Sociedade

Alô, prefeitos arrogantes:
sigam o exemplo da Itália

  DANIEL LIMA - 27/05/2020

Mais que arrogantes, os prefeitos do Grande ABC são capachos no enfrentamento ao vírus chinês. Arrogantes porque desprezam proposta deste jornalista que, vejam só, está sendo adotada pelo governo italiano. Capachos porque entregam os fundilhos ao governador João Doria.

Tratar os prefeitos da região fora da bitola do deboche seria idiotice. Há excessos que são mais que justificáveis. A bordo do inútil Clube dos Prefeitos, os titulares dos paços municipais observam a região superar a marca de 500 mortes pela pandemia e nada farão de substantivo até que mil mortes chegarão. E ultrapassarão.

Vamos aos fatos. Em primeiro de maio enviei a carta-proposta ao Clube dos Prefeitos sugerindo que se convocassem sobretudo os servidores comissionados (“servidores comissionados” é um exagero, porque os verbetes são antípodas na cultura da Administração Pública em geral) preparando-os para atuar em todos os bairros na luta contra a expansão dos casos do Coronavírus.

Está na primeira página desta revista digital os termos da proposta. A cada dia de espera pela resposta, acrescentamos a progressividade do tempo. Como se pode ver.

Aprendam com a Itália 

Passado praticamente um mês, nenhuma resposta foi encaminhada a este jornalista. É claro que esperava essa atitude. O Clube dos Prefeitos, como se sabe e não se deve negar, além de não ser nada do que poderia ser em tempos normais é ainda pior em tempos de guerra contra o vírus.

Não bastassem serem os prefeitos refratários à regionalidade de ações, contam com equipes e também com assessores no Clube dos Prefeitos sem a necessária competência para sair do quadradismo de servilismo. Eventuais exceções confirmam a regra.

E o que vem de Roma em forma de notícia que deu uma volta ao mundo ontem, inclusive nas páginas do Estadão, é exatamente o seguinte, que reproduzo aos leitores: 

 A Itália começará nesta semana o recrutamento de 60 mil voluntários para monitorar o cumprimento de suas medidas de segurança. Nos últimos dias, multidões se reuniram em áreas de lazer em várias cidades após a reabertura de piscinas, ginásios e academias. A permissão de usar os equipamentos esportivos é parte do plano de relaxamento da quarentena, iniciado há três semanas. Ontem, por exemplo, muita gente foi à Catedral do Duomo, acompanhar um festival de acrobacias de aviões da Força Aérea – a exibição marcou o aniversário de 74 anos da República. A partir de agora, os voluntários serão responsáveis por informar as pessoas que não respeitem a distância física, segundo o Ministério de Assuntos Regionais. Caso haja resistência violenta ao tentar dispersar uma aglomeração, eles devem ligar para a polícia. Os voluntários usarão distintivo da Proteção Civil, trabalharão 16 horas por semana, passarão a atuar no mês de junho e durante todo o verão. A decisão foi tomada após a indignação desencadeada no fim de semana por cenas de multidão de jovens festejando, sem respeitar as medidas de segurança. --- escreveu o Estadão de ontem.

Tempo e especificidade 

O que difere a carta-proposta deste jornalista e a ação do governo italiano é o tempo combinado com as especificidades do Grande ABC.

No caso do tempo, refere-se ao fato de que somente agora um governo nacional move-se no sentido de utilizar aparato de voluntários para atuar num determinado estágio, de recuperação, da pandemia.

No caso deste jornalista, a sugestão encaminhada referia-se a um momento crucial de medidas, quando o Grande ABC acumulava muito menos da metade de casos letais registrados hoje pelo Diário do Grande ABC – exatamente 512 vítimas.

Não pensem os leitores que me regozijo com o fato de que queiram ou não estou por cima da carne seca dos prefeitos acomodados com a situação dramática do Grande ABC nestes dias.

Vidas que se perdem

Diferentemente disso, aliás. Muitas vidas já poderiam ter sido salvas e muitos leitos hospitalares poderiam ter sido poupados se os prefeitos não fossem o que são quando se trata de olhar um pouco adiante.

Além de cegos e surdos eles também carregam uma dose cavalar de teimosia e desprezo a colaboradores voluntários que, no caso de um ocupante da mídia regional, não pretendia ou pretende outra coisa senão ver na prática a extensão de um projeto mais que viável, porque emergente.

Agora que a vaca da economia está indo para o brejo e o carneiro da saúde toma rumo ao matadouro, porque os casos fatais se agigantam, os prefeitos da região começam a dar sinais de que podem pressionar o governador do Estado a rever os conceitos ortodoxos de trancamento horizontal a que submeteu todos os paulistas.

Paulinho isolacionista

O prefeito Paulinho Serra, num gesto isolado, interpretado também como eleitoreiro, de quem estaria em busca de um salvo-conduto ao servilismo junto ao governo do Estado, decidiu mesmo que tardiamente seguir os passos da Frente Nacional dos Municípios.

A entidade, presidida pelo prefeito de Campinas, Jonas Donizette, promove uma campanha de flexibilização das medidas de governadores pouco habilidosos em equilibrar os danos entre saúde e economia ao tomarem iniciativas lineares, tratando espaços urbanos diferentes com o mesmo calibre de restrições.

Sabe-se que houve estremecimento no seio do Clube dos Prefeitos após a arrancada isolacionista de Paulinho Serra. Como uma motoniveladora de marketing personalista, o prefeito de Santo André atropelou os demais integrantes daquela instituição. O pacto natural de resoluções colegiadas foi para o escambau.

O prefeito de Rio Grande da Serra, Gabriel Maranhão, prefeito dos prefeitos do Clube dos Prefeitos, e que se achava no pedestal da hierarquia regional, sentiu-se como quem caiu do andaime.

O mal-estar no Clube dos Prefeitos impera, embora um ou outro prefeito minimize os estragos ao avocar a situação de estresse emocional nestes temos de pandemia.

Caminho pragmático

Voltando à ação do governo italiano, a semelhança em relação ao que apresentei ao Clube dos Prefeitos poderia ter ganhado configuração de igualdade se eu acreditasse no poder de mobilização da sociedade, em forma de voluntariedade, no enfrentamento ao vírus chinês.

Preferi pegar o caminho do pragmatismo ao encaminhar aquela proposta tendo como vértice de atuação os comissionados públicos. Essa gente, em larga escala um exército de improdutivos, é mão-de-obra de fácil aproveitamento.

Por estarem disponíveis a qualquer momento a diferentes tarefas (principalmente como cabos eleitorais permanentes, requisitados que são quando há interesses nada republicanos dos chefes de Executivos) os comissionados poderiam ser treinados para atuar sem qualquer risco pessoal diretamente nas comunidades.

O exemplo do governo italiano aniquila a máscara de arrogância e desprezo de chefes de Executivos da região (e também de assessores) no tratamento da carta-proposta deste jornalista.

Enquanto isso, vamos continuar a contar nossos mortos que poderiam morrer (com perdão do pleonasmo) num ritmo de morte bem menos veloz e quantitativo caso fossem adotadas medidas preventivas.

Sem a representação do Poder Público nas ruas, o relaxamento social em confronto com a volúpia do vírus chinês não teria e também não terá outro desfecho senão o duplo genocídio que impacta e impactará por longo tempo a região: a debilidade na saúde e os estragos na economia.

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