Sociedade

Balanço final: Nostratamos de
Resolver é um grande fracasso

  DANIEL LIMA - 14/02/2020

O que os leitores de CapitalSocial vão ler na sequência é a integralidade das 40 profecias de Nostratamos de Resolver. Todas foram atualizadas durante quatro edições da minissérie editorial que preparamos até outro dia para mostrar a que ponto está o Grande ABC nesta temporada em relação a 1996. Mas, além disso, vamos incorporar conceitos de avaliação. O resultado final é insatisfatório demais. Nostratamos de Resolver é um fracasso tipicamente regional.

Como se sabe, em 1996 produzimos um desafio em forma de ironia e de sarcasmo, para não dizer de provocação. Criamos o Nostratamos de Resolver, personagem inspirado no mitológico vidente Nostradamus.

A expressão que levamos ao palco do Teatro Municipal de Santo André durante a exposição de 40 profecias ancorava a linha editorial de LivreMercado, revista que criamos em 1990 e dirigimos até 2008. No fundo, Nostratamos de Resolver era uma síntese das análises que produzia juntamente com a equipe de redação da melhor revista regional que o País já conheceu.

LivreMercado antecipava uma linha editorial que somente na segunda metade deste século as grandes publicações de economia passaram a adotar. Ou seja: suas páginas iam além de economia propriamente dita. Madres Terezas e Freis Galvão, iniciativas editoriais que incorporaram e sistematizaram ações benemerentes de entidades espalhadas pela periferia do Grande ABC, revelavam a sensibilidade social da publicação em meio ao processo de desindustrialização e de pobreza.

Estávamos, naquela noite de maio de 1996, na festa do Prêmio Desempenho Empresarial, evento que nos anos seguintes se desdobrou em outros segmentos da sociedade e se tornou, em 15 edições anuais, o maior evento socioeconômico da história do Grande ABC.

Decidimos, nesta edição integral de Nostratamos de Resolver, estabelecer balanço qualitativo das respostas no campo prático. O que fizeram, afinal, autoridades públicas e as chamadas lideranças sociais, sindicais e empresariais? Adotamos três vetores de avaliação.

Definimos definir Nota dez para as profecias que se efetivaram proximamente aos enunciamos de Nostratamos de Resolver. Nota cinco às profecias que alcançaram algum grau de efetividade. E Nota zero às profecias que frustraram inteiramente às expectativas.

O resultado final é uma obra-prima de vagabundagem geral das instituições do Grande ABC. Apenas três das 40 profecias foram consideradas parcialmente positivas nas respostas – e por isso cada uma recebeu Nota cinco. Nenhuma das 40 profecias foi considerada sequer próxima aos enunciados. As demais, no total de 37, fracassaram completamente. Nota zero para cada uma.

Acompanhem (de forma integral) a recente atualização das profecias de Nostratamos de Resolver, com as respectivas notas. Um total de 15 pontos em 400 possíveis significa, no balanço final, que a nota geral a Nostratamos de Resolver, numa escala de zero a dez, não passa de 0,375. Isso mesmo: um terço de Nota um. Reprovação absoluta. O Grande ABC, cantado em verso e prosa por gente que não cansa de enganar a sociedade precisa, requer reestruturação total. Em todos os campos. 

 Primeira profecia 

As montadoras de veículos do Grande ABC decidiram associar-se para valer ao Fórum da Cidadania e ao Consórcio Intermunicipal de Prefeitos. Vão implantar plano conjunto de reorganização econômica e social na região que ajudaram a construir. A decisão tem a pronta adesão de outras grandes e médias empresas.

 Resultado – Este é o pulo do gato estratégico para o Grande dar um salto de qualidade ao estancamento de sangrias econômicas com duros reflexos sociais. As montadoras de veículos precisam ser sensibilizadas a participar do jogo de retomada do crescimento regional entre outras razões porque fazem parte do problema por conta de distorções econômicas que afetaram profundamente a gênese social. As instituições do Grande ABC, frágeis, individualistas e oportunistas em larga maioria, são a pedra de toque da iniciativa. Mas estão cada vez piores em isolacionismos que aprofundam o envelhecimento regional. Nota zero.

 Segunda profecia 

O Consórcio Intermunicipal, formado pelos sete prefeitos da região, transforma-se num poder colegiado acima das próprias prefeituras, em defesa da integração e do fortalecimento do Grande ABC. Com receitas garantidas por aprovação de projetos de lei enviados às Câmaras Municipais, o Consórcio finalmente se profissionaliza. 

 Resultado – O que viria a denominar Clube dos Prefeitos não passa de ficção coletiva supostamente com estrutura para mudar o rumo regional. Exceto durante o período de comando do então prefeito Celso Daniel, responsável pela iniciativa de agregar os titulares dos paços municípios, praticamente nada se produziu para valer naquela organização. E para completar o desastre histórico, o prefeito de São Bernardo, Orlando Morando, asfixiou de vez o pouco que existia de cultura de coletivismo regional ao partidarizar e politizar a instituição nos dois anos de mandato. O Clube dos Prefeitos é uma nau sem rumo, com espasmos de iniciativas que não alteram o ritmo de derrocada regional. Nota zero.

 Terceira profecia

Numa extraordinária ação conjunta da Polícia e da comunidade, finalmente os pontos de drogas do Grande ABC tornam-se coisa do passado. Ações educativas nas escolas e de repressão nos conhecidíssimos endereços de traficantes e drogados viram referência internacional. Em vez de pontos de drogas, agora o que se vê são drogas de pontos. 

 Resultado – Os índices criminais, de maneira geral, melhoraram neste século no Grande ABC, como no Estado de São Paulo. Trocou-se a política de Direitos Humanos do governo Mário Covas pela objetividade de redução dos dados mesmo que, entre outros indicadores, com o uso abusivo de letalidade nas operações policiais. Mas o Grande ABC está longe de ser exemplo internacional na seara de combate às drogas, até porque os traficantes estão livres, leves e soltos e as instituições de ensino são um dos alvos principais. Nota cinco.

