Economia

USCS não cuida de São Caetano
mas quer salvar o Grande ABC

  DANIEL LIMA - 21/05/2020

Desisti do título que pretendia expressar o que se segue. Direcionava tudo a uma metáfora que poderia ser mal-compreendida. Dizia que a USCS era um xerife tolerante demais à violência num lugarejo e, de repente, se viu preparado a cuidar da desordem num condado. Acho que não ficaria bem essa imagem de faroeste porque São Caetano não é um vilarejo. Muito pelo contrário. O Brasil seria muito, mas muito melhor se fosse São Caetano. Mas São Caetano já foi muito melhor do que é São Caetano. E a USCS não se deu conta disso. Se deu conta, não reagiu. Se não reagiu, prevaricou institucionalmente.

De qualquer modo, apagada ou não, a metáfora que dispensei no título expressa a manchetíssima de hoje do Diário do Grande ABC: a USCS (Universidade Municipal de São Caetano), pretende centralizar o Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, em parceria com o inútil Clube dos Prefeitos. Entenderam a razão do título do qual desisti, mas que resiste no espírito da mensagem logo acima? Parceiros já há algum tempo, essa dupla daria o que falar. Vai ser difícil quem é o puxadinho e quem é matriz.

Trata-se de algo fora de sentido. A USCS não dá conta do próprio quintal em que está inserida e, agora, em ano de eleições municipais, com o reitor candidato ao cargo de José Auricchio (ou de vice da chapa se não houver impedimentos legais), tem-se uma fórmula mágica. Assim não dá, convenhamos.

Competitividade é o foco

Pode sim a USCS (aliás é obrigação, juntamente com as demais instituições de Ensino Superior do Grande ABC), participar ativamente de ação regional voltada à recuperação de parte do que perdemos neste século e, sobretudo, evitar derrocada ainda maior pós-pandemia do Coronavírus.

Fora essa perspectiva, o que teremos, por melhores que eventualmente sejam os resultados dos acadêmicos ali instalados (e são muitos com potencial para tanto) será um enviesamento varejista que em nada alterará a queda continuada do Império Regional há muito em frangalhos.

Para dar autenticidade ao que escrevo, vou reproduzir alguns trechos da reportagem de hoje do Diário do Grande ABC, sob o título “USCS visa ser agente do progresso regional”. Leiam: 

 A Universidade Municipal de São Caetano pretende deixar de ser vista apenas como instituição de ensino superior para passar a agente de desenvolvimento econômico e social do Grande ABC. A interlocução como as câmaras, entidades e instituições intermunicipais para elaborar e implantar políticas públicas é base do plano estratégico de atuação da USCS na próxima década. Na prática, a universidade vai fortalecer seus centros de investigação e pesquisa para que eles trabalhem na identificação de gargalos que atravancam o desenvolvimento dos sete municípios. Na sequência, com o diagnóstico em mãos, o que passa por disponibilizar a própria estrutura da USCS para executá-los. “Essa é a nossa intenção, sintetiza o reitor da universidade, Marcos Sidnei Bassi, lembrando que a produção científica e tecnológica centrada no desenvolvimento regional é uma das sete linhas estratégicas do plano de desenvolvimento que a USCS apresentou no sábado.

Mais USCS no Diário

 (...) A Agenda Estratégica de Desenvolvimento Regional inclui a elaboração de projetos de ensino, pesquisa, extensão e serviços. Para melhor dialogar com os sete municípios, a USCS pretende ampliar a realização de convênios com organismos multilaterais, como o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC. A aproximação com setores econômicos e sociais, a título de exemplo, pode resultar na criação pela USCS de cursos específicos para atender a demanda por mão de obra de uma empresa que queira se instalar na região. Saúde, Educação, infraestrutura, urbanismo e mobilidade são outras áreas que podem ser melhoradas com apoio da universidade.

Agora, aos fatos

Como tenho dito e reiterado ao longo dos anos, sobretudo com base no estúpido municipalismo que não nos abandona e sobre o qual não há quem consiga afastar de nosso dia a dia, os primeiros resultados estruturantes que o Grande ABC poderá alcançar passam pela contratação de uma consultoria especializada em competitividade.

