo André na Série A1

  DANIEL LIMA - 03/02/2020

Depois de ganhar 75% dos pontos disputados em quatro rodadas e a apenas três pontos de fugir da zona dos condenados ao rebaixamento, o Santo André da Série A1 do Campeonato Paulista pode ir além da expectativa na competição.

Mas é melhor ir devagar com o andor de probabilidades. Será extraordinário se o time repetir nos oito jogos que restam da fase classificatória os nove pontos dos primeiros quatro. Chegar à etapa de mata-mata da competição seria a cereja de um bolo muito bem preparado para evitar retorno à Série A2, ziguezague histórico que tanto incomoda.

Existem pelo menos sete motivos centrais do surpreendente Santo André no Campeonato Paulista. Razões que retiram a equipe de qualquer avaliação subjetiva que dê crédito a fantasias e achismos. Vejam os pontos principais: 

 Planejamento Estratégico.

 Brincando de competir.

 Comprometimento coletivo.

 Estruturação defensiva.

 Eficiência ofensiva.

 Equilíbrio individual.

 Harmonia coletiva.

Vou explicar sucintamente cada ponto. Sucintamente mesmo, porque cada quesito poderia ser objeto de tratado.

 Planejamento Estratégico

A contratação do técnico Paulo Roberto dos Santos deu-se em tempo suficiente para encaixar os jogadores contratados nos conceitos de competitividade que cultiva e o que levaram a tornar o São Bento de Sorocaba um dos 40 times mais importantes do futebol brasileiro. Diferentemente do Red Bull, que comprou o Bragantino para subir à Série B do Brasileiro, Paulo Roberto dos Santos levou o São Bento ano a ano à competição. O treinador apontou os caminhos às contratações. Com baixíssimo orçamento (esse é o milagre do Santo André), Paulo Roberto preparou lista com cinco opções para cada posição. Na maioria dos casos os primeiros nomes foram caindo por força da concorrência. Sem calendário nacional, o Santo André é um dos potenciais sete condenados ao rebaixamento na Série A1 do Paulista. Jogadores querem calendário inteiro para prestar serviços. É sempre uma aventura restringir o orçamento familiar aos três meses do Campeonato Paulista.

 Brincando de competir

O Santo André dos primeiros quatro jogos transmitiu a sensação de que ganhar é tão importante quanto um exercício lúdico. Ou seja: competitividade e descontração cabem num mesmo invólucro de 90 minutos. O time joga com leveza, mas também com rigidez disciplinar. Sobram dribles objetivos, paciência para definir o melhor passe, tranquilidade em manter o foco na tática de cada partida. Um time que não excessivamente a sério cada três pontos de um jogo é um time mais perto da vitória porque o emocional ajuda a compensar qualidade individual inferior. O ambiente nos vestiários é decisivo a esse comportamento.

 Comprometimento coletivo

Não existe estrela alguma no Santo André a reivindicar suposto direito de ser o dono da companhia dentro de campo. Todos correm, cumprem quesitos táticos deliberados e fazem da união argamassa poderosa. O Santo André não é um time de individualidades proeminentes, mas o paradoxo de ser um coletivo comprometido acaba por criar individualidades compulsórias.

 Estruturação defensiva

O Santo André não tem vergonha de atuar defensivamente. Todos os jogadores voltam para combater, dependendo das circunstâncias do jogo. Fecham-se os espaços com sabedoria. Evita-se, dentro do possível, o sufoco dos adversários que nas primeiras rodadas procuraram pressionar a equipe por todos os lados. Não fosse suficiente marcar abaixo da linha intermediária, o Santo André também sabe adiantar os jogadores para inibir a saída de bola adversária. Como a competição é extenuante, com três jogos a cada oito dias, a intensidade defensiva mais adiantada nem sempre resiste e cede espaço a recuos espaciais. Todos suam a camisa no Santo André. O adversário se sente incomodado e geralmente chega com qualidade menos nobre na armação e na definição de jogadas.

 Eficiência ofensiva

O defensivismo do Santo André não é uma peça isolada no conjunto da obra tática montada pelo técnico Paulo Roberto dos Santos. Defender faz parte de medidas que visam, também, surpreender os adversários. Os contragolpes do Santo André são poderosos. De fato, é a grande arma da equipe. Quanto mais o Santo André parece ficar sem a posse de bola, mais se criam condições para surpreender. Há duas fórmulas repetidíssimas nos quatro jogos: o contragolpe pode ser centralizado, com o avanço rápido e sincronizado dos meio-campistas, com o complemento de atacantes e laterais que fecham em diagonal, ou podem ser articulados pelas extremas com a chegada de meio-campistas e atacantes centrais por dentro. Esse é um balanço muito bem orquestrado, fruto de treinamentos e, principalmente, de um conceito de jogar que se concretiza porque os jogadores contratados têm perfis que se enquadram no projeto proposto. Unem-se velocidade e técnica.

 Equilíbrio individual

O Santo André é um time bem balanceado individualmente. Não conta com buracos que causem transtornos insanáveis ao conjunto. Nesse ponto, além da eficiência de cada jogador, conta muito mais o caráter de solidariedade tática. O Santo André é um conjunto de individualidades, não individualidades que formam um conjunto. Parece não haver distinção entre uma coisa e outra, mas não é bem assim. Quando se trata de um conjunto de individualidades o que se pretende dizer é que o todo faz com que as individualidades ganhem mais qualificações nas porções de virtudes e menos reparos nas especificidades que mais as incomodam. Um exemplo: a escalação de um volante-volante ao invés de um volante-armador simplifica a equação porque a equipe sabe que precisará compensar com outros condimentos a realidade de que terá geralmente um jogador a menos na gestão coletiva no campo de ataque. Um time não é necessariamente defensivo porque conta com um volante-volante, mas sim porque não se preparou para o que poderia ser chamado de medidas compensatórias. Time pequeno e médio que pretende mimetizar os grandes em inovações táticas geralmente caem do cavalo entre outras razões porque os limites de riqueza tático-estratégica são menos elásticos. Não é todo time que pode contar com um Gerson ou um William Arão à frente dos zagueiros. Ou um Cantillo, colombiano que está arrasando no Corinthians. Complicado mesmo é time grande insistir com volante-volante quando poderia introduzir um meio-campista a mais no setor.

 Harmonia coletiva

O Santo André jogou as primeiras quatro partidas sugerindo que é um time estruturado há muito mais tempo. Há sincronia entre os setores. Não se observam vácuos comprometedores entre defesa, meio de campo e ataque. Quando um time tem essa ossatura tática, os adversários começam a dar sinais de irritação. Ao sobrarem poucos espaços entre as linhas, o Santo André consome menos energia física e recupera a bola com maior frequência e insistência. A intensidade não é permanente entre defender e atacar porque seria impossível exigir tanto de um time sem a estrutura preparatória dos grandes. Mas o Santo André atua com inteligência ao dosar o fôlego com pitadas de diversão na posse da bola, quando a objetividade se torna mais arriscada.

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