 Quarta profecia

Ecologistas e capitalistas finalmente se entendem e os políticos resolvem mudar a Lei de Proteção dos Mananciais, que, na verdade, não protege coisa alguma e incentiva impunemente a proliferação de favelas. Agora já funcionam condomínios industriais não-poluentes, além da indústria do lazer e do entretenimento.

 Resultado – Os indicadores de ocupação irregular de áreas de mananciais seguem preocupantes na Região Metropolitana de São Paulo. Não há nada que indique futuro diferente. Fotos aéreas são reveladores das invasões que prosseguem, mesmo com maior empenho restritivo ou dissuasivo do Estado. Nota zero.

 Quinta profecia

O Fórum da Cidadania do Grande ABC, a maior invenção coletiva da região, conseguiu estrutura de recursos financeiros que lhe garante acelerar a conquista de mais espaços para o fortalecimento da cidadania regional. Agora, além da representatividade, o Fórum tem dinheiro em caixa.

 Resultado – O Fórum da Cidadania tornou-se frustrante chuva institucional de verão que durou algumas temporadas na segunda metade dos anos 1990. Morreu de morte morrida porque não teve forças que o sustentassem. Interesses cruzados e divergentes acumularam-se e soterraram o espírito de regionalidade. Uma crônica detalhada sobre as razões do aniquilamento do Fórum da Cidadania exigiria dezenas de páginas. A entidade não teve sequer um enterro de luxo. Virou frustração gradual, sem resistência. E não deixou sequer um espírito de indignação que motivasse algo semelhante ou aperfeiçoado. O Grande ABC está órfão. Nota zero.

 Sexta profecia

Os indicadores de criminalidade no Grande ABC, que chegam perto da temida Baixada Fluminense, finalmente desabaram. Isso é resultado direto de trabalhos integrados da comunidade regional e do melhor aparelhamento da Polícia, além de fantástica recuperação econômica. O Grande ABC que descia a ladeira da qualidade de vida agora sobe o elevador do bem-estar social.

 Resultado – Esse é um resultado que foge de elucubrações políticas, partidárias ou ideológicas. O Grande ABC criminal está acentuadamente mais compatível com o compromisso com a qualidade de vida do que no final do século passado. O assassinato do prefeito Celso Daniel mudou integralmente a política de Segurança Pública no Estado. Os dados de criminalidade desabaram em todo o Estado. Investimentos em recursos humanos, materiais e em políticas de combate aos criminosos colocaram o Estado num estágio próximo ao do mundo civilizado. Há muito ainda a melhorar, mas quem viveu nos anos 1990, com mais de 1.500 assassinatos na região a cada temporada, sabe a diferença de registrar nos últimos anos menos de 300 casos letais. Nota cinco.

 Sétima profecia

Faculdades da região, entusiasmadas com o desprendimento de lideranças do Fórum da Cidadania e do Consórcio Intermunicipal, resolveram arregaçar as mangas e somar forças. Deixaram as salas de aula e conheceram de perto a realidade das ruas. Na prática, agora a teoria é outra.

 Resultado – As ações nesse sentido, ou seja, de potencializar com intelectuais a dinâmica de produção de medidas saneadores do Grande ABC, não passaram de ensaios incompletos. Raras instituições reservam algum naco de preocupação com o conjunto da obra do Município ou da região. A quase totalidade atua com fragilidade intramuros. E as escolas de Ensino Superior que de alguma forma atacam questões regionais o fazem com vieses pouco compatíveis com a realidade prática. Chega-se, inclusive, num surto de terraplanismo acadêmico, a negar, minimizar ou mistificar a desindustrialização regional. Um verdadeiro saldo no escuro da escravidão ideológica. Nota zero.

 Oitava profecia

Bases da Central Única dos Trabalhadores na região surpreenderam o País ao convencerem a cúpula de seus sindicatos locais a trocar as greves por programas de reciclagem profissional não só para os empregados, sempre ameaçados de demissão pela globalização, mas também aos desempregados. Os recursos foram garantidos pelo FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador).

 Resultado – O movimento sindical no Grande ABC, especialmente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), com atuação incisiva no setor metalúrgico de São Bernardo, está à deriva após décadas de exageros reivindicativos e estupidez ideológica. Acabou a farra do dinheiro fácil do Imposto Sindical. Mas há rescaldos que permanecem e custam caro à competitividade industrial do Grande ABC. Quase uma centena dos chamados comitês de fábricas estão espalhados por São Bernardo e Diadema. São extensões do Sindicato dos Metalúrgicos que inibem relações mais pragmáticas entre capital e trabalho. O viés socialista prevalece. O Grande ABC já não ganha as manchetes de jornais e noticiário de televisão com greves, porque suicidas, mas sofre ante o silêncio corrosivo de lideranças sindicais avessas ao mundo exterior, ou seja, à sociedade como um todo. Nota zero.

 Nona profecia

A Avenida dos Estados, tão comprida quanto abandonada, finalmente vira passarela de Primeiro Mundo, oferecendo condições de uso que garantem o desenvolvimento do polo comercial e de serviços em suas duas margens. Enchentes, que tantos sacos encheram, são coisa do passado.

 Resultado – Se a Avenida do Estado já era um problemão no final dos anos 1990, hoje a situação é muito pior. E não adianta venderem a porção milagrosa de intervenções pontuais em determinados trechos, sobretudo com novas alças de viadutos, que o resultado será aquém do imprescindível. A Avenida do Estado é um trambolho estrutural porque virou um corredor em que prevalecem improdutividade operacional, desconforto no tráfego e riscos de acidentes. Quem depender da Avenida do Estado para saltar em qualidade de vida e Desenvolvimento Econômico vai quebrar a cara. Há mais opções no mercado logístico. O Rodoanel está aí para confirmar. Nota zero.

