Sociedade

Vírus: prefeitos perdem, por
enquanto, mas podem reagir

  DANIEL LIMA - 18/05/2020

É uma tarefa multiproblemática ou multidesafiadora avaliar o desempenho de cada prefeito e, principalmente, do conjunto de prefeitos do Grande ABC, no caso dramático do vírus chinês.

O Coronavírus ainda está longe de ir embora e qualquer sentença definitiva sobre o que estão a fazer e o que já fizeram os prefeitos dos sete municípios será precipitação. Por enquanto eles estão perdendo o jogo coletivo. No individual, ou seja, no municipalismo, pode ser que ofereçam alguma resposta positiva.

Há intrincadíssima rede de indicadores a avaliar. Não me pus a detalhar os pontos mais importantes, mas faço breve exposição de alguns desses vetores para espécie de monitoramento possível.

A sugestão aos leitores é que, por enquanto, não elejam heróis ou vilões no setor público. Por enquanto porque o tempo, repito, tratará de distingui-los ou não nas operações municipalistas e regionais.

Servidores ociosos

Mesmo com ênfase ao “por enquanto”, diria apenas que o conjunto frustra a expectativa mínima de empenho coletivo no sentido de que mantêm os servidores públicos (sobremodo comissionados que ultrapassam a cinco mil beneficiários) distantes de reação propositiva por todos os cantos das cidades. Aliás, como apontei e fundamentei na Carta-proposta enviada ao Clube dos Prefeitos. É claro que esperava o silêncio.

Para começar e terminar, a instituição é uma anedota de botequim quando se correlacionam os graves problemas do Grande ABC e a capacidade de enfrentamento. Foi assim e continua assim ao longo dos tempos. Com destaque negativíssimo no campo econômico, o coração de qualquer sociedade que se pretenda dinâmica.

Além disso, os prefeitos não tiram os respectivos umbigos dos interesses municipalistas nesta pandemia que por ser pandemia é regional, estadual, nacional e mundial.

Vejam abaixo os pontos mais relevantes à avaliação futura que farei porque, entre outras medidas, tenho arquivado todo o material jornalístico possível das ações que os sete prefeitos tomaram desde que o vírus virou notícia.

1. Casos letais por 100 mil habitantes em cada um dos municípios.

2. Casos letais por um milhão de habitantes no coletivismo dos municípios.

3. Comparações internas de casos fatais pelas respectivas populações.

4. Comparações externas de casos fatais pelas respectivas populações.

5. Medidas individuais e coletivas deliberada e efetivadas em relação a outros endereços municipais.

6. Efetivação de ações municipais por bairros para monitorar ações implantadas.

7. Relações com o governo do Estado e o governo federal.

8. Monitoramento dos danos orçamentários e iniciativas para enfrentamentos futuros.

9. Relacionamento cooperativo com a sociedade.

10. Medidas efetivas para mitigar danos econômicos.

Mandetta sem ímpeto

Desta lista aparentemente bem nutrida à transversalidade de análise, não vejo nada mais relevante, embora os demais pontos também sejam delicadíssimos, do que a pasmaceira dos prefeitos na relação com servidores públicos. Esse é o ponto central sobre o qual deveria girar a roda das demais iniciativas.

Manter os quadros dos servidores (sobretudo dos comissionados) longe do front é um atestado de indiferença às demandas sociais.

Muito do nível de afrouxamento das regras de confinamento se deve à ausência do Estado, em suas três esferas, além, claro, do estágio secular de desigualdades sociais. O formato de porteira fechada de medidas governamentais, sobremodo do governador do Estado, foi e continua a ser erro crasso. Aliás, até o ex-ministro Luis Henrique Mandetta, que cansou de falar em confinamento rígido, praticamente não foi ouvido durante sua estada no governo federal quando sugeriu que medidas de confinamento fossem diferenciadas, como sugere desde sempre (descontada as bobagens) o presidente Jair Bolsonaro.

Alerta mais que óbvio

Eu que não sou nada além de nada alertei sobre isso lá no comecinho da jornada de combate ao vírus, quando o Grande ABC não colhia uma morte sequer e o Brasil como um todo praticamente iniciava essa corrida macabra.

Estava em Salto, interior do Estado, onde permaneci por 30 dias sem que uma viva alma fosse contabilizada como vítima fatal do vírus. E mesmo um mês após meu retorno a São Bernardo, Salto segue invicta, mas, burrice das burrices, sob os mesmos desígnios burocrático-deliberativos do governo do Estado. Quando se trata igualmente desiguais (e isso vale para tudo), tenham a certeza de que se comete grande burrada.

Duvidam de que Mandetta tenha flexibilizado a avaliação quanto aos estragos do Coronavírus? Vejam então o que ele disse hoje à Folha de S. Paulo: 

 Folha de S. Paulo: No início, o senhor chegou a criticar alguns dos primeiros estados que adotaram quarentena.

 Mandetta – Fiz críticas porque teve lugares como Campo Grande que não tinha nenhum caso e o prefeito suspendeu ônibus sem nenhum tipo de aviso. As pessoas não conseguiram chegar aos hospitais. Em Brasília só tinha dois ou três casos, mas suspenderam aulas e não havia comitê de emergência. A sensação que deu no início foi que um governador tomou uma atitude e fez-se um efeito cascata sem ter as estruturas necessárias. Houve reação de alguns lugares com razão e outros por adesão em bloco. Quando a gente estava encontrando um ponto de equilíbrio, foi que começou essa discussão do presidente com governadores. E acabou virando uma briga entre duas partes.

Rastreamento necessário

É verdade que a declaração de Mandetta à Folha de S. Paulo enseja escrutínio mais detalhado. O então ministro deu pouquíssima ênfase, pouquíssima mesmo, à calibragem da flexibilização vertical. A lembrança que se fixa entre os brasileiros é de que Mandetta aderiu rapidamente à turma do governador de São Paulo, João Doria, de fechamento quase total das atividades econômicas. Acho até que quem se dedicar a aferir com rigor as declarações de Mandetta à Folha de S. Paulo poderá chegar à conclusão de que os alertas sobre a rigidez do trancamento exagerado da sociedade foram vagos, quase inexpressivos.

O Grande ABC, por força da desindustrialização jamais combatida com ciência e determinação, caminha há muito tempo rumo aos indicadores médios do País. Ou seja: está trocando a sala de estar sempre relativamente confortável pelo quarto de despejo do empobrecimento e, sobremodo, pela quebra da mobilidade social, expressa na escada de avanço do miserável que se torna pobre, do pobre que se torna proletariado, do proletariado que se torna classe média-média, do classe média-baixa que se torna classe média tradicional e da classe média tradicional que se torna rica.

Vamos ver os resultados disso ali na frente. Ali na frente significa os próximos meses, não mais que isso, mas cujos resultados influenciarão por muito tempo.

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