Os agentes locais colaborariam muito nesse sentido se inicialmente fossem coadjuvantes. Sem um norte, o varejismo implícito no projeto da USCS não passará de tapa-buraco. Caso, mais que isso, não seja mais um truque político-eleitoral de instituições sempre permeáveis aos donos do poder.

Poderia puxar pela memória pelo menos uma dúzia de textos que produzi nos últimos tempos sobre a inoperância municipal da USCS quando a pauta é desenvolvimento econômico.

Ora, bolas: se no próprio quintal que mais lhe interessaria a USCS não dá conta do recado, como imaginar que possa fazê-lo no conjunto regional?

Como, entre tantos obstáculos e limitações, alcançaria as entranhas de dados regionais ante as limitações concorrenciais? Ainda mais com a parceria com o Clube dos Prefeitos, essa coisa amorfa que não dá conta das próprias vestes institucionais?

Para encurtar a história (o que não significa que deixarei esse tema adormecido) reproduzo alguns trechos de duas das matérias as quais me referi logo acima. São textos recentes, mas mostram o estágio de competência da USCS em lidar com a quebra econômica e social do Império Regional:

Deixem a USCS transformar

Grande ABC em Nova China

 DANIEL LIMA - 17/09/2019

Ninguém segura os acadêmicos da USCS (Universidade de São Caetano). Eles estão ensandecidos de paixão pelo crescimento da região. Querem transformar na canetada, na planilha, no papel, o mambembe Grande ABC em fervilhante Nova China. Vendem ilusões com engenhosidade do lustro professoral. Os incautos caem feito patinhos. Quando se juntam a sanha da notoriedade por manchetes de jornais e a tentação de fazer manchetes mirabolantes, tudo pode acontecer.  Nosso PIB (Produto Interno Bruno) vai empinar números fantásticos nos próximos tempos, segundo o receituário rocambolesco da Universidade de São Caetano. Nesse ritmo, mais um quesito aqui, outro ali, eis que os chineses vão desembarcar com pesquisadores ultraqualificados em nosso território para estudar o fenômeno da multiplicação do PIB que eles imaginam ter inventado. Portanto, basta que se ouçam os estudiosos da USCS e tudo estará resolvido nestas terras que em se montando carros tudo dá. Eles têm a fórmula mágica do crescimento regional. Anunciem um projeto de obra, alguma coisa nova, e está resolvido. Eles fazem cálculos extraordinários. Querem ver dois recentes exemplos do quanto esses acadêmicos simplificam o complexo?

Mais realidade da USCS

Com o metrô, que era monotrilho e que virou BRT, cresceríamos 1,70% ao ano. Com o Aeroportozão que virou Aeroporto e agora é Aeroportozinho, cresceremos outros 1,60% ao ano. Números não dizem muita coisa em determinadas situações caso não sejam devidamente contextualizados, esmiuçados e pressionados à prova de fraudes. Os sete a um dos alemães diante dos brasileiros de Felipão dispensam legenda. Entretanto, crescimento médio anual de 1,70% do PIB do Grande ABC com a chegada mais que frustrada do metrô que era monotrilho de fato e outros 1,60% também anual com um aeroporto que não cabe na geografia ambientalmente protegidíssima, nos referenciais de rentabilidade do capital e na exequibilidade técnica, isso é demais.

Mais realidade da USCS

(...) Quem inventou que o Grande ABC crescerá 1,60% em média ao ano (não se estabeleceu por quanto tempo com a construção de um aeroporto foi o gestor do curso de Ciências Aeronáuticas da USCS, Volney Gouveia, do Conjuscs (Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura). Segundo a reportagem publicada no Diário de Grande ABC, a construção do aeroporto injetaria na economia do Grande ABC R$ 1,8 bilhão por ano, ou 1,60% do PIB. O montante prevista se baseia nos reflexos em cadeia tanto da construção do equipamento como de sua operação e manutenção, e envolve setores petroquímico, químico, plástico, entre outros. É, por assim dizer, uma dádiva. O estudioso da Universidade de São Caetano fornece detalhes que dão robustez à fantasia. Afinal, sem números e detalhamentos técnicos não se alcança mesmo o grau de confiança de uma informação tão relevante. É preciso enxertar dados regionais, multiplicar citações e, pronto, está resolvido. O crescimento médio anual de 1,60% com a chegada de um aeroporto está determinado empiricamente. Como, vejam só, se existisse amplas condições ambientais, climáticas, econômicas e também políticas para tanto.