 Décima profecia 

Resultado dos trabalhos do Fórum, do Consórcio e das Escolas de Terceiro Grau, a bancada de deputados estaduais do Grande ABC supera as expectativas. Agora a região não desperdiça mais votos em estranhos e nem desconhece o nome de seus candidatos. Temos 15 deputados, contra oito do final do século.

 Resultado – A bancada do Grande ABC nesta temporada na Assembleia Legislativa conta seis representantes. Exatamente a parte do latifúndio de eleitores do Grande ABC no mapa estadual. Poderiam ser mais deputados, porque a densidade populacional por quilômetro quadrado do Grande ABC favorece produtividade dos votos. A quantidade expressa na proposta de Nostratamos de Resolver perdeu o significado que se pretendia. O Grande ABC já contou com maior número de eleitos à Assembleia Legislativa e jamais fez a diferença nas decisões. A chamada bancada regional não passa de ficção que o multipartidarismo e municipalismo bloqueiam permanentemente. Nota zero.

 Décima-primeira profecia

Representações industriais do Grande ABC, instaladas nas delegacias regionais dos Ciesps (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), conseguem dupla vitória: passam a trabalhar em conjunto no atendimento das necessidades institucionais da região e já não dependem mais de recursos da Fiesp. A perspectiva é que, assim como os trabalhadores tiveram o seu Lula, os empresários locais terão nomes reconhecidos em todo o País. 

 Resultado – Tudo continua como antes no quartel de Abranches de representação industrial do Grande ABC. As unidades do Ciesp seguem separadas, portanto com baixa sinergia. A dependência da Fiesp, a instituição-mãe, transforma as lideranças locais do setor em pontos nebulosos de representatividade. O arcabouço institucional do setor industrial no País é excessivamente centralizado e cada vez mais poroso no campo político-partidário. Uma entidade que representasse interesses em comum de pequenas e médias indústrias com raízes na região poderia dar guinada gradual na situação, mas não há ambiente para isso. Não bastasse tudo isso de contraproducente, ainda há um peso sobressalente de infinita inferioridade ante forças sindicais de trabalhadores na cobertura da Imprensa em geral. Os capitalistas enraizados na região são vítimas de discriminação jornalística. Suas organizações praticamente não ocupam espaços na mídia. Nota zero.

 Décima-segunda profecia

Empresários e comunidade da região unem-se e compram o controle da CTBC (Companhia Telefônica da Borda do Campo). Nascida da livre iniciativa e da comunidade, a empresa é um dos marcos do crescimento da região e resistiu bravamente a muitas injunções político-partidárias. A partir da metade da década de 90, a empresa se preparou para voltar a ser privatizada.

 Resultado – A CTBC foi privatizada logo depois do anúncio das profecias de Nostratamos de Resolver e com isso virou uma empresa de grandes conglomerados econômicos. No mundo da tecnologia de altos investimentos, não há espaço a organizações municipais e mesmo regionais. As gigantescas tomam cada vez mais espaço. A invasão no setor varejista, por exemplo, não tem limites legais e, sem alarde midiático, coloca a escanteio os pequenos estabelecimentos do setor, incapazes de competir com quem tem economia de escala. Nota zero.  

 Décima-terceira profecia 

Depois de anos seguidos de desprezo às pequenas indústrias da região, o que resultou em elevados índices de quebradeira, boa parte das grandes organizações resolve priorizar para valer os fornecedores locais com política de parceria responsável e séria. Tudo para enfrentar a globalização. Que rima com regionalização. 

 Resultado – A cadeia de suprimentos industriais está cada vez mais competitiva. Não existem fronteiras ao atendimento aos grandes negócios de produção. Para pertencer ao jogo pesado de constar da lista de fornecedor de qualquer grande ou média indústria da região é preciso ser espécie de fortaleza de competitividade. Mais e mais as grandes indústrias recorrem a redes externas de fornecimento, quer na geografia nacional, quer no mapa-múndi de competitividade. Solidariedade não é exatamente o que se encontra nas relações locais entre indústrias e serviços. Não existe políticas de integração que envolvam diferentes organizações em tamanhos e em produtos. Nota zero.

 Décima-quarta profecia

A Vila de Paranapiacaba, em Santo André, construída por engenheiros britânicos, supera anos de esquecimento e de deterioração. Agora, Paranapiacaba atrai milhares de turistas graças a investimentos de multinacionais inglesas instaladas no Brasil. Paranapiacaba não acaba mais. 

 Resultado – A infraestrutura física de Paranapiacaba tem recebido melhorias, a programação cultural tem picos de relevância popular, mas o imaginário que a colocava como um dos pontos de convergência maciça de turistas e a instalaria no roteiro nacional de atratividade se tornou exagero. Paranapiacaba pode não acabar mais, mas também não é uma peça preciosa a ponto de alterar o rumo de baixa visibilidade do que se pretende chamar de turismo do Grande ABC. Nossa vocação maior mesmo parece a de levar visitantes a atividades industriais. É o chamado Turismo Industrial. Fosse mais organizado e crítico, o Grande ABC poderia ter rico roteiro físico e informativo. E contaria uma história que parece não ter fim: como substituir indústrias por comércio, serviços e templos religiosos sem reagir. Centenas de antigas plantas industriais cedem espaços a setores pouco produtivos em riqueza. A Ford em São Bernardo foi apenas o capítulo mais vergonhoso dos últimos tempos. Nota cinco.

 Décima-quinta profecia

Explode a indústria imobiliária na região. Resultado da pressão do Fórum e do Consórcio, as Câmaras Municipais descobriram o óbvio: as excessivas restrições ao uso e ocupação do solo favoreciam a especulação, ao invés de evitarem. Agora quem quer casa tem casa. Quem quer empresa, tem espaço para ter empresa.

