Sociedade

Vírus, armário, mata-burro e
matadouro: entenda a charada

  DANIEL LIMA - 12/05/2020

Para que os leitores não fiquem matutando sobre o título da manchetíssima de hoje, vou logo aos esclarecimentos.

O Diário do Grande ABC saiu do armário da discrição na contagem de letalidade do vírus chinês.

O mata-burro é do Clube dos Prefeitos que diminuiu o ímpeto de cometer a bobagem gataborralheiresca e transplantar o rodízio radical de veículos de São Paulo.

E o matadouro é da Grande Mídia que, descaradamente à caça do presidente da República para proporcionar ambiente de impeachment, bateu com a cara na porta após a primeira rodada do inquérito policial desdobrado da saída do então ministro da Justiça Sérgio Moro. A falsa democracia da informação caiu por terra. O que existe mesmo é um jogo pesado para derrubar o presidente da República.

Estão aí as três vitrines temáticas originárias do Coronavírus. Ou alguém duvida que a raiz do pretexto da pretendida queda de Bolsonaro está no vírus?

É relevante a compreensão de cada situação para que julgamentos apressados não atropelem o bom-senso.

O armário do Diário

Procurei nos arquivos recentes e não encontrei nada que impusesse semelhança à manchetíssima de hoje do Diário do Grande ABC na cobertura dos estragos do vírus chinês. “Disparam na região mortes associadas a novo Coronavírus” é uma mudança radical na política editorial do jornal mais tradicional da região.

Resta saber se haverá sequência não necessariamente alarmista nos próximos tempos, algo semelhante ao que faz o Jornal Nacional praticamente todos os dias, ou a ocasião mais que oportuna será sazonal, de acordo com eventuais novos saltos olímpicos dos casos fatais.  

O Diário do Grande ABC tem todo o direito de esconder os números de casos letais do Coronavírus na região. Embora não concorde nem como jornalista nem como assinante do jornal, cada editor responde pelo que entende ser mais importante.

Por isso, a guinada da edição de hoje chama à atenção. Até então o Diário do Grande ABC reservava rodapés de páginas, de forma bem discreta, portanto, para dar informações sobre o que o vírus anda produzindo de mortes na região. O jornal Reporter Diário, mais digital que impresso, dá destaque em todas as edições.

Servidores na mosca

Como não estou mais disposto a voltar a atuar como ombudsman não autorizado dos jornais locais e tampouco da Capital (as incursões nesse sentido são circunstanciais), prefiro não preparar nenhuma análise sobre a gestão editorial dessas publicações nestes dias tenebrosos. Só lembro (e fiz um breve comentário sobre isso no aplicativo Whatsapp ainda recentemente) que se deve jogar limpo, mesmo que doloridamente, nessa contagem macabra.

A sociedade regional precisa saber tudo sobre a elasticidade numérica que a cada dia se aproxima mais daquela marca aqui divulgada, fruto de trabalho de estudiosos britânicos. Teríamos 588 mortes ao fim da pandemia.

Estou começando a achar que o número é modesto porque já chegamos a quase 300. E os servidores públicos seguem no bem-bom, quando poderiam ser utilizados como monitores em todos os bairros de cada cidade.

Temos 40 mil servidores públicos contratados na região. Os comissionados passam de cinco mil. A maioria dessa gente não está fazendo nada, quando poderia fazer um pouco porque a soma de um pouco entre muitos é bastante coisa.

Os sindicalistas do setor público que tanto falam em solidariedade e em igualdade social também não mexem uma palha. Preferem mesmo e sempre cobrarem direitos e aumentos salariais. O corporativismo está sempre acima dos interesses da sociedade servil que alguns ousam chamar de sociedade civil.

Oposição frustrada

Sobre o matadouro da Grande Mídia (Grupo Globo, Folha, Estadão) os destroços do direcionamento implacável contra o governo federal estão na cobertura de hoje (e no caso das emissoras de televisão, de ontem) da primeira rodada do inquérito que visa apurar a denúncia mais que frágil do então ministro Sérgio Moro sobre suposta interferência do presidente da República na Polícia Federal, processo que culminou no pedido de demissão dele, Moro.

