Sociedade

Vírus vai acentuar ainda mais
a queda do Império Regional

  DANIEL LIMA - 20/05/2020

É cedo para muitas projeções que tenham o vírus chinês como referência, mas no caso do Grande ABC não esbarro em dúvida alguma, por mais cauteloso que seja. O que teremos ao longo dos próximos e muitos anos é a aceleração da queda do Império Regional neste século.

Um Império Regional que nadou de braçadas até por volta de meados dos anos 1970 em Desenvolvimento Econômico bruto, ou seja, sem se levar em conta vetores sociais e institucionais, abandonados a improvisações. O Coronavírus não dará tréguas às aberrações locais. Precisamos nos reinventar, mas não temos coesão social para tanto.

Parto do pressuposto do passado que vivi e dimensionei como jornalista e do presente e do futuro que continuarei a dimensionar até por volta de metade dos anos 2040, conforme me garantiu uma vidente. E mesmo que lá não chegue fisicamente por conta de qualquer peripécia do destino, o que está escrito e o que escreverei deverão servir de baliza a eventuais estudiosos éticos, sem doutrinação que negue evidências já consolidadas.

O que pergunto aos leitores (os mais assíduos talvez nem precisem da lista que se segue), é se é possível apostar no Grande ABC do futuro pós-pandemia tendo em campo a distribuição da seguinte ordem não necessariamente de importância. 

 Bolsa de Valores de Investimentos Privados.

 Bolsa de Valores de Investimentos Públicos.

 Bolsa de Valores de Mobilidade Urbana.

 Bolsa de Valores de Mobilidade Social.

 Bolsa de Valores de Institucionalidades.

 Bolsa de Valores de Competitividade Macrorregional.

 Bolsa de Valores de Qualidade de Vida. 

Regeneração improvável

Sob qualquer aspecto dos acima listados, se houver uma consultoria especializada em apurar o potencial de municípios e regiões do País (na verdade já existem, mas ainda não apuraram o facho como deveriam), o Grande ABC é um endereço fora de qualquer perspectiva de regeneração.

O Império Regional do Século XX começou a desmoronar no próprio Século XX e será ainda mais atomizado no Século XXI. Como, aliás, já detectamos em série de análises com base em dados disponíveis e metabolizados em diferentes temáticas, sobretudo econômicas.

Exceto se um milagre ocorrer, não teremos alternativa senão acompanhar a aceleração da derrocada regional no início desta terceira década do novo século. Vamos acrescentar mais terra à sepultura de eventual recuperação.

O vírus chinês provocará tantas transformações no mundo dos negócios que, em uma década, o retrato pré-pandemia se tornará amarelecido. Viveremos nos próximos tempos intensidade de mudanças que afetarão duramente a economia do Grande ABC, movida a setor automotivo, um dos mais agudamente impactados pela crise sanitária.  Nossa Doença Holandesa vai ser repercussões catastróficas. 

Números catastróficos

Não vou destrinchar cada um dos quesitos que listei acima porque não é disso que pretendo tratar neste novo texto. Até porque, tudo o que está logo acima já foi mais que esmiuçado ao longo de 30ANOS de LivreMercado e de CapitalSocial. Poderia, claro, dar nova roupagem e acrescentar novas informações. Mas deixo isso para depois.

Entretanto, não custa lembrar que a ramificação base do desempenho do Grande ABC neste século, como o foi no século passado, passa obrigatoriamente pelo comportamento da Economia. Não bastassem os problemas macroeconômicos que atingem diretamente todas as localidades, temos enfermidades específicas que nos colocam sempre na rabeira de qualquer ranking sério.

Como o que mantenho nesta revista digital, em forma do G-22, o Clube dos 20 Maiores Municípios do Estado de São Paulo, acrescido de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra (apenas para completar o quadro regional) e sem a participação da Capital, de números tão exuberantes quanto inquietantes.

Perdendo de goleada

Aos eventualmente céticos que duvidam destas linhas porque não têm conhecimento agregado, lembro apenas um dos milhares de textos que constam de nosso acervo sobre a economia regional.

Em março do ano passado acentuei, entre outros pontos, que o PIB Geral do Grande ABC (que considera todas as atividades) perdia de goleada para a mediocridade registrada no mesmo período (de 2000 a 2017) por um país chamado Brasil – aquele que não cansa de ter um grande futuro no passado.

E, também lembrei que nossas derrotas se pronunciavam ante concorrentes municipais da Região Metropolitana de São Paulo.

Confrontei o PIB Geral de 1999 com o PIB Geral de 2016 (o PIB Geral de 2017 só saiu em dezembro do ano passado e não mudou em nada o enredo) e, após deflacionar os dados, atualizando-os monetariamente, cheguei a números confirmatórios de tudo que estas páginas têm alertado.

Números congelados

Resumo da ópera regional: o PIB Geral do Grande ABC apresentou crescimento de 4,03% no período, o que é estagnação pura. Ou o leitor acha que 0,24% de avanço anual é outra coisa? Mas isso não é tudo. Quando se parte para o PIB per capita, que é o que mais importa como medidor de riqueza, o estrago é geral. Deixemos isso também para outro dia.

Continuemos, portanto, com o PIB sem especificidade por habitante. No mesmo período em que o Grande ABC avançou 0,24% em média ao ano, o PIB Geral do Brasil avançou 2,58%. Nove vezes mais que o do Grande ABC, portanto. Já a vizinhança mais famosa do Grande ABC, beneficiadíssima pelos trechos Sul e Oeste do Rodoanel, avançou muito mais que a média nacional. Osasco, Guarulhos e Barueri cresceram em termos reais, descontando-se a inflação do período, 4,39% em média ao ano. Calcule quantas vezes o resultado é superior ao do Grande ABC e morra de vergonha.

Afinal, por que chamo para o jogo explicativo o comportamento do PIB Geral do Grande ABC ante outras geografias? Porque há uma base de deterioração da economia regional que, no pós-pandemia, se agravará. Vamos começar uma nova etapa de disputa por avanço econômico já inviável antes da pandemia, em situação ainda mais desvantajosa.

Raízes profundas

E tudo isso que se observa no campo numérico-econômico tem raízes profundas na multidimensão do que significa regionalismo. É estupidez acreditar que sendo o que somos e que se complica a cada nova temporada, encontraremos solução mágica que nos retirará do desfiladeiro econômico.

Não tenho dúvida em reafirmar mil vezes que a ausência dos fatores destacados acima é o conduto que continuará a levar o Grande ABC ao buraco negro de um esfacelamento econômico e social dramático. Em um século teremos, pelo andar da carruagem, um estrondoso case de incompetências e vagabundices cumulativas.

E esse século ao qual me refiro começou no final dos anos 1970, com o advento do movimento sindical em São Bernardo, fita de larga de transformações, e se estenderá até os anos 2070. O que virá após esse período só a Deus pertence. 

Um século completo

Por enquanto, arrisco apenas um século, sem qualquer pretensão de substituir o poderoso, pobre mortal que sou. Tudo é questão de lógica operacional da sociedade regional como um todo, por assim dizer.

Só vou lamentar que, a confirmar a previsão de que vou chegar até meados dos anos 2040, teria perdido 30 anos desse século específico, após desembarcar na região no fim dos anos 1960, já com quatro anos de jornalismo no lombo.

Independentemente de tudo isso, sou um sofrido e privilegiado narrador da ascensão e da queda do Império Regional. Pena daqueles que ao longo dos tempos sempre procuraram mudar o rumo da história com patetices estatísticas a soldo dos mandachuvas e mandachuvinhas da vez.

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