Política

Quem vai se beneficiar do
triângulo móvel em 2022?

  DANIEL LIMA - 04/05/2020

Sem forçar a barra de intepretação dos dados diria que temos hoje um triângulo isóscele no quadro político nacional. Ainda falta muito tempo e não está descartada uma carteirada do Supremo Tribunal Federal para retirar Bolsonaro da jogada eleitoral (ou estamos enganados?).

Vamos desconsiderar essa possibilidade e olhar para 2022. O formato geométrico-eleitoral nos próximos tempos tende a virar um pentágono, mas, em seguida, rumo às urnas, ressurgiria como triângulo escaleno. Não entendeu? Vou explicar em detalhes.

Para complicar ainda mais a equação, dentro do triângulo isóscele existe um outro triângulo, o triângulo móvel, de formato indecifrável que fermenta a provisoriedade de um pentágono. Embaralhei? Vou esclarecer porque sei que é complicado. E esse texto foi deliberadamente programado para quem gosta de queimar as pestanas. Não é nada agradável à leitura apressada. 

Terço indestrutível?

Jair Bolsonaro tem um eleitorado tão solidamente forte no formato principal do jogo eleitoral, no caso o triângulo isóscele, que é impensável que esteja fora do segundo turno eleitoral em 2002.

Por mais que cometa erros e por mais que a oposição não lhe dê trégua, Bolsonaro desfruta de um terço de avaliação positiva (ótima/bom) dos eleitores desde dezembro do ano passado. É uma marca e tanto. Parece indestrutível, observando-se o ambiente explosivo provocado pelo Coronavírus na economia e as intrincadas combinações de ajeitamentos e traições na política. Seria um primeiro turno tão garantido quanto um segundo turno enigmático.

Vou seguir rigorosamente a margem de erro de três pontos percentuais do Datafolha. Decidi produzir essa análise tendo o Datafolha como referencial, apesar dos pesares ou justamente por conta do pesar e dos pesares. Não só por isso, claro. Há dados anteriores que interessam à avaliação mais segura, na linha do tempo.

Solidez desde dezembro

Na pesquisa do Datafolha de 27 de abril último, no olho do furacão da demissão do ministro da Justiça Sérgio Moro, Jair Bolsonaro contava com 33% de avaliação positiva. Eram 30% em dezembro do ano passado. Uma oscilação dentro da margem de erro.

O resultado de Jair Bolsonaro representava praticamente empate técnico com os índices de avaliação negativa (péssimo/ruim), que chegaram a 38%.

A metodologia define que os 33% de Bolsonaro tanto podem ser 36% quanto 30%. E os 38% de reprovação seriam 35% tanto como 41%. Ou seja: a margem de erro de três pontos percentuais vale para cima e para baixo.

Não há como desviar o triângulo isóscele em direção ao triângulo escaleno (como explico em seguida). Não houve desgarramento da margem de erro. O rigor estatístico seria infringido. Como não o foi, favorece o que chamaria de comportamento resiliente do eleitorado à direita. As circunstâncias políticas e sociais do período pesquisado (renúncia de Sérgio Moro seguida de denúncias de interferência de Bolsonaro na Politica Federal e a pandemia do Coronavírus) desgastaram a imagem do presidente da República menos do que se projetava.

Deve-se considerar nisso tudo que o Datafolha enfiou no meio (ou no começo?) dos questionários a indutiva (em sentido reprovador) pergunta que trata da possibilidade de renúncia do presidente da República. A ordem numérica das questões levadas aos entrevistados faz diferença e tanto em determinadas situações da pesquisa. Tanto quando cada um dos enunciados. Há várias maneiras de manipular resultados de pesquisas. Quando se quer chegar a determinado objetivo, fazem-se loucuras com aparência de cientificidade supostamente intocável.

Escaleno ou pentágono?

O triângulo isóscele se completa com os 26% dos entrevistados que ficaram no meio do campo, entre o ótimo/bom e o ruim/péssimo. Ou seja, são 26% que optaram pelo regular. O triângulo é isóscele porque tem dois lados que se equivalem em tamanho e um abaixo. O triângulo escaleno conta com três lados de tamanhos diferentes. Tudo isso numa linguagem simples no tratamento à geometria. Obedecendo-se, claro, a ciência. O triângulo equilátero tem as três partes iguais. Está longe de se projetar como retrato do Brasil destes tempos. Há possibilidade de o triângulo isóscele ganhar novas formas no futuro próximo.

De fato, levado a ferro e fogo, o triângulo isóscele não existe solidamente como se pressupõe. Entre os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro e os resolutamente contrários, que se equivalem conforme os dados do Datafolha e de outros institutos de pesquisa (como variações que não ultrapassam largamente a margem de erro) existe um contingente de eleitores que estão em cima do muro, do triângulo móvel.