 Resultado – O uso e a ocupação do solo regional pelo mercado imobiliário são um festival de safadezas, de exageros e de jogos espúrios de financiamento eleitoral. Há renitente crise imobiliária na região. Estima-se que mais de cinco mil salas comerciais seguem desocupadas ou com ocupação a preços de aluguel aviltantes. O descompasso de lançamentos e obras no período falsamente rico do governo petista provocou especulações no setor a ponto de o então presidente do Clube dos Construtores, Milton Bigucci, não só incentivar a aquisição de móveis com o uso de dados fraudadores da realidade como chegou ao ponto de cair no próprio conto ao se lançar em empreendimentos que, como os demais, sofrem duramente com a falta de demanda. O déficit habitacional no Grande ABC é retrato da situação média nacional, com o agravante de duplo problema: gente demais sem moradia qualificada e gente demais que colocou à venda moradias qualificadas, mas que não encontra compradores. Nota zero.

 Décima-sexta profecia

O governador Mário Covas está sendo imparcial na distribuição de tíquete-moradia com recursos do ICMS. Surpreendendo a todos, pois até agora só atendia à Baixada Santista, sua principal base eleitoral, ele anuncia liberação de recursos financeiros para construção imediata de 10 mil casas populares no Grande ABC. Já não teremos tantos Alzira Franco.

 Resultado -- O jogo político que faz brotarem investimentos habitacionais conta com duas senhas preferenciais. A primeira do governo do Estado e a segunda lançada pelo governo federal petista, de Minha Casa, Minha Vida. Falta transparência à definição dos beneficiários. Especula-se muito sobre estranhezas nos procedimentos que abasteceriam a fome dos investimentos com a necessidade de ganhos político-partidários. No fundo, no fundo, isso pouco importa porque a irrigação financeira está sempre correndo atrás de demandas mais prementes.  O Estado, em forma de governo estadual e de governo federal, está cada vez mais debilitado em termos fiscais e orçamentários para corrigir os estragos habitacionais ao longo dos tempos.  Nota zero.

 Décima-sétima profecia

O deputado federal Clóvis Volpi, um dos apologistas da integração regional, reúne a Imprensa para anunciar o sucesso de seu projeto de lei. A Assembleia Legislativa aprovou a criação da Região Metropolitana do Grande ABC. Agora vai ser uma barbada o sucesso da região, já consolidada em termos institucionais pelo Fórum, pelo Consórcio e pela classe acadêmica.

 Resultado – Tudo não passou de iniciativa inócua. As forças políticas e institucionais jamais se empenham para dar configuração gerencial diferenciada à Grande São Paulo. E bem que poderiam: os 22 milhões de habitantes distribuídos por 39 municípios significam o dobro da população de todo o Estado do Rio Grande ABC. A governabilidade metropolitana é uma das deficiências das classes dirigentes que controlam principalmente os executivos municipais. As intrigas partidárias impedem ações estruturantes. A Região Metropolitana de São Paulo é apenas um enunciado sem valor administrativo-gerencial. Nota zero.

 Décima-oitava profecia

O Polo Industrial de Sertãozinho, localizado em Mauá e com disponibilidade de cinco milhões de metros quadrados, finalmente reforça a economia da região. Câmara Municipal aprova divisão da área e o prefeito decide investir na infraestrutura até então abandonada. Dezenas de pequenas indústrias já começam a ocupar espaços. Serão criados 10 mil empregos diretos. O gás encanado do vizinho Polo Petroquímico vai baratear o custo de energia.

 Resultado – Falta muito do que poderia ser chamado de empenho da Administração Municipal no uso dos espaços do Polo Industrial de Sertãozinho. E muito poderia ter sido feito, não fosse Mauá um campo de batalha política permanente. A conquista do então prefeito Oswaldo Dias, de estender espécie de puxadinho do trecho sul do Rodoanel a Mauá, em conexão com a Zona Leste de São Paulo, incentivou a chegada de muitas empresas de logística, principalmente, quando um planejamento voltado ao adensamento de indústria de transformação poderia gerar muito mais riqueza. O crescimento do PIB de Mauá após a esticadinha do trecho sul do Rodoanel não acompanhou a velocidade dos municípios que formam a região de Osasco, território no qual o trecho oeste do Rodoanel gerou grande revolução econômica. Mauá poderia ter aproveitado bem melhor o bilhete premiado que recebeu. Nota zero.

 Décima-nona profecia

Dirigentes das associações comerciais e industriais da região, que deram grande força à criação do Fórum da Cidadania, agora comemoram a criação da Federação do Comércio do Grande ABC. A entidade passa a ser uma das mais importantes do País. Seu presidente está decidido a atender as bases e concorrer ao Senado da República. 

 Resultado – As Associações Comerciais (e industriais apenas na nomenclatura, porque não têm intimidade nenhuma com o setor) são uma réplica das unidades do Centro das Industrias (Ciesp) no Grande ABC. Com a diferença de que as representações industriais são mais organizadas. A criação da Federação das Associações Comerciais é uma aposta no vazio. Não há interesse algum dos municipalistas que ocupam essas entidades em abrirem mão do que imaginam poderes institucionais que detêm em favor da racionalidade e do planejamento típicos de entidades regionais. Pelo andar da carruagem, todas morrerão abraçadas. Aliás, já estão morrendo abraçadas porque ao se comparar o quadro de associados efetivos com o universo de empreendimentos em cada Município, essas unidades ficam com uma parte ínfima e por isso mesmo pouco mobilizada. Nota zero.

 Vigésima profecia

Representação do Grande ABC na Câmara Federal segue exemplo dos deputados estaduais e aumenta o número em Brasília. Agora são 12 deputados da região para brigar com as turmas de Sarney, ACM, ruralistas e empreiteiros há tanto tempo atrapalhando os passos do País rumo à modernidade.

