Imprensa

Nove meses de cinco anos que
transformariam o Diário (26)

  DANIEL LIMA - 11/02/2020

A edição de 22 de novembro de 2004 da newsletter Capital Digital Online é emblemática, senão histórica, de minha breve passagem de nove meses pela Redação do Diário do Grande ABC. Aquelas linhas foram um desabafo contra o estado que hoje rotularia de inutilidade na formulação do jornal do dia seguinte. Nessa reconstrução do período em que dirigi o jornal mais tradicional da região, uma leitura atenta mostrará que estava diretor de Redação para fazer o que o jornal tornara obrigatório:  transformá-lo num produto de qualidade. 

 Edição número 33 

Chega de reuniões longas,

cansativas e improdutivas!

A partir de hoje interditamos um processo improdutivo e mistificador de reuniões demoradas para debater a pauta do dia ou do final de semana. Chega de perder tempo com essa espécie de feira livre que não passa de enxugador de gelo. A partir de hoje a reunião de pauta será às 17h30 e se encerrará, impreterivelmente, às 18h. 

Estamos perenizando metodologia fracassada, aplicada por burocratas e que se cristalizou como burrice. Até porque, se fosse adequada, não teríamos o produto que ainda temos, ou seja, longe daquilo com que todos sonhamos. Embora já tenha sido pior.

Infelizmente, tivemos que tomar a decisão de acabar com essa farra do boi de desperdício. Esperava que fosse qualquer profissional de comando da Redação, mas vejo, infelizmente, que há certa timidez em romper os cordões umbilicais com o passado. 

O padrão das reuniões deste Diário é sofrível. Tudo é prioridade. A pauta é extensa, as exposições cansativas, os resultados pífios. Vamos centralizar os debates nos principais assuntos do dia e, com isso, estabelecer medidas preventivas. Não podemos mais nos pendurar em assunto complexo, como o caso que envolve a candidatura de Márcio Chaves, em Mauá, para sustentar mais uma manchete regional. Não podemos mais ser procurados num início de noite para avalizar uma manchete sem sustentação e, para salvar o jornal de uma edição comprometedora, nos lançar pessoalmente à produção da matéria. 

Será que ainda não se entendeu que transformaram a Redação deste jornal numa estatal? E que temos de acabar com isso? A Rita Camacho teve a iniciativa na semana passada de suprimir as reuniões da manhã, igualmente chatas, improdutivas, fazedoras de marolas. Pois estou acabando com as reuniões da tarde. Transfiro o encontro para o final do dia, em vez de aceitar passivamente que se dê no começo da tarde, quando quase nada está definido no horizonte de informações. 

Ao completar quatro meses nesta empresa, reforço diagnósticos iniciais. Aliás, diagnósticos que construí antes mesmo de botar os pés aqui, como leitor, como ombudsman, como jornalista, como empreendedor da revista LivreMercado: a Redação do Diário tem enorme dificuldade de entender que o produto que colocamos na rua precisa ter compromisso maior com a qualidade das informações e dos dados. 

Não vou descer a detalhes, mas ainda na semana recém-terminada tive o desprazer de observar o quanto de dispersão existe. São usos e abusos que precisam ser eliminados, mas só o serão se, principalmente as chefias, transformarem essa missão em algo dogmático. 

Infelizmente, não vejo isso com a assiduidade desejada e necessária. Chegamos ao ponto de pautas exaustivamente debatidas nas reuniões ganharem vida autônoma quando transpostas para as páginas do jornal. O que isso significa? Que é frágil o sistema de acompanhamento das matérias. Que há descuido da Secretaria e dos Editores, e um excesso de liberdade aos repórteres. 

Sei que às vezes incomoda a algumas pessoas -- inclusive àquelas que eventualmente são alvo de meus elogios -- mas até agora quem mais entendeu o objetivo deste profissional é a jornalista Rita Camacho. Sou obrigado a explicitar esse sentimento porque não poderia cometer o desatino de, em nome de uma falsa harmonia de avaliar igualmente a todos, omitir-me diante dos fatos. 

A Rita Camacho vem desempenhando com brilhantismo uma porção que poucos jornalistas conseguem: pensa no conjunto, não tem medo de cara feia, promove mudanças conectadas com o sentido de produtividade com qualidade e atua com desembaraço.

Infelizmente, e sou obrigado a cair na real antes de ser institucionalizado pelos erros e desvios, o jornal que fazemos está longe do que precisamos. 

A herança que nos deixaram em divisionismo, burocratismo, sujeições a demandas externas sem critérios, ineficiência, dispersão e tantos outros problemas não será debelada facilmente. Jamais acreditamos nessa possibilidade. Mas precisa ser debelada. E só o será se todos, principalmente as chefias, trabalharem com menos gentilismos e mais austeridade. Precisamos passar pela fase de eficácia -- o bom resultado a qualquer custo -- até chegar à fase da eficiência -- o ótimo resultado sem grandes complicações. É impossível chegar ao segundo sem apertar o primeiro. Pelo menos em condições semelhantes às que encontramos. 

Por isso, chega de reuniões longas, cansativas e improdutivas. E vou mais além: também precisamos reduzir drasticamente as pautas. São igualmente longas, igualmente cansativas e igualmente improdutivas. Vamos substituir o papel pelo contato pessoal, pela troca de ideia incessante durante todo o período de trabalho. 

Estamos trocando a inigualável capacidade de interlocução pessoal pelo artificialismo de cantar o bingo de pautas de papel.

Precisamos que todos se deem as mãos e entendam que o modelo que vicejou aqui durante muitos anos está esgotado, liquidado, sucateado. Espero que esse grupo de profissionais do qual faço parte honre para valer a confiança da nova composição acionária desta empresa. Repito: o modelo que encontramos é um fracasso que precisa ser exorcizado. 

Importante: escrevi este texto na tarde de sábado, no quinto andar do jornal. Resolvi fazer uma blitz no material que seria publicado na edição de domingo. Suspendi o que pude, desaprovei o que o bom senso indicava, mas não pude fazer muita coisa com a má qualidade de várias matérias, senão o jornal simplesmente não seria impresso.

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