Política

Morando é o único prefeito
em vantagem na pandemia

  DANIEL LIMA - 26/05/2020

Por enquanto (prestem atenção à condicionalidade), Orlando Morando parece se tornar o único prefeito a construir franca vantagem eleitoral para a disputa que se deve dar em dezembro. A projeção eleitoral é do Tribunal Superior Eleitoral. Reforço o “por enquanto” porque em tempos de pandemia do vírus chinês tudo possível, inclusive o supostamente impossível. 

A situação está tão complicada que Orlando Morando descola-se dos demais prefeitos da região ao fazer coincidir a inauguração de um gigantesco centro hospitalar com o momento em que a mídia em geral e a sociedade como um todo tanto exige atenção à saúde.

Some-se a isso uma endireitada ainda maior do eleitorado já cativo, ao propagar aos quatro cantos que se salvou do Coronavírus ao tomar cloroquina, o mais recente divisor ideológico do País. Os bolsonaristas adoraram a franqueza de Morando, um aliado do governador Doria que, como se sabe, se pudesse escolher um sinônimo ao remédio politizado, provavelmente optaria por sepultura. Nada diferente da Grande Mídia e também de inúmeros centros especializados em doenças respiratórias. 

Genocídio econômico

Mas nem tudo são flores para o prefeito de São Bernardo. Pelo andar da carruagem ele terá de esconder o governador do Estado, João Doria. Doria virou sinônimo de genocídio econômico. Os opositores não lhe dão trégua. As redes sociais apontam, com exageros, mas muitas verdades, descaminhos do governador no combate ao Coronavírus. Descaminhos econômicos e também epidemiológicos.

Conhecendo-se a humanidade como se deve conhecer, a solidariedade não resistiria nos próximos tempos à calamidade econômica que já se intensifica. A humanidade não é nada solidária em lugar nenhum do planeta, exceto em situações muito específicas e geralmente por tempo limitado. Há mobilizações aqui e acolá enquanto a televisão desfila toda noite doentes e cadáveres em mais diferentes situações. Quando a onda de caos sanitário passar, novas pautas vão prevalecer. A rotatividade diária de infortúnios pessoais e sociais não dá trégua. A espetacularização ibopeana prevalecerá. 

Humanidade e memória

João Doria está associado indelevelmente à mortalidade biológica e à mortalidade empresarial com danos à sociedade em geral. O peso da segunda será maior que o da primeira. Sobre a primeira, todos os diretamente não envolvidos esquecem e a segunda será numericamente muito maior. O estômago não perdoa.

Estava pronto para dizer que Doria seria identificado com o bônus da mortalidade, mas recuei e repensei. Talvez explorem tanto a liberação geral do Carnaval, quando o vírus já estava na Região Metropolitana de São Paulo e o governo do Estado tinha conhecimento. Tanto que, em plena quarta-feira de cinzas, formou o comitê de combate à pandemia.

Ou seja: Doria foi um propagandista dos festejos de Momo, caiu na farra e somente depois de a festa acabar, resolveu trancar a porta do inferno. Por isso que contar com a companhia do governador do Estado seria contraproducente a Orlando Morando. Já bastaria a companhia partidária.

Orlando Morando conta com moeda de produtividade eleitoral porque praticamente não terá adversário. O PT de Luiz Marinho recuou nos últimos meses na exata proporção em que o vírus tomou conta do noticiário e não se viu nada nas linhas auxiliares do petista (os sindicalistas, por exemplo) como reforços à melhoria da imagem de um partido abatido pela operação Lava Jato.

Tatto não ajuda

Para piorar a sorte do petismo em São Bernardo, O PT paulistano entregou a um dos muitos membros da família Tatto a incumbência de disputar a Prefeitura. Talvez o Jilmar Tatto escolhido seja uma versão eleitoral da dupla destruição do Coronavírus. Não há fanatismo que resista a tamanho desprezo eleitoral.  Quem diria que o PT, nascido em São Bernardo bateria asas em direção à Capela do Socorro. Qualquer expectativa de quem um candidato petista mais encorpado ocupasse o horário eleitoral também linha auxiliar da candidatura de Luiz Marinho em São Bernardo foi para o espaço.

Há em São Bernardo espécie de terceira via em forma do vereador Rafael Demarchi, de família tradicional. Ele pretende capturar o eleitorado de Jair Bolsonaro. Já se manifestou em defesa da livre-iniciativa fortemente abalada com o Coronavírus. Colocou economia e saúde no mesmo patamar e deverá se aproveitar do desgaste de Orlando Morando e de todos os tucanos junto aos pequenos negócios.

Os limites de Demarchi são expressivos. A começar pela ausência de memória eleitoral. Ele sairá à disputa com baixíssima adesão. Tanto quanto reduzidíssima reprovação. O prélio que se avizinha não parece apropriado à velocidade à sensibilização do eleitorado. Prevaleceria o pragmatismo. 