 Resultado – Se servissem para questões substantivas mesmo, não penduricalhos de migalhas orçamentárias, seria lamentável o fato presente de que o Grande ABC só conta com dois parlamentares em Brasília. Entretanto, como não existe correlação efetiva entre representação e representatividade em defesa dos interesses do Grande ABC, o melhor mesmo é afastar essa equação de suposto poderio regional. Ou seja: se o Grande ABC contar com dois, cinco, 12 ou mais deputados federais (e até mesmo um inédito senador da República) não haverá nada a comemorar enquanto eles não forem porta-vozes e pontas de lança de medidas que alterem o rumo da economia regional, porque a economia regional é o grande problema da região. Nota zero.

 Vigésima-primeira profecia

Polo Industrial de São Bernardo, aquele de tanta polêmica, finalmente foi resolvido. Indústrias não poluentes vão se instalar ali para atender mais de perto o fornecimento às montadoras de São Bernardo. A possibilidade de especulação imobiliária não se confirmou.

 Resultado -- O ponto positivo dessa profecia é que nem mesmo é possível dizer que houve decepção. Afinal, o que é esse Polo Industrial de São Bernardo que, mesmo um veterano do jornalismo regional, não consegue identificar 24 anos depois? E como não estou disposto a perder tempo em consulta ao acervo dessa revista digital, é melhor deixar para lá. Como se devem deixar para lá outras promessas dos anos 2000 que jamais se confirmaram, como o Polo Aeroespacial, o Polo de Gás e Óleo, O Polo Tecnológico Regional, essas coisas que agentes públicos produzem à exaustão sem comprometimento com o futuro --- apenas de olho na próxima eleição e certos de que a memória do eleitorado é curta. Nota zero.

 Vigésima-segunda profecia

Em conjunto, prefeitos do Grande ABC anunciam a inauguração de moderno complexo viário inter-regional que vai eliminar a baixa qualidade do trânsito. As obras despertam interesse de empresários que há alguns anos transferiram suas empresas da região por causa do chamado Custo ABC. Agora só existe Benefício ABC.

 Resultado -- Como não existe integração regional em nível minimamente necessário à sobrevivência dos negócios e da qualidade de vida, a ponto de o Clube dos Prefeitos virar penduricalho no esfarrapado organograma dos sete municípios, é claro que um moderno complexo viário ficou só na imaginação. O que contemplou o Grande ABC em forma de bólido de transtornos econômicos foi o Rodoanel que, do ponto de vista de logística econômica, beneficiou apenas e em parte o puxadinho construído em Mauá e, profundamente, a concorrencial região oeste da Grande São Paulo. A região de Osasco e Barueri nadou de braçadas em competitividade e deixou o PIB do Grande ABC a comer poeira. Nota zero.

 Vigésima-terceira profecia

Grande multinacional do Primeiro Mundo ganha concorrência para modernizar o trecho ferroviário que une o Grande ABC ao Porto de Santos e, por meio de conexões, ao Mercosul. Investimentos vão contribuir também para consolidar a economia do Grande ABC, até há alguns anos na iminência de descarrilar. Privatizado, o Porto de Santos volta a ser parceiro da região.

 Resultado – A privatização do trecho ferroviário que passa pelo Grande ABC e segue até a Baixada Santista atendeu apenas ao transporte de cargas durante a madrugada. A repetida chegada do Ferroanel é conto do vigário eleitoral porque há sempre alguém interessado em esquentar a bobagem. O transporte ferroviário que passa pelo território da região tem baixíssima conexão econômica local. Somos a multiplicação de zero por zero. Nota zero.

 Vigésima-quarta profecia

Investidores nacionais e internacionais descobrem São Caetano. Como resultado de trabalho de marketing da região, eles já estão transformando antigos galpões industriais em usinas de tecnologia de informática e robótica voltadas para o novo perfil industrial do Grande ABC. 

 Resultado -- São Caetano é o Município do Grande ABC que mais perdeu crescimento econômico neste século na Região Metropolitana de São Paulo. Está na lista dos piores resultados nessa área que conta com 39 municípios. O setor de serviços que se lançou à guerra fiscal na metade dos anos 1990 mascara a desindustrialização de São Caetano, recentemente ameaçada de perder a joia mais preciosa da discreta constelação industrial, no caso a General Motors do Brasil. Foi preciso a intervenção populista-fiscal do governador do Estado, João Doria, e da Administração Municipal, de José Auricchio Júnior, para que a GM não debandasse. Como extraiu vantagens tributárias, a multinacional decidiu investir na planta. Não se sabe até quando vai segurar a barra de quase um terço da riqueza de impostos de São Caetano. Certo mesmo é que São Caetano continuará com várias empresas de papel no setor de serviços; ou seja, as sedes estão em sua geografia, mas muitos trabalhadores registrados prestam atuação em outras localidades. Basta verificar que o setor de construção civil está paralisado, mas registra saldo de empregos elevadíssimo. A guerra fiscal instaurada pelo então prefeito Luiz Tortorello pouco antes das profecias de Nostratamos de Resolver, amenizou o desconforto industrial. Nota zero.

 Vigésima-quinta profecia

Pequenos varejistas da região acordam para a concorrência dos shoppings, supermercados e hipermercados. Unem-se em torno das Associações Comerciais e atendem a pedido dos líderes: trocam as novelas de televisão por cursos de Administração e Marketing.

 Resultado – Nada foi alterado no panorama institucional de negócios locais frente a concorrência de grandes companhias nacionais e de franquias. As empresas familiares do Grande ABC nos setores de comércio e serviços sofrem ante forças superiores. O preparo para a guerra do varejo é especialidade de empreendimentos que contam com investimentos volumosos. A guerra é desigual e se torna ainda mais desigual com o individualismo dos empreendimentos locais. Não há tempo para preparação, quanto mais para ações conjuntas. As entidades de classe não chegam às bases dos empreendedores e não estão organizadas para atuarem nem como prontos-socorros. Nota zero.