Esses eleitores formam o grupo que avalia como “regular” o governo de Jair Bolsonaro. O que são, afinal, esses “regular”? Os institutos de pesquisa preferem sustentar a inflexibilidade de quem nem aprova e nem reprova. Regular é regular e estamos acabados. Não é bem assim.

“Regular” sem definição 

“Regular” com viés de bom e regular com viés de ruim e mesmo o regular solidamente regular, de quem observa atentamente o cenário nacional, são tipologias de “regular” a serem decifradas. É nesse ponto que se abre espaço à figura geométrica do pentágono.

A soma dos três modelos de “regular” (ou seja, o triângulo móvel) com os extremos de aprovação e de reprovação a Jair Bolsonaro compõe essa figura geométrica de cinco lados.

O triângulo móvel, do “regular” generalizado dos institutos de pesquisa, é que decidirá as eleições presidenciais, a permanecer a tendência de definições dos últimos meses, que, no fundo, confirma os resultados das disputas de outubro de 2018.

É nesse ponto que a repercussão (e principalmente o futuro) da demissão de Sérgio Moro poderá influenciar decididamente. Se o ex-juiz fortalecer a imagem de herói que a Operação Lava Jato garantiu, Jair Bolsonaro poderá perder naco importante do centro chamado “regular”, o triângulo móvel. Entretanto, se Moro converter-se em denunciante patético, sem provas suficientes, Jair Bolsonaro seria beneficiado com o retorno de parte do rebanho centrista que o abandonou após a entrevista coletiva denunciatória do então ministro da Justiça. 

Dessa forma, o pentágono aos poucos seria desfeito como força definidora de tendências eleitorais. O regular para bom e o regular para ruim aumentariam de proporções em detrimento do regular-regular. Teríamos de volta o triângulo isóscele ou a configuração do triângulo escaleno?

Pobres mudam de lado?

Também deve ser considerado como vetor de transformações os eleitores “regular” que estão nas camadas mais pobres da sociedade. Já há evidências de que o dinheiro injetado pelo governo federal na massa de deserdados antigos e de deserdados novos por conta dos efeitos da pandemia do Coronavírus começa a se dirigir ao rebanho bolsonarista.

Se houver essa prevalência, o presidente da República teria ganho expressivo num estrato eleitoral que em larga margem sempre lhe foi hostil ou indiferente, sobretudo no Nordeste. Gente que sempre viu no ex-presidente Lula da Silva um santo a cultivar.

A migração de populares compensaria fartamente as perdas de Bolsonaro nos estratos de maior nível educacional, registradas por diversos institutos de pesquisa. Inclusive o Datafolha. Provavelmente por isso, Bolsonaro não acusou perda entre os eleitores do “regular” após o dilúvio chamado Sérgio Moro. 

Tudo como dezembro

Por enquanto, nesse jogo de suposto perde e ganha patrocinado pelos eleitores pesquisados pelo Datafolha, o resultado é nulo, ou seja, não se alterou praticamente nada deste dezembro do ano passado. Mesmo com todo o remelexo federal dos últimos tempos.

O triângulo móvel (os eleitores que optaram pelo “regular”) dentro do triângulo isóscele na avaliação do presidente Jair Bolsonaro perdeu massa de seis pontos percentuais: eram 32% e passaram a ser 26%. Portanto, fora da margem de erro.

A distribuição à direita e à esquerda foi praticamente equitativa: Bolsonaro ficou com três pontos percentuais positivos e somou dois pontos percentuais entre os eleitores que consideram a gestão “ruim/péssima”. Aumentou o número de eleitores que não souberam responder à questão do Datafolha: era apenas 1% em dezembro de 2019 e agora, em 27 de abril, somavam 3%.

Hora de a onça beber água

Quanto mais se aproximarem as urnas mais se observará até que ponto o triângulo móvel dentro do triângulo isóscele (regular positivo, regular-regular e regular negativo, além de aprovação e reprovação, os vértices do pentágono) desembocará em forma de favoritismo eleitoral de um representante da centro-direita ou da centro-esquerda.

Parece haver pouco espaço, novamente, a uma candidatura centrista suficientemente longe da direita mais radical e também suficientemente distante da esquerda menos extremista. Sérgio Moro parece encalacrado.

Ou alguém tem dúvida de que o pentágono vai se desfazer na medida em que as urnas se aproximarem? Estará de volta o formato principal de triângulo isóscele, recheado ao centro pelo triângulo indecifrável porque jamais medido. E, finalmente, teremos o triângulo escaleno, de três partes desiguais – dos vencedores, dos perdedores e dos votos em branco, nulos e abstenções.

Espero que o leitor tenha entendido esse malabarismo todo. Tudo porque os institutos de pesquisa insistem em botar os eleitores optantes pelo “regular” intocável que, todos sabem, é uma balela. Tirem esse pessoal de cima do muro.

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