Sociedade

Vírus: veja carta-proposta
aos prefeitos do Grande ABC

  DANIEL LIMA - 01/05/2020

Caros prefeitos do Grande ABC, instalados no que chamo de Clube dos Prefeitos, oficialmente Consórcio Intermunicipal.

Tomo a liberdade de apresentar o escopo de alternativa para minimizar os danos sociais e econômicos da pandemia da Covid-19 nesse território de mais de 800 quilômetros quadrados e perto de três milhões de habitantes.

Não se trata, como poderão ver, de nada extraordinário. É simples como qualquer operação matemática do Ensino Fundamental. Basta ter determinação e capacidade de mobilização para executar a tarefa. Já passou da hora, aliás.

Essa carta-proposta tem o objetivo exclusivo de colaborar com os senhores, eleitos que foram em outubro de 2016.

Sei que é iniciativa fadada a dar com os burros nágua. Se há algo de inútil no Grande ABC, o Clube dos Prefeitos está na liderança. Inútil no sentido de que historicamente está muito aquém das demandas que a desindustrialização provocou.

E particularmente esse grupo de prefeitos tem-se pautado pela continuidade agora de forma mais aguda da desconstrução de uma iniciativa importantíssima, tomada que foi em dezembro de 1990. 

Impacto regional

Traduzindo em termos claros: os senhores jamais se dedicaram para valer durante todo o tempo ao Clube dos Prefeitos. Nem o prefeito dos prefeitos de plantão o faz. Isso vem de longe. É uma metástase.

Mesmo sem acreditar que os senhores juntariam forças e esforços para sair do marasmo de iniciativas de cunho regional, sobretudo que afetam o campo econômico sem resvalar no comprometimento da saúde pública, me vejo na obrigação moral de apresentar proposição que impactaria diretamente o ambiente regional nestes momentos de transe e inquietação.

Me coloco à disposição dos senhores, se necessário, para uma apresentação e mesmo um debate, mas creio que isso é desnecessário diante da urgência que nos move. Até porque, senhores prefeitos, perdi a esperança de mudanças depois de bater no mesmo teclado durante três décadas. Os arquivos de LivreMercado e de CapitalSocial são testemunhos desse desencanto. 

Tempo de reagir

O mais importante nessa altura do campeonato em que estamos sendo goleados pelo vírus chinês é agir com celeridade. Muito tempo já foi desperdiçado. O que vivemos hoje na saúde terá consequências dramáticas mais adiante, em forma de desemprego generalizado. O desequilíbrio empresarial se acentuará e provocará mortandade recorde. Pequenos e médios empreendedores estão sendo alijados ainda mais de uma disputa concorrencial construtiva, entre outros aspectos.

Estamos cavando a própria sepultura com uma polaridade regrada pelo comodismo do piloto automático, pelo despreparo e também pelo baixo grau de compreensão das possibilidades de medidas restauradoras das próprias administrações municipais.

Não tenho dúvida de que a apatia generalizada do Clube dos Prefeitos nos últimos anos, que se rivaliza com a fragilidade que a precedeu, poderá passar por amplo revigoramento. Basta botar a mão na massa. Que se coloque o Estado, em forma de Prefeituras, como ponta de lança de solidariedade visível e resultados palpáveis.

Hora dos servidores

O que pergunto, senhores prefeitos, como provocador em prol de uma iniciativa inédita no País neste momento em que todos os agentes públicos mimetizam medidas que acentuam a dicotomia entre saúde e economia, o que pergunto senhores prefeitos, repito, é quando vão deslocar a grande massa de servidores públicos (notadamente comissionados conhecidos pela baixa produtividade) a serviço da sociedade neste período tão sombrio?

Repito: quando os servidores públicos, concursados e principalmente os comissionados que seguem manuais de suporte político-eleitoral dos prefeitos de plantão, vão para a linha de frente, preparados claro, para dar à população a certeza de que o Poder Público Municipal está vigilante, colaborativo, solidário, preparado, para fazer o vírus assassino um adversário menos letal à saúde e à economia?

É esse o ponto central desta carta-proposta. Os senhores têm a maior oportunidade do mundo para dar um exemplo aos demais chefes de Executivos do País. 

Ativismo público

Vamos, vamos lá! Sejam agentes públicos ativos. Deixem de correr na mesma raia reativa, quando não oportunista, quando não marqueteira, do governador do Estado. Saiam das barras da calça do governador. Mais que isso: repassem ao governador esse ovo de Colombo. Ele tem poder midiático para multiplicar a proposta por todo o território paulista.

Cada um dos senhores deve dividir os respectivos municípios em distritos. Peguem o mapa municipal. Há casos em que os distritos eleitorais podem servir de campo de batalha contra o vírus. Sei que essa vinculação pode ser mal interpretada, mas como não tenho nenhuma ligação com prefeito algum, o peso da ideia limita-se à praticidade interventora.

Até porque a sugestão tem dupla face. Quem for competente obterá respaldo das comunidades atendidas. Quem fracassar, pagará o preço.

Topem essa parada ou vão ficar a ver navios de desmoronamento das medidas aplicadas até agora e cujo resumo da ópera é a cada vez menos aderente política de isolamento. Propomos, com toda a segurança exigida, distanciamento social ante o aplicado isolamento social.

Vejam as ruas como estão cada vez mais coalhadas de veículos. Vejam como os aglomerados humanos retratam a perda relativa do medo. Quando o estrago do vírus chega ao bolso e ao estômago, não há quem segure o repuxo. Caminhamos celeremente para a industrialização de abusos e arbitrariedades que pontuaram nas redes sociais. 