 Vigésima-sexta profecia

Terminais de computadores são instalados em massa nas salas de aula das escolas da região. Alunos estão plugados à Internet e também a uma rede de informações gerais sobre o Grande ABC. A rede dispõe de dados históricos regionais e de centenas de indicadores sociais e econômicos organizados por uma entidade cerebral formada por representantes de diversas áreas. Essa rede também é disputadíssima por investidores que estão de olho na região. 

 Resultado – A tecnologia computacional se adensou no mundo inteiro, e não faria do Grande ABC exceção. Mas o uso é puramente corporativo. Dados agregados da economia do Grande ABC são escassos, imprecisos e chegam próximo a algo que lembra um labirinto, tantas dificuldades práticas ao uso produtivo. Não existe na região uma espécie de central que reúna informações que facilitem a vida de quem quer investir num dos municípios. Um exemplo da balbúrdia geral envolve a aplicação do ISS (Imposto Sobre Serviços). O imposto responsável pela maior arrecadação direta dos municípios cedeu lugar a fratricida guerra fiscal interna. O festival de alíquotas se espalha por atividades afins. Pretendeu-se nos anos 1990 uniformizar a incidência do imposto em toda a região. Celso Daniel, então prefeito de Santo André, acreditou na medida e ficou para trás. A maioria dos demais titulares dos paços municipais rasgou os princípios de regionalidade e tascou alíquotas arbitrárias, ditadas pela conveniência arrecadatória a qualquer custo, sem vínculo algum com estratégia regional. Nota zero.

 Vigésima-sétima profecia

Antigas e novas emissoras de rádio da região deixam de lado o quase monopólio de transmissões religiosas. Aproveitando a nova realidade regional, investem para valer em radiojornalismo. O debate agora é saber quem ganha mais: as emissoras com audiência e faturamento em alta ou a cidadania, matéria-prima da programação.

 Resultado -- A Rádio ABC continua a ser a emissora que sobrou na região e que investe em jornalismo, mas sofre com barreiras de potência tecnológica e de estrutura profissional mais aguda. A pergunta que seus diretores mais ouvem é quando vão vender a emissora para os evangélicos ou ao qualquer ramo religioso. Como têm resistido, é possível que sigam em frente. Até porque há novos meios, caso das chamadas mídias sociais, que têm na Internet facilidades para a comunicação direcionada. Nota zero.

 Vigésima-oitava profecia

 A televisão torna-se realidade na região, com emissoras de considerável audiência. Com rádio, tevê e um conjunto de jornais, entre os quais um tradicional e comunitário diário e uma revista quinzenal especializada em economia local, a mídia do Grande ABC atinge todas as camadas e segmentos sociais com a mesma intensidade.

 Resultado – Seguimos sem retransmissoras de redes nacionais de televisão, ou seja, a programação que a população consome não tem intimidade com a cultura regional. Apenas a TV Globo conta ao meio-dia com programação dedicada à Região Metropolitana de São Paulo. Os principais problemas são abordados com frequência. Não escapamos, é claro, das manchetes de criminalidade, matéria-prima sempre farta numa área em que desigualdade social é muito maior do que muitos imaginam. Publicações impressas definham em circulação e em receitas. O vácuo entre o impresso e o digital ainda não foi superado no mundo inteiro. Não o seria tendo o Grande ABC como espaço territorial pioneiro. Nota zero.

 Vigésima-nona profecia

Indústria esportiva do Grande ABC é reconhecida em todo o Brasil. Os três principais clubes profissionais de futebol da região conseguem o que Curitiba alcançou em 1996: vagas no disputadíssimo Campeonato Brasileiro da Primeira Divisão. Importantíssimos elementos culturais, os três clubes do Grande ABC ajudam a consolidar a identidade regional.

 Resultado – A segunda década deste século não tem sido generosa com o futebol da região. Estamos fora do circuito nacional. Ou seja: não temos um representante sequer em qualquer divisão do Campeonato Brasileiro. Já contamos na Série A com São Caetano e Santo André. Já disputamos a Série B do Brasileiro com potencialidade de chegar ao topo da hierarquia nacional. Na primeira década do século tanto o Santo André quanto o São Caetano conquistaram o título paulista. Antes, o Santo André ganhou a Copa do Brasil e o São Caetano foi duas vezes vice-campeão brasileiro e, também, vice-campeão da Taça Libertadores da América. Na medida em que futebol é audiência e audiência gera patrocinadores milionários, mais nos afastamentos das competições mais importantes. Afinal, os clubes da região sofrem os efeitos da proximidade com a Capital e não contam com massa de torcedores que assegure audiência televisiva. A tendência de fortalecimento de clubes de massa tanto no âmbito nacional quanto estadual esteriliza o potencial do Grande ABC esportivo. A resistência dos clubes profissionais da região é meritória. Nota zero.

 Trigésima profecia

Empresários da região se organizam e convencem empreendedores nacionais a construir espécie de Anhembi regional. Agora, feiras nacionais e internacionais vão colocar a região no calendário de agentes especializados. Estandes regionais, que vendem a nova imagem e a nova realidade do Grande ABC, são distribuídos em pontos estratégicos do centro de exposições, estimulando novos investidores.

