Sociedade

Quando a morte chega para o
próximo chega também para nós

  DANIEL LIMA - 21/02/2020

Quando a morte chega para quem nos é próximo, a morte também chega para nós. Chega de mansinho, ameaçadora. Filosofo a respeito da morte do ex-deputado Waldir Cartola, noticiada hoje nas redes sociais. Cartola era uma figuraça, do futebol à política, da política à Administração Pública. As más e ferinas línguas dizem ou garantem que foi o prefeito de fato de São Bernardo na gestão de Walter Demarchi. Pode ser um abuso, um desrespeito, mas que tinha pinta de prefeito, isso ele tinha. 

O conceito de proximidade é maleável quando retrata quem é de fato próximo fisicamente e quem é próximo temporalmente. Tive proximidade física com Cartola, de jornalista e entrevistado, há muito tempo. Depois, nos limitamos à proximidade temporal. Como tenho com os prefeitos atuais. E os anteriores também. Apenas para exemplificar. 

Quem já ingressou no terceiro ciclo de vida (a partir dos 60 anos) e que, portanto, superou os dois primeiros (até os 30 e dos 30 aos 60), sabe que a probabilidade de virar estatística obituária é enorme. Convivo com isso diariamente. Tenho meus dilemas pessoais por conta da atividade profissional. Quando a morte chega para quem nos é próximo fisicamente ou na contemporaneidade da vida regional, o alarme se manifesta. Cartola fez ressoar esse sentimento. 

Caindo a ficha 

Escrever sobre morte não é entregar-se às forças do destino. Entrei no terceiro ciclo e do terceiro ciclo quero passar (depois dos 90, seja o que o poderoso quiser) como quem ainda não houvesse completado 30 anos. É verdade que a máquina corporal já não é a mesma, que a maquinaria mental sofre algumas avarias, mas a alma está sempre pronta para reagir. Não devemos nos abater jamais. 

Mas é complicado encarar a vida quando os próximos começam a nos deixar. E eles nos deixam até que chega a nossa vez de aprontar com terceiros que estão na fila da vida. 

Minha ficha sobre mortalidade humana só caiu há 16 anos quando perdi meu pai, meu herói, meu divisor de água de caráter e tenacidade. Sofri e sofro um bocado. Depois, foi minha mãe. Antes fora um dos irmãos, abatido aos 40 anos de idade. Mas foi meu pai o deflagrador emblemático de que a morte de um próximo com o qual convivemos desde menino é a pior morte a ser suportada porque sinaliza que a porteira está aberta.  

Camisas vermelhas 

Sou contemporâneo de Ademir Medici, amigo jornalista que cuida tanto da história do Grande ABC quanto das notas de falecimentos. Ademir convive diariamente no Diário do Grande ABC com o ontem mesmo que o ontem esteja presente, ou se despedindo do presente. 

Com Ademir Medici no pedaço não há ameaça que afronte o passado regional. Hoje mesmo ele publica uma reportagem sobre a transformação do Santo André Futebol Clube em Esporte Clube Santo André. Destaca um ponto sobre o qual já havia me esquecido: sem camisa, o time do então novo presidente Acyr de Souza Lopes jogou em 1975 com as camisas vermelhas da Metalúrgica São Justo, empresa da qual o novo e breve comandante do clube era proprietário. 

Ademir Medici especulou sobre o autor da reportagem publicada nas páginas de esportes do Diário do Grande ABC. Mencionou meu nome como provável autor. Acertou em cheio. Estou na labuta há mais de meio século. Outro dia, depois de editar uma análise sobre o então ainda desconhecido Santo André que faz sucesso no Campeonato Paulista, alguém indagou numa rede social se também escrevia sobre esportes. Foi uma provocação. Que tirei de letra. Raramente bato boca nas redes sociais. Aprendi que a festança democrática na comunicação comporta exageros que o jornalismo profissional precisa compreender para não se desgastar. 

Loteria macabra 

A razão de ter mencionado o amigo Ademir Medici se diluiu no correr dessas linhas, mas recupero o fio do novelo do nexo entre ele e a finitude da vida. Sou leitor de Ademir Medici entre tantos motivos porque tenho curiosidade mórbida ou de autodefesa. Passo os olhos diariamente na coluna de obituários. Procuro de imediato saber a idade dos que se foram. É uma loteria quase macabra. 

Quanto mais encontro entre os que se despedem uma média de vida acima dos 80 anos (como Waldir Cartola de hoje, Felipe Cheidde de outro dia e o meu Gabriel em 2004), mais sinto que ganhei prazo adicional para continuar a azucrinar a vida dos mandachuvas e mandachuvinhas que nada fazem pelo Grande ABC. 

Pelos meus cálculos precários, do Instituto DataDaniel, Divisão de Longevidade Etária, tenho combustível para algo mais que uma década. Esse é meu pensamento positivista, conectado à lista de mortes impressas na página de Ademir Medici. 

Estou sempre atento, repito, à média de anos dos que foram embora. Tenho enorme preocupação quando, numa determinada edição, a turma, ou a maioria da turma que foi desta para outra, baixa a quilometragem. Ai, refaço os cálculos. 

Conselho em extinção 

Um dos medidores da temperatura de minha expectativa de vida é o Conselho Deliberativo do Esporte Clube Santo André. Como acompanhei e acompanho a história do clube, aquele universo se tornou referência de vida e de morte. 

Sinto que o envelhecimento chegou pelo mapeamento do Conselho Deliberativo do Santo André. Mais precisamente do quadro dos conselheiros históricos, egressos dos primórdios do clube, nos anos 1970. Daquela turma, restam poucos. Pouquíssimos. A cada novo mês tombam vários. Os presidentes da agremiação quase todos já desfrutam do descanso eterno. Wigand Rodrigues dos Santos e Jairo Livolis foram os mais recentes. 

Antes, foi-se Breno Manuel Gonçalves, entre outros. Cito Breno por duas razões: pela grandeza da atuação à frente do clube, como motivador extraordinário, e também porque, não sei por que cargas dágua, fui escalado para o discurso de despedida. Uma experiência dolorosa.  

Mais que dolorosa, para dizer a verdade. Participar de velório é algo que transcende minha emotividade natural. Brinco que nem no meu velório gostaria de estar presente, embora, claro, não tenha nenhuma inveja do desfecho reservado ao então deputado Ulisses Guimarães. 

Mais vivo que morto 

O problema de quem invade o terceiro ciclo da vida, ou seja, de quem já passou dos 60, é que a frequência com que convive com o efeito-dominó da vida, que se acelera brutalmente. Peças atrás de peças vão tombando. 

Tenho um sentimento profissional horroroso, dolorido, e que me faz manter o ânimo de escrever diariamente: sinto que vou morrer frustrado porque o Grande ABC é cada dia pior do que antes. A baixa institucionalidade e o pragmatismo associado à insensibilidade nos indicam que perdemos a corrida humanitária. Os bons não se multiplicam em coletivismo de objetivos. Os maus usam e abusam do direito de ludibriar os incautos. 

Espero superar a barreira do terceiro ciclo, mas, ante qualquer inconveniência, já escalei alguém que vai tratar de meus escritos. CapitalSocial seguirá ativo. E meus textos serão acionados sempre que alguma bobagem for instrumentalizada para enganar o distinto público. 

Morrerei com a certeza de que não existe passado no que escrevo, porque escrevo sempre de olho no amanhã que vai virar presente. Bastará acionar o dispositivo que tenha a palavra-chave do dia e, pimba, desmascarei os fraudadores de informações. Serei um morto-vivo muito mais vivo do que morto.

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