Política

Coronavírus é complicador para
prefeitos em busca de reeleição

  DANIEL LIMA - 16/03/2020

Se os especialistas não se enganarem com previsões sempre suscetíveis a equívocos quando se trata de algo como o Coronavírus, as eleições municipais desta temporada no Grande ABC vão impor duas centralidades até então partes importantes, mas não dominantes, no imenso bolo de prioridades de campanhas.

É claro que a primeira centralidade é a repercussão política propriamente dita dos efeitos da pandemia no sistema de saúde pública, complicado e deficitário em atendimento em tempos de paz, quanto mais em período de guerra.

E a segunda centralidade é a ação nas redes sociais, por conta, claro, do que infectologistas chamam de isolamento social que, de fato, sob o aspecto sociológico, é isolamento físico neutralizado em alta proporção pela tecnologia portátil.

O potencial de desarranjos do Coronavírus nas campanhas dos prefeitos que pretendem ser reeleitos é superior aos impactos negativos reservados aos adversários pela simples razão de que só tem a perder quem tem a perder no conjunto de poderes de que detêm. Os concorrentes são franco-atiradores tanto nas mídias sociais engajadas quanto nas repercussões sociais voluntárias.

Velocidade à italiana

Se o Brasil for em 30 dias o que a Itália é hoje (é isso o que especialistas afirmam que será), teremos o início de uma contagem progressiva de complicações para os prefeitos de plantão que pretendem revalidar o título de mandatários em outubro próximo.

Os efeitos do Coronavírus seriam socialmente devastadores, economicamente imensuráveis e politicamente desastrosos.

Ainda não apareceu nenhum economista capaz de medir com segurança o tamanho da bomba em forma de encolhimento do PIB Mundial e as especificidades nacionais. Há muito chute. E ao que parece, chutes modestos.

Se for o que se projeta em termos de saúde pública e de comportamento social, o Coronavírus será muito mais contundente no campo econômico do que a crise de 2008. Será por tempo limitado, com recuo gradual imediatamente após o pico, mas provocará contratempos. Quem quer renovar mandato eleitoral precisa se precaver.   

O isolamento físico da sociedade, que já se manifesta e que deverá ganhar novos e dramáticos lances, será compensado pelo afluxo às redes sociais. O contato interpessoal é vítima preferencial das redes sociais. Se darão bem os candidatos que não perderem tempo. Cidades vazias não combinam com a tradição de campanhas eleitorais. A aproximação virtual é a única saída. Além dos programas obrigatórios em redes de televisão e rádio bastante seletivos e, portanto, menos disseminadores de informações e contrainformações em regiões como o Grande ABC.

Remelexo de fatores

É claro que ao se colocarem as redes sociais e os dramas de saúde nos endereços públicos como destaques eleitorais desta temporada, os demais vetores já listados aqui e que serão destrinchados até outubro perdem força de catalisação de intenções de votos.

Não que haveremos de ter um mundo novo na política, no qual todos os demais fatores serão dinamitados. Claro que não. Aliás, continuarão a permear conjuntamente a preferência do eleitorado. Mas não terão pesos proporcionais tão expressivos quanto antes da pandemia.

O que tentarei decifrar nos próximos tempos é qual será o prefeito em campanha pela reeleição capaz de entender o jogo de xadrez dessa combinação prevalecente de redes sociais e saúde pública.

Os marqueteiros sempre prontos a manipular informações e produzir alquimias para lustrar o ego gerencial dos prefeitos de plantão serão capazes de transformar o que é potencialmente negativo em algo positivo? Será que conseguirão dar um nó na mais que provável disruptiva demanda? Ou alguém tem dúvidas de que o atendimento médico-hospitalar será engolfado pelo excesso de potenciais portadores do vírus?

Fronteiras a romper

Não há pesquisa que deixe de apontar o sistema público de saúde como um dos calcanhares de Aquiles de gestores públicos em qualquer instância de Poder. Os prefeitos sofrem mais porque estão na linha de frente de atendimento. O contribuinte mora no Município, não no Estado e na União.

Quando o que temos ao longo de temporadas é um atendimento aquém das necessidades (essa é uma realidade em quase todos os pontos do universo de saúde pública no mundo), mas dentro de um padrão de tolerância ou mesmo de intolerância que não chega aos limites do clamor popular, o desgaste enquadra-se nos padrões naturalizados de deficiências do descompasso entre oferta e demanda.

Entretanto, a excepcionalidade dos efeitos do Coronavírus romperá essa linha divisória entre o insatisfatório suportável e o insatisfatório amedrontador, quando não revoltoso.

Custo politico

A grande dúvida é saber o quanto de custo político caberá aos municípios nessa caminhada rumo ao desequilíbrio entre manter a fluidez deficiente, mas já precificada, e eventual avalanche de frustrações que poderia recrudescer o nível de rejeição aos titulares dos paços municipais.

O que o Coronavírus deixaria de lição aos prefeitos do Grande ABC, caso as projeções não sejam espetaculosas, é que eles poderão pagar um preço justo pela negligência como um regionalismo vigoroso. Ou seja: de ignorar que o Grande ABC deveria ser a soma estratégica de sete municípios.

O bicho de sete cabeças sempre minimizado pelos titulares dos paços municipais em 30 anos de Clube dos Prefeitos provavelmente sofrerá muito mais com o Coronavírus. As munições municipais para abrandar a tempestade que está chegando serão sempre menos eficientes caso houvesse coordenação regional.

O vírus é implacável e não reconhece fronteiras cartográficas, mas, como componente de cunho social e econômico, pode e deve ser visto como adversário que requer ações conjuntas que signifiquem mais produtividade dos recursos públicos disponíveis.

Retrato do Brasil

O potencial de complicações do Coronavírus na geografia regional é imenso. Somos um retrato do Brasil. Nossos indicadores econômicos e sociais se aproximam cada vez mais da média nacional. Perdemos riqueza e industrializamos pobres e miseráveis sobretudo neste século, embora a degringolada tenha se iniciada para valer duas décadas antes.

A desigualdade social nos condena a enxergar o futuro próximo do vírus como ameaça amedrontadora. Só de famílias pobres e miseráveis temos a soma de São Caetano e Diadema. É gente potencialmente mais exposta às armadilhas da pandemia.

Há uma conta elevadíssima a ser paga no curto prazo. Construímos no longo prazo uma montanha de problemas que se retroalimentam da desindustrialização.

Esperamos que os especialistas estejam enganados quanto à gravidade que se aproxima. Se formos de fato em 30 dias o que a Itália é hoje, estamos ferrados e mal-pagos. O Terceiro Mundo do Grande ABC praticamente inexiste naquele país da Europa.

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