 Resultado – Por uma série de razões o Grande ABC não consegue conciliar população de três milhões de habitantes e arena reservada a grandes espetáculos. Como um antigo Anhembi está fora de cogitação, talvez a saída fosse contar com investimentos em casas de espetáculos de menor porte. E mais uma vez a proximidade com a Capital inibe investimentos. O conceito de que a maioria não vai a um espetáculo cultural apenas, mas a uma programação que envolve entretenimento, gastronomia e glamourização típicas da Capital, remete o Grande ABC à identificação de subúrbio. Sem contar o peso do Complexo de Gata Borralheira que, no caso, significa que o morador da região sempre vai preferir a vizinha e pujante Capital a alternativas locais. Algumas exceções gastronômicas, confirmam a regra geral. Mas há mais casos de conteúdo negativo. O esfacelamento da Rota do Frango com Polenta, corredor gastronômico que nos últimos anos perdeu seus três principais endereços, também tem a ver com o empobrecimento do Grande ABC, não apenas com mudanças no mercado de consumo alimentar. Os shoppings que se aventuraram a comercializar produtos de regiões mais nobres da Capital quebraram a cara e tiveram de recolher os produtos, substituindo-os por populares. Hordas de pobres e miseráveis crescem muito mais que o número de famílias ricas e de classe média tradicional. Nota zero.

 Trigésima-primeira profecia 

Conhecidos pontos da indústria do prazer do Grande ABC, como a Avenida Dom Pedro II em Santo André e a Rua Jurubatuba em São Bernardo, substituem casas destinadas à troca de óleo por centros de recuperação e de profissionalização de menores. O que antes era assunto do Aqui Agora virou notícia do Fantástico e tomou todo um Globo Repórter.

 Resultado – Os tempos são outros, a modernidade chegou em forma de aplicativos de celular em sintonia com a Internet, mas os antigos pontos de prazer mundano do Grande ABC proliferam. Nesse aspecto, a baixa mobilidade social e a queda do assalariamento médio contribuem para acesso aquecido de casas noturnas mais despojadas. Programas sociais direcionados a mitigar danos sociais no campo comportamental são raros e inconsistentes. Nota zero.

 Trigésima-segunda profecia

Clubes sociais da região decidem justificar o nome e passam a atuar pelo conjunto da sociedade, integrando-se aos movimentos de valorização regional, como o Fórum da Cidadania. Esses clubes começam a multiplicar o sentimento de cidadania.

 Resultado – A derrocada dos clubes sociais no Grande ABC segue a trilha do ambiente de segurança pública em constante desconfiança e sobretudo os novos costumes. O mercado imobiliário descobriu o filão de residência-clube e incorporou equipamentos de academia e lazer. Somente os clubes mais tradicionais do Grande ABC, e mesmo apenas alguns, ainda resistem às mudanças. Mas mesmo assim muito aquém da perspectiva que se tinha no final do século passado.  A sociedade está cada vez mais fragmentada. Vive em guetos, em nichos. E agora conta com o reforço separatista dos aplicativos de celulares falsamente catalizadores de aproximações. Nota zero.

 Trigésima-terceira profecia

Também os clubes de serviço, que têm os olhos postos na comunidade, resolvem juntar-se ao Fórum da Cidadania. Os clubes de serviços, especialistas em intercâmbios culturais, promovem agora ações voltadas para as necessidades socioeconômicas da região. Famosos consultores econômicos e sociais ligados a clubes de serviços internacionais passam a fazer do Grande ABC roteiro obrigatório de suas pregações.

 Resultado -- Os clubes de serviços seguem na toada de sempre, sem enveredar por caminhos que já não tenham trilhado antes. Uma ou outra iniciativa social faz parte do roteiro, mas não há sinergia entre dirigentes. Cada um cuida do próprio quintal. A cidadania compartilhada sofre duros reveses com a perda de sincronia. A Feira da Fraternidade, marco de solidariedade em Santo André, virou fumaça. O prefeito Paulinho Serra tenta ressuscitamento, mas tudo não passa de marketing divulgado por forças de apoio ao tucano. Festas populares pipocam aqui e ali, mas sem consistência e abrangência. Com o fim das chamadas associações de amigos dos bairros, a degringolada social tomou conta. Nota zero.

 Trigésima-quarta profecia

Clubes carnavalescos da região usam o bom senso e decidem realizar desfiles conjuntos, num sambódromo construído na divisa de Santo André e São Bernardo. Durante o restante do ano o sambódromo vira escola profissionalizante. As últimas notícias dão conta de que a Mangueira não será mais vista apenas na telinha. Vai se exibir como convidada. Ao vivo e em cores.

 Resultado – Depois de vários anos de atuação mambembe, o carnaval de rua foi desativado no Grande ABC. Já há cinco anos escolas de samba e blocos não desfilam nas avenidas. Chegou-se a estágio em que prevalece o interesse pelos desfiles da vizinha Capital, que potencializou a festa mais popular do País. O esperado Carnaval do Grande ABC, que consistiria em reunir escolas de samba numa única cidade, num possível rodizio locacional, jamais foi levado a sério. A falta de cidadania municipal também está na raiz da fragilidade carnavalesca regional. Uma passarela do samba em local previamente escolhido poderia dar pontapé inicial em nova concepção de cidadania festiva. Nada, entretanto, consta da pauta regional. Os blocos carnavalescos que atuam nos respectivos redutos dos moradores são a alternativa encontrada, mas muito distante da efervescência da Capital. Como nas manifestações políticas dos anos recentes, quem aprecia carnaval vai para a vizinha Capital. O Grande ABC virou maçaroca suburbana. Nota zero.

 Trigésima-quinta profecia

Nova pesquisa da revista Exame, sobre os 10 melhores endereços para investimentos no Brasil, aponta quatro municípios da região entre os 10 primeiros. Somados os índices das quatro cidades, e dada a condição regional, o Grande ABC recupera o terreno perdido e assume a pole position. O assunto é samba-enredo da escola de samba campeã do Grande ABC.

 Resultado – De vez em quando surge algum ranking repleto de inventividade e despreparo técnico para tentar alçar algum Município do Grande ABC entre os principais do Estado ou do País. Tudo não passa mesmo de baboseira estatística, contrariando ranking do PIB Geral dos municípios do Grande ABC na Região Metropolitana de São Paulo. Entre os 39 endereços municipais da metrópole mais rica do País, as cidades do Grande ABC ocupam as últimas posições quando se levam em conta os resultados de 2000 em contraponto aos resultados de 2017, os mais atualizados. Ou seja: viramos lanterninhas em competitividade econômica e sofremos desgarramento na qualidade de vida. Em diversos indicadores econômicos o Grande ABC está cada vez mais parecido com a média brasileira. Quem quer pior prova do empobrecimento do Grande ABC? Nota zero.

