Sociedade

Bom Prato e Bem Barato, eis o
Grande ABC em estado bruto

  DANIEL LIMA - 14/02/2020

A primeira página do Diário do Grande ABC de hoje, vitrine do que a edição tem de melhor, apresenta duas reportagens que fazem parte da mesma face da moeda de empobrecimento e desequilíbrio econômico da região.

A contestação à investida da Prefeitura de São Bernardo em instalar uma segunda unidade do Bom Prato no Município e a chegada de nova loja de supermercado da rede Bem Barato, também em São Bernardo, desdobram-se da desindustrialização que não cessa e que, por não cessar, vai criar mais antagonismos e contradições no tecido social e econômico no Grande ABC.

Antes de ingressar nos dois terrenos movediços publicados em forma de reportagens do Diário do Grande ABC de hoje, não resisto à tentação de, outra vez, chamar a atenção das autoridades. Ou os senhores tomam vergonha na cara e agem para buscar saídas que restrinjam o agravamento da desindustrialização, ou as próximas gerações vão enxergá-los como mandachuvas irresponsáveis.

Restaurante popular

Vamos aos casos publicados pelo Diário do Grande ABC. A começar pela revolta de moradores de classe média do Bairro Assunção. Eles não querem nem pintada de ouro a unidade do Restaurante Bom Prato na Praça Giovanni Breda. A comunidade do entorno organiza abaixo-assinado para tentar convencer a Prefeitura a mudar o local do restaurante popular bancado com dinheiro público, ou seja, pelo conjunto dos contribuintes.  

Li a reportagem e me convenci de algo que não está explícito, mas de maneira subjacentemente esclarecedora para quem lê jornais com olhos de quem já fez muito jornal: a população no entorno da praça não quer o Restaurante Popular porque uma massa de deserdados estaria pronta a invadir diariamente aquele espaço de qualidade de vida de quem não quer complicações com segurança.

Não faço juízo de valor sobre o que alguns poderão chamar de discriminação social. Mas há algo de presente de grego para quem mora naquela área do Bairro Assunção. E quem acha que um restaurante popular não incomoda ninguém, que se dirija ao prefeito Orlando Morando. Sugira a ele que se desloque o projeto ao bairro em que mora. De preferência, defronte à própria residência.

Procurando desculpas

Quem acha exagero na interpretação da reportagem do Diário do Grande ABC, atribuindo a moradores do Bairro Assunção seletividade ou preservação do direito de viver sem atropelos maiores que os já naturalizados no ambiente regional, pinço uma declaração que sublinhei como forma de marcar os pontos principais de um texto: 

 “Não vimos o projeto, mas, pelo que sabemos, vai ocupar um quarto (da praça)”, afirmou (o síndico de um prédio em frente à praça, o músico Anselmo Feitosa). “Com certeza vão se agravar os problemas de higiene e segurança que já temos”, reclamou.

Querem outra declaração à jornalista Aline Melo, do Diário? Vamos lá, então:

 O projetista aposentado Pedro Jorge Petrokas, 66, afirmou que outro problema é a necessidade de cortar árvores para construir o equipamento. “Vamos deixar mais uma área impermeável”, pontuou. Petrokas relatou que algumas das árvores da praça foram plantadas por ele, há 15 anos. “A gente entende a necessidade do restaurante, mas aqui é um bairro de classe média. Existem bairros mais carentes, considerou”.

Pobres e miseráveis

Chamem do que quiserem, de brutalização ou de preservação de direitos adquiridos em qualidade de vida, o fato é que os entrevistados pelo Diário do Grande ABC não me enganaram na avaliação do sumo básico de contrariedade à implantação do restaurante: eles não querem pobres e miseráveis naquela redondeza de classe média.

Que proprietário de imóvel de classe média em qualquer ponto do Grande ABC estaria disposto a solidarizar-se com os excluídos sociais a ponto de trocar de residência com os incomodados? Desfiles verbais de humanismo nas redes sociais fazem parte do jogo de aparências que a dura realidade coloca no devido lugar, ou seja, na esfera malandra de hipocrisia.  

Bem Barato no São Francisco

Se a reportagem sobre o Restaurante Bom Prato saiu na editoria de Setecidades, o Diário do Grande ABC reservou para a área de Economia a substituição do espaço físico do desativado Restaurante São Francisco (na já praticamente extinta Rota do Frango como Polenta) pelo supermercado Bom Barato.

É claro que o prefeito Orlando Morando, ouvido pela jornalista Tauana Marin, não perdeu a oportunidade para instalar no altar de Desenvolvimento Econômico algumas dezenas de postos de trabalho gerados pelo supermercado. Morando só repete o que os demais prefeitos da região fazem costumeiramente: trata quinquilharias como pedras preciosas.

Sem entrar em detalhes econômicos sobre os ganhos e os danos da troca de um megarestaurante por um supermercado, a mudança tem a mesma mensagem emblemática do Bom Prato: expressa a quebra da mobilidade social no Grande ABC, e particularmente em São Bernardo.

Tenho reunido dados suficientes, e os traduzidos em análises constantes e inéditas, que apontam a quebra da corrente de riqueza regional. Temos cada vez menos famílias de classe rica e de classe média tradicional. E mais famílias de proletários, pobres e miseráveis.

A cara social e econômica do Grande ABC, que durante três décadas se descolou da cara média do Brasil, sofreu sérias avarias causadas pelo envelhecimento estrutural e está cada vez mais parecida com o restante médio do País.

Dignidade e concorrência

Não ficarei aqui repetindo dados de textos anteriores, mas é inescapável uma citação emblemática do empobrecimento e da desigualdade social na região, aprofundados neste século: temos entre pobres e miseráveis, em total de famílias, uma São Caetano e uma Diadema inteiras. Por essas e outras necessitamos cada vez mais de Bom Prato e Bem Barato.

A diferença entre um produto público (Bom Prato) de cunho assistencialista e um produto privado (Bem Barato) de cunho capitalista, é que o primeiro atende às necessidades alimentares básicas dos deserdados, enquanto o segundo acresce decibéis de desigualdade competitiva.

Explico: quando o prefeito Orlando Morando (e poderia ser Paulinho Serra, também adepto da propaganda ufanista a qualquer custo) acena com algumas dezenas de empregos na unidade comercial do Bem Barato, ele simplesmente esquece que estabelecimentos familiares da redondeza tenderão a desaparecer ou a miniaturarizarem-se ainda mais por conta da concorrência.

Não quero demonizar o novo empreendimento privado. Longe disso. Como liberal-socialista que sou, jamais cometeria essa aberração. Apenas expresso o direito ao alerta condicionante do que significa mais uma unidade de uma rede que, embora de porte pequeno, conta com muito mais poder de negociação tanto nas compras como nas vendas do que unidades familiares desgarradas como são de qualquer indicador de cooperativismo.

Bom Prato e Bem Barato custam caro ao Grande ABC. O primeiro, claro, à dignidade humana, a rastejar por um prato de comida. O segundo, à competividade e ao equilíbrio no setor de varejo.

A desindustrialização está na raiz de tudo. Sempre acompanhada da inapetência técnica dos mandachuvas e mandachuvinhas que ocupam cargos públicos e instâncias supostamente representativas da iniciativa privada.

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