Quem melhor representa a frustração dos empedernidos opositores da mídia saudosa dos bandidos sociais que a Lava Jato botou na cadeia ou no hall dos desmascarados é a Folha de S. Paulo. A manchetíssima de hoje do jornal que mais combate Bolsonaro tratou do rodízio radical em São Paulo, rodízio do governador João Doria, quase que integralmente protegido por essa mesma Grande Mídia. O fracasso do inquérito policial sob a ótica de impeachment foi tremendamente mitigado na primeira página.

À Folha e à Grande Mídia a verdade dos fatos só interessa quando Bolsonaro pratica as bobagens de sempre. Quando o que se configura é a estultice de um juiz que tanto fez sucesso na operação Lava Jato, qualquer outro assunto é mais importante. Falta inteligência aos responsáveis pela condução da Grande Mídia, embora tentem disfarçar.

Perseguição implacável

A perseguição ao governo federal mereceria uma edição especialíssima de um ombudsman não autorizado, como eu. Mas não seria mais necessário, após a entrega pública da rapadura entre ontem e hoje. Hoje na Folha, no Estadão e ontem no Jornal Nacional, murcho como nunca.

E depois a Grande Mídia ainda tem a desfaçatez de fazer campanha contra fake news das redes sociais. As mentiras amadoras das redes sociais são menos perniciosas que as meias-verdades e as omissões do chamado jornalismo profissional, porque este carrega uma tradição a sustentar determinado grau de credibilidade.

O livro “Meias Verdades”, que escrevi em 2003, virou fichinha perto do que escreveria se me metesse a nova edição. Agora há maquiavelismo na Grande Mídia. No começo do século, quando não existia polaridade político-ideológica tão insana, a maioria dos erros da Grande Mídia e da mídia de menor porte era exclusivamente por despreparo, por descuido, por interesses outros menos pecaminosos.

Gabriel apocalíptico

E para completar, felizmente o Clube dos Prefeitos desistiu (embora temporariamente conforme disse o prefeito dos prefeitos, Gabriel Maranhão) da ideia estúpida de replicar na região o rodízio de veículos aplicado na Capital. Como o prefeito Orlando Morando, de São Bernardo, foi o primeiro a pular fora do barco de estultice, os demais, envergonhados ou não, que de imediato seguiriam Gabriel Jin Jones Maranhão, também o fizeram.

O Clube dos Prefeitos de Gabriel Maranhão ainda ameaça a todos, mas o mata-burro que desacelerou o ímpeto talvez leve o dirigente a recuar de vez. Não tem cabimento o Grande ABC embarcar na furada do prefeito paulistano, Bruno Covas.  Contamos com 5,5 vezes menos veículos de passeio do que a Capital. E temos 30% da população economicamente ativa atuando na Capital. As ruas da região ficaram praticamente vazias ontem só por conta dos efeitos da paralisa na Capital.

Na boca do leão

Não bastasse tudo isso a impedir sandice que em nada contribuiria na luta contra o Coronavírus, bem lembrou na reportagem de hoje do jornal Reporter Diário a especialista Andrea Brisida. Ela é secretária de Mobilidade em Santo André e disse com todas as letras que, fosse aprovada, a medida poderia trazer efeito reverso, uma vez que haveria superlotação do transporte público. “A retirada do automóvel particular vai fazer com que as pessoas migrem para o transporte coletivo, isso é uma lógica inversa que pode resultar em uma drástica piora no cenário da pandemia”, declarou em entrevista ao Repórter Diário. Só faltou dizer que Bruno Covas é um Gabriel Maranhão real.

O pito serve também ao prefeito Paulinho Serra que, juntamente com José Auricchio, titular do Paço de São Caetano, disputou o lugar mais privilegiado da fila de gargarejo de apoio à sandice de Gabriel Maranhão quando entrevistados na semana passada pelo Diário do Grande ABC.

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