 Trigésima-sexta profecia

Intelectuais, sindicalistas, empresários, políticos e lideranças acadêmicas festejam: finalmente o Grande ABC ganhou sua universidade. Voltada para o trabalho, como sugeriu um consultor econômico em 1996, a instituição vai produzir o que até agora era um mito: a região terá mão-de-obra realmente capacitada não só em relação aos principais polos econômicos do País, mas em confronto com o Primeiro Mundo.

 Resultado – Chegou mesmo a Universidade Federal do Grande ABC (UFABC), dez anos após Nostratamos de Resolver enunciar uma de suas profecias. Pena que a instituição é uma barriga de aluguel, como bem a definiu um especialista em educação de Terceiro Grau, o professor Valmor Bolan. Não há comprometimento da grade curricular com o presente, quanto mais com o futuro do Grande ABC. Em todos os indicadores que mais interessam à sociedade regional, e que dizem respeito ao Desenvolvimento Econômico, os resultados da UFABC são mais que ridículos: são desafiadores a uma reação coordenada por lideranças da região, as quais não existem para valer, porque preferem o silêncio e o corporativismo. O futuro de plástico do Grande ABC, como a revista LivreMercado sugeriu há mais de duas décadas como desdobramento natural de uma região que conta com o Polo Petroquímico, jamais foi sequer considerado na UFABC. A instituição de ensino está no Grande ABC, mas não pertence ao Grande ABC. Em uma década e meia de instalação custou R$ 5 bilhões aos cofres federais. Sem dar nada em troca ao Grande ABC. Nota zero.

 Trigésima-sétima profecia

O lixo do Grande ABC agora vai para o lixo, isto é, para usinas ecologicamente seguras. Todos os problemas que durante anos preocuparam ambientalistas e industriais, gerando perdas ecológicas e financeiras, foram para a lata do lixo. Municípios se uniram, obtiveram financiamento a juros baixos e transformaram lixo reciclado em dinheiro que amortiza boa parte do investimento.

 Resultado – A situação só se agravou nos últimos 24 anos. São Bernardo prometeu durante a gestão do prefeito Luiz Marinho que construiria em parceria com a iniciativa privada uma usina que transformaria lixo em energia. Tudo não passou de intenção. O projeto foi desativado. O Grande ABC não é exemplo de cuidados ambientais decorrentes do lixo. Inclusive no quesito de reciclagem. Promessas de elevação constante de reciclagem material tendo como base as coletas seletivas não fazem cócegas quando confrontadas com a realidade dos lixões. Nota zero.

 Trigésima-oitava profecia

Prefeitos da região já começam a colher os frutos de convênios com organizações especializadas em recursos humanos: quadros do funcionalismo público municipal elevam a produtividade a níveis da livre iniciativa. A medida valoriza os eficientes e bota para fora os acomodados, já que a estabilidade foi para a cucuia.

 Resultado – Os custos com a Administração Pública sobem a cada nova temporada. Como nos Estados e na União, o funcionalismo público segue vida própria e em muitas situações não passa de correia de transmissão demagógica do prefeito de plantão. Benesses se estendem até o limite máximo do orçamento cada vez mais comprometido com salários e direitos trabalhistas de ativos, pensionistas e aposentados. Nenhuma inovação surgiu no mapa de mesmices da gestão pública municipal do Grande ABC nos últimos 24 anos. A ordem é gastar e gastar sem referenciais que assegurem equilíbrio financeiro que não comprometam os investimentos. O Grande ABC ocupa posicionamentos mais que secundários em rankings de eficiência fiscal. Muito distante dos posicionamentos individuais dos municípios no PIB dos Municípios Brasileiros. Não há sintonia entre riqueza gerada e despesas contratadas. Nota zero.

 Trigésima-nona profecia

Pequenas empresas deixam de sofrer com a discriminação empresarial do Brasil. A aprovação do Estatuto da Microempresa, luta de vários anos do Sebrae, deixa de confundir pequena e grande empresa, poucos e muitos impostos. Governo federal aprova legislação que protege o setor na área de financiamentos e impostos. Agora, quando se fala no assunto, não se trata mais de tapeação. Os juros já não são escorchantes e muitos tributos desapareceram.

 Resultado – Medidas federais permitiram que surgissem no Grande ABC e no País como um todo os chamados microempreendedores individuais, além de estabelecerem proteções mitigatórias no campo tributário às pequenas e médias empresas. Adicionalmente no Grande ABC nada foi acrescentado. A parafernália tributária dos municípios, notadamente na aplicação do ISS (Imposto Sobre Serviços), atribuição dessa esfera governamental, dificulta intensamente as relações comerciais no âmbito regional. Alíquotas diferentes para atividades iguais são um inferno de discricionariedade a atrapalhar a vida dos empreendedores. Nota zero.

 Quadragésima profecia

Convidados do Prêmio Desempenho Empresarial resolvem trocar ideias durante o coquetel e chegam à seguinte conclusão: jornalista travestido de Nostratamos de Resolver precisa de imediata internação. Está completamente maluco.

 Resultado – O tempo, como se sabe, é o senhor da razão. Um balanço geral como o que acaba de ser feito agora, 24 anos depois dos enunciados de Nostratamos de Resolver num Teatro Municipal de Santo André lotadíssimo, é revelador à distinção entre quem tem compromisso social e aqueles que não passam de usurpadores de poderes. O Grande ABC é uma nulidade em termos institucionais. É uma faca sem gume, é um dia sem sol, é o fim da picada, um resto de toco, o toco sozinho. Nota zero.

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