Mais realidade da USCS

Tudo não passa de chutometria. Querem um exemplo prático? É claro que o aeroportozinho que seria construído no Grande ABC (em plena área ambiental, vejam só quanto estupidez) nem de longe se assemelharia ao Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, por razões óbvias. Confrontá-los em termos de perspectivas seria um acinte, não é verdade? Pois bem: sabem os leitores qual foi o crescimento médio anual do PIB de Guarulhos neste século? Resposta: 1,48%. Traduzindo: mesmo com muito maior potencial de crescimento econômico que o Grande ABC, porque não depende exclusivamente de uma atividade econômica, e contando com um aeroporto internacional, Guarulhos não avançou no crescimento do PIB médio anual como o que pretende o estudioso da Universidade de São Caetano para o Grande ABC.

São Caetano desmorona; é hora

da USCS colocar a mão na massa

 DANIEL LIMA - 08/10/2019

Pesquisadores e estudiosos em geral da USCS (Universidade Municipal de São Caetano) têm obrigação de procurar saber o que ocorre neste século com a economia do Município que se orgulha de ostentar um dos primeiros lugares em qualidade de vida na Grande São Paulo. Não dá mais para esperar. A situação é crítica e exige comprometimento com o futuro, não com manchetes de jornais. Vou dar uma dica de como a situação é grave: São Caetano explora cada vez mais a ação estatal, em forma de Prefeitura, para compensar parte, apenas parte, do desgarramento da iniciativa privada que a aflige e a coloca na zona de risco de baixa competitividade econômica.  Falta nessa altura do campeonato uma ação incisiva, comandada pelo prefeito José Auricchio, chamando às falas os estudiosos da USCS. Que eles parem de inventar história de pretenderem propor a esquesitice do anedótico aeroporto em São Bernardo e cuidem vigorosamente do próprio quintal em liquidação na bolsa de apostas dos melhores endereços para se investir.

Mais realidade da USCS

Como mostrei em janeiro deste ano, São Caetano ocupa a antepenúltima colocação no ranking dos 39 municípios da Grande São Paulo. A métrica é o PIB Geral dos Municípios. Os números são oficiais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). (...). Essa é uma das especialidades históricas de CapitalSocial. E os estudos vão muito além das fronteiras locais. Quem ficar circunscrito à geografia do bicho de sete cabeças do Grande ABC estará fadado ao engano e à perda de percepção da realidade. São Caetano está, portanto, entre os quatro últimos colocados na Grande São Paulo no comportamento do PIB Geral neste século, tendo como base de comparação o ano de 2002 e como fita de chegada 2016 – os dados de 2017 serão conhecidos somente em dezembro. Ou seja: São Caetano está na zona de rebaixamento e tudo indica que, quando sair a nova fornada de números oficiais do PIB dos Municípios, seguirá entre os piores. PIB é um transatlântico de movimentos discretos, mas consistentes. Não se dá um cavalo de pau no PIB. Não se altera a rota de colisão num iceberg do dia para a noite do calendário gregoriano.

Mais realidade da USCS

Também como sugestão aos estudiosos da Universidade Municipal de São Caetano, cujos resultados gerais no RUF (Ranking Universitário Folha) são desastrosos, indico uma porta imensa à perscrutação desse resultado: na medida em que o empreendedorismo privado cai pelas tabelas, com elevadíssimos índices de demissões líquidas e queda continuada de produção de riqueza, as burras da Prefeitura seguem a recolher valores em forma de impostos e gastos com remuneração ao funcionalismo público. Ou seja: São Caetano vive uma dupla sangria que abala as condições de competitividade econômica. De um lado temos o Poder Público Municipal voraz na arrecadação de impostos e de outro o afugentamento constante de negócios privados. São Caetano torna-se cada vez mais cidade-dormitório com altos custos aos moradores.

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