Preparo e ação

O que fazer, caros prefeitos, com esses respectivos redutos populacionais? Simples: treinem servidores públicos (principalmente os batalhões de comissionados) para se tornarem agentes de monitoramento com repercussão tanto na saúde quando no empreendedorismo.

Prepare-os adequadamente. Distribua-os preferencialmente nos espaços territoriais onde moram. Coloquem cada um deles em contato direto com as comunidades mais próximas. Proteja-os com instrumentais recomendados pelos especialistas para que não virem vítimas do vírus. Prepare-os para agir nas duas frentes: orientando os moradores na fluência garantidora de proteção contra o vírus e no disciplinamento contido ao atendimento de consumidores de produtos e serviços nos estabelecimentos locais. Os mesmos estabelecimentos que também seguiriam normas rígidas para combinar faturamento e segurança.

Coloquem esses batalhões organizadamente nos bairros. Deem-lhes instrumentos tecnológicos já massificados e dotados de aplicativos que, conectados a uma central de operações, muito contribuíram para o armazenamento de dados, cujos estudos e análises poderão dar mais racionalidade e respostas aos desafios que se apresentam. 

Sinergia de campo

O que pergunto é o que andam fazendo os servidores públicos (notadamente os comissionados) nestes tempos de pandemia? Seja o que for que estejam fazendo o lugar de muitos deles é prestar atendimento à sociedade que paga os seus salários em forma de impostos.

Senhores prefeitos: coloquem esse pessoal para trabalhar. Botem eles nas ruas com planejamento, preparo, conhecimento e dedicação. Forrem os bairros com esse exército de servidores. Deem a cada um deles tarefas que vão enobrecê-los em sintonia com a mitigação dos danos diretos e colaterais da pandemia.

Não faltam especialistas em saúde que acrescentariam medidas providenciais no combate local da pandemia. Os servidores públicos poderão virar referência de eficiência. Eles serão a cara, o corpo e a alma da Administração Pública. A sociedade não se sentirá abandonada pelo Poder Público.

Já imaginaram, senhores prefeitos, o quanto os servidores públicos podem, estando no front, trazer de informações sobre o comportamento da população tanto reclusa em suas moradias quanto de empreendedores de pequeno e médio porte deslocados há mais de 30 dias de uma condição inerente a quem abre uma porta para atender a clientela – a sobrevivência familiar sempre a reboque da resistência do negócio. 

Capilaridade funcional

Sei, senhores prefeitos, que essa iniciativa dá trabalho. Exige muito esforço de todos. Requer desprendimento sem tamanho. Mas, pergunto: o Coronavírus não vale tudo isso?

Por que a inflexibilidade de ficar em casa quando esses batalhões de servidores poderiam seguir regras rígidas de segurança sanitária de modo a associar uma coisa à outra.

Já imaginaram, senhores prefeitos, a capilaridade dessa iniciativa? Quantos ensinamentos à população assustada e reclusa não teria materializado? Bairro por bairro, rua por rua, esses agentes públicos transmitiriam confiança aos moradores. Ninguém se sentiria desamparado pelo Poder Público como hoje.

Uniformize-os, senhores prefeitos. Deem-lhe identidade facilmente decodificadora da ação. Caracterize-os como agentes da salvação. Ou não o seriam se agirem para valer no nascedouro dos problemas e de eventuais soluções?

Talvez a visibilidade da operação perca em marketing político para os hospitais de campanha, mas, podem acreditar, fosse essa medida já transformada em realidade, o fluxo de doentes teria caído acentuadamente. 

Mitigar sem riscos

Mais que supostamente quebrar a cadeia de interação social, essa iniciativa promoveria uma mobilização moderada, cuidadosa, solidária e amenizadora do congelamento de atividades econômicas que se tornará um tiro no próprio pé da gestão pública em forma de recuo comprometedor de recolhimento de impostos.  

Preferi, senhores prefeitos, não desenvolver nenhum desdobramento mesmo que preliminar dessa iniciativa. Acredito que há profissionais no setor público que contribuiriam imensamente com essa proposta.

Precisamos colocar um ponto final no ambiente desértico das ruas. Precisamos parar de ter medo do vírus. Devemos enfrentá-lo com todo o aparato técnico que a Organização Mundial da Saúde recomenda. Mas não podemos virar as costas para os indicadores econômicos.

Senhores prefeitos: transformem os servidores públicos em agentes mobilizadores de uma retomada econômica específica em cada bairro. Toda a cidade, toda a região, estará tocando a mesma melodia.

Senhores prefeitos: abram as portas da economia para todos os empreendedores que seguirem as regras do jogo. Regras que podem e devem ser flexibilizadas, retirando a rigidez do temor do descompasso entre infectados e infraestrutura hospitalar.

Grande ABC contra o Coronavírus não seria meramente uma frase de efeito. Seria uma reação bem articulada. O Clube dos Prefeitos é uma instituição inadimplente, quando não concordatária, no Grande ABC. Essa é a maior oportunidade que a história regional oferece a uma grande reviravolta.

Senhores prefeitos: coloquem os servidores nas ruas. Preparados, disciplinados, comprometidos com o equilíbrio entre saúde e economia. Forrem as ruas de todos os bairros do Grande ABC. Não falta gente para essa intervenção. E se faltar, requisite assessores dos vereadores. Coloque-os também na dança da salvação.

Senhores prefeitos: estamos fartos de ver cenas de hospitais em transe. Tudo isso poderia ter sido fortemente reduzido se tivéssemos servidores públicos nas ruas agindo como agentes de saúde. Treinados, preparados, organizados e solidários. E seguindo protocolos internacionais básicos. Menos confinamento, menos isolamento. Distanciamento regulamentar. Sem aglomerações. Vamos lá, prefeitos!

Afinal, os senhores estão esperando o quê? Ordens do governador?

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