Sociedade

Vírus: se fosse Grande ABC,
Brasil teria 77% mais mortes

  DANIEL LIMA - 19/05/2020

Não dá para tapar o sol da desgraça com a peneira da omissão ou da manipulação. Na contabilidade fatal e cruel do vírus chinês, o Grande ABC ocupa posição inquietante. A estupidez de observar apenas números absolutos de casos fatais que a Imprensa de maneira geral utiliza deveria ser jogada na lata do lixo.

O que conta mesmo para ter um mínimo de referencial sobre os efeitos da pandemia é dividir os casos fatais pelo número de habitantes, ou algumas variáveis com o mesmo conceito de letalidade.

Por esse caminho de claridade, o Grande ABC dá mostra de que há fatores geográficos, econômicos e sociais que ameaçam a população—além de todos os demais, específicos a determinadas segmentações da população.

Traduzindo em miúdos o que quero dizer é que quem mora no Grande ABC tem, em média, 77% de possibilidades a mais de morrer por conta do vírus chinês. Não enveredo por outro caminho de observações sobre a pandemia, dos casos positivos, porque é um indicador furado tanto é o nível astronômico de subnotificações.

Perdendo para muitos

A probabilidade de morrer por causa do vírus no Grande ABC está muito acima, portanto, da média nacional. Se for comparada com algumas capitais, a diferença é abissal. O Estado do Paraná com 11,5 milhões de habitantes, por exemplo, sofreu até agora baixa letal de apenas127 pessoas. Ou 0,0001% do total da população. 

O placar de mortalidade por Coronavírus registrava ontem no País 16.792, equivalente a 0,00793% da população de 211.755 milhões de habitantes – ou 79,3 casos para cada um milhão de habitantes. No Grande ABC de 2.807.483 habitantes, os 391 mortos contabilizados equivalem a 0,01392% da população, ou 139,27 para cada um milhão de habitantes. Fosse o Grande ABC, o Brasil teria adicional de 12.803 casos da pandemia e teria chegado ontem a 29.595 vítimas fatais.

Resultado por habitante

Não é de hoje que utilizo o mesmo mecanismo contábil, por assim dizer, para chegar a determinadas conclusões cientificamente mais responsáveis.

O PIB do Grande ABC quando comparado ao mesmo indicador de municípios que compõem o G-22 (o Grupo dos 20 Maiores Municípios do Estado, exceto a Capital e com a inclusão de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra) pode ter facetas diferentes se o cálculo for feito de forma geral e quando considerado o número de habitantes.

O mesmo método vale para tantas outras situações que a mídia em geral também utiliza. Somente no caso do Coronavírus uma maioria ignora a calibragem per capita. O Brasil, por exemplo, ainda está a léguas de distâncias da gravidade de morte por Coronavírus frente a vários países da Europa quando se considera o fator por habitante, mas a Grande Mídia prefere a mensagem da quantidade que ignora as ponderações de diferenças demográficas.

Liderança dividida

Um quadro do Grande ABC que leve a ferro e fogo o conceito por habitante coloca em situação de empate em mortalidade a pequena e menos desigual São Caetano e a enorme e cada vez mais empobrecida São Bernardo.

Como escrevemos outro dia, os grandes municípios da região oferecem resultados semelhantes. Não há grandes contrastes de mortes por habitante. Vejam os números: 

 Santo André registra 104 mortes para uma população de 721.231 habitantes. Resultado: 0,0144.

 São Bernardo registra 146 mortes para uma população de 844.418 habitantes. Resultado: 0,0173.

 São Caetano registra 28 mortes para uma população de 161.936 habitantes. Resultado: 0,0173.

 Diadema registra 59 mortes para uma população de 426.727 habitantes. Resultado: 0,0138.

 Mauá registra 38 mortes para uma população de 477.581 habitantes. Resultado: 0,0079.

 Ribeirão Pires registra 11 mortes para uma população de 124.147 habitantes. Resultado: 0,0089.

 Rio Grande da Serra registra cinco mortes para uma população de 51.443 habitantes. Resultado: 0,0097.

Dados contrastantes

Há muita dificuldade em produzir análise dos números de cada Município e do Grande ABC como um todo porque, para tanto, seria indispensável o detalhamento dos óbitos por série de especificidades.

O empate entre São Caetano e São Bernardo é emblemático. Capital Econômica da região e incapaz de domar o crescimento demográfico ao longo dos anos, por conta do território amplo de 409,5 quilômetros quadrados de área e o chamamento industrial, São Bernardo conta com densidade demográfica de 2.061,9 habitantes por quilômetro quadrado.

Já São Caetano de escassos 15 quilômetros quadrados de território registra 10.562,7 habitantes por quilômetro quadrado.

Traduzindo: nesse quesito, São Caetano é fragorosamente derrotada quando se trata de incursão letal do vírus chinês. Densidade demográfica é um dos fatores mais complicados, segundo especialistas.

Também pesa contra São Caetano o índice de moradores com mais de 60 anos, faixa etária em que prevalecem os horrores da pandemia. São 40.439 moradores com mais de 60 anos de um total de 161.936. Ou 24,97%. Uma média europeia em São Caetano.

Já em São Bernardo são 117.764 habitantes com mais de 60 anos. Em números absolutos, mais que em São Caetano, mas em números relativos, frente à população total de 844.418, os idosos representam 13,94%. Ou seja: quase a metade do registrado em São Caetano. Grosso modo, a letalidade do Coronavírus entre idosos de São Caetano ameaça um quarto da população, enquanto em São Bernardo não passa de 14%.

Maior envelhecimento

Também a faixa etária mais próxima a 60 anos é maior em São Caetano: são 23.278 entre 50 e 59 anos (14,38% da população geral), enquanto em São Bernardo o total de 104.270 (12,35%).

Com a periferização da pandemia, é possível que São Caetano deixe de dividir a primeira colocação do ranking de mortalidade com São Bernardo e também seja ultrapassada por outros municípios de grande porte da região. Pobres e miseráveis são 16,8% dos moradores de São Caetano, enquanto que em São Bernardo são 20,2%, em Diadema 21,6%, em Mauá 20,0% e em Santo André 19,0%.

Além disso, também é preciso levar em conta que a qualidade de vida média em São Caetano é substancialmente melhor que na vizinhança do Grande ABC. Há menos desigualdade social e camadas formadas por ricos e classe média tradicional são mais robustas. 

Ambiente metropolitano

Enquanto em São Bernardo esses grupos econômicos representam 30,9% das moradias, em São Caetano o índice chega a 40,5%. Uma distância de 23,70%. Em Santo André são 32,2%, em Diadema 23,3% e em Mauá 24,6%.

É claro que há disponibilidade de um coquetel de indicadores que podem ser utilizados para dar maior robustez a avaliações do potencial destrutivo do Coronavírus em cada Município da região e do País. Mas as bases econômicas e de densidade demográficas são essenciais a qualquer incursão.

Tanto quanto (e esse é um ponto crucial) o ambiente metropolitano que envolve a regionalidade do Grande ABC. A Região Metropolitana de São Paulo é um barril de pólvora em situações de crise sanitária como a que se impõe no caso da pandemia.  Por isso há diferenças profundas entre indicadores de mortalidade na área quando comparada à média do Interior do Estado. Daí as medidas restritivas de isolamento social serem um equívoco. Mas essa é outra história.

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