Alinhamento automático

Os demais prefeitos da região, sobremodo os dos maiores municípios, também se alinharam ao governador do Estado na política preservacionista da vida muito acima da economia. Menos Lauro Michels, em Diadema, que tentou furar o cerco ao congelamento de atividades, mas foi barrado do baile de liberdade pelo Ministério Público. Michels não poderá concorrer à reeleição porque esgotará o prazo de validade ao completar o segundo tempo dos mandatos outorgados pela população.

Paulinho Serra (Santo André), José Auricchio Júnior (São Caetano) e Atila Jacomussi (Mauá) deverão sentir as dores do desgaste da economia em frangalhos sem ter uma bandeira reluzente em contraponto.  Todos se submeteram docilmente aos desejos do governador do Estado sem que em nenhum caso ofereceram como contraponto números de letalidade que sugerisse diferencial de enfrentamento ao vírus. A contabilidade de mortos provavelmente constará mesmo que discretamente da campanha dos opositores.

Esse é apenas um voo panorâmico do que estaria previsto à disputa municipal que está chegando. Nada pretensioso e muito menos definitivo. É mesmo uma pincelada de quem se sente na obrigação de dar uma caminhada por um terreno acidentado.

Todo os manuais de preparação e operação rumo a uma disputa majoritária como a que teremos em breve estão suspensos. Lembram-se os leitores que preparei série de quesitos com vistas às disputas? E que inclusive comecei a destrinchá-los, até a chegada do vírus chinês? Ajuizado, cancelei tudo. Inclusive os quesitos já diagnosticados. Ainda não ultrapassei a linha demarcatória de sanidade eleitoral.

Pinceladas podem ser dadas, mas aprofundamentos seriam suicídio. Orlando Morando é um caso à parte e mesmo assim com ressalvas e assertivas precárias.

Não há ambiente para construir projeção eleitoral. Os próprios candidatos estão na moita. Temem passar a imagem de insensíveis. Cuidadosamente, o opositor Ailton Lima andou produzindo algumas peças exibidas em redes sociais. Aparece como espécie de conselheiro de Paulinho Serra, de quem foi secretário e com quem, antes disso, se juntou para garantir a vitória contra o PT nas eleições de 2016.

Ailton Lima parece mais aparelhado a levar a disputa ao segundo turno do que Bruno Daniel do PSOL sempre em luta para sair do sarcófago ideológico. E está muitos passos à frente de Rafael Demarchi como desafiante do titular do Paço Municipal justamente porque desperta memória eleitoral robusta.

A ausência de atmosfera eleitoral nestes tempos de pandemia é consequência natural do prevalecimento da cobertura da Grande Mídia e também da densidade das redes sociais na crise sanitária e seus efeitos. É muito pouco provável que alguém coloque o guizo da saúde regional debilitada desde sempre como um dos pontos de fragilidade dos indicadores de letalidade do Coronavírus. O interesse da sociedade regional está plugado no quadro estadual e, principalmente, nacional. Ainda não se tem recorte municipaliza ou regionalista enfaticamente esclarecedor e confrontador.

As fraquezas do Grande ABC no combate à pandemia ainda são pouco dimensionadas. Estamos possivelmente no primeiro tempo de um jogo em que os espectadores preferem lances mais distantes. Não podemos esquecer do Complexo de Gata Borralheira como explicação a muitas de nossas vicissitudes sociológicas.

Se houver tempo a comparações com outros municípios, possivelmente algum nível de criticidade se imantaria em parte do eleitorado. Estamos entre os piores indicadores nacionais quando se leva em conta o total de mortos por determinada faixa de habitantes. Batemos fácil vários Estados da Federação juntos.  

Mas não podemos ser injustos, embora isso não seja uma blindagem: o ambiente metropolitano de alta densidade demográfica é o cadafalso dos prefeitos. O que pode caracterizar vários deles como pouco efetivos é a demora em reagirem. Ficaram tempo demais nas barras da calça de um governador mais preocupado em medir forças e interesses políticos com o presidente da República. Um governador que seguiu o receituário de burocratas da saúde, destilando a mesmice aos prefeitos locais.

Se fosse produzir uma lista de pendências a influenciar as eleições deste ano no Grande ABC haveria pelo menos uma dezena de apontamentos. O principal é que nossa regionalidade em frangalhos paga um preço elevadíssimo em forma de perda de organicidade e racionalidade. Além, claro, da insensibilidade ou falta de liderança dos prefeitos em botar os funcionários públicos para atuarem como monitores em todos os cantos dos municípios. Eles perderam uma grande oportunidade de se fazerem presentes e de catapultarem os moradores rumo à memória eleitoral, consequência natural de ações profiláticas.

O Poder Público Municipal raramente é visto nas ruas como materialização de solidariedade e atenção. Talvez o preço dessa desídia seja elevado nos próximos meses.

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