Sociedade

Diadema e São Caetano jogam
para fugir do Troféu Covidão

  DANIEL LIMA - 11/06/2020

No placar regional do Troféu Covidão, Diadema e São Caetano estão em luta feroz para fugir da coroação. Parece inescapável que um dos dois municípios, mais que contrastantes do Grande ABC, vai mesmo segurar o caixão das estatísticas de letalidade do vírus chinês, o Covid-19. Os demais estão disputando internamente a Série A-2 e a Série A-3.

Esse campeonato é de lascar. Será imbatível em forma de catástrofe humana. Está para a mortalidade imediata assim como a desindustrialização da região nas últimas quatro décadas.

Sei que Troféu Covidão é expressão de tremendo mau gosto, que poderia até ser observada como desrespeitosa aos mortos e aos vivos, mas há coisas bem piores que todo mundo acha engraçado.

Minha intenção com o Troféu Covidão é chocar mesmo. E não deixar dúvida sobre o sentido deste texto, ou seja, esclarecer pontos e determinar o resultado regional hierarquizado por Município.

Exatamente o que a mídia regional despreza porque fere suscetibilidades. Não pretendo ferir coisa alguma, diga-se de passagem. E explico mais abaixo.

Contrastes explicativos

Desde 24 de março quando produzi texto com algo semelhante ao que faço agora (ou seja, medir o tamanho da desgraça), o que se nota é que os níveis de pobreza e exclusão social em Diadema e a expressiva população acima de 60 anos em São Caetano compõem o ritual mais frenético de baixas do Coronavírus. Os dois municípios estão entre os maiores índices da região e mais acentuados do País.

A divisão de casos letais por 100 mil habitantes é a métrica recomendada pela ONU para tudo quanto é estatística que envolva tamanhos diferentes de países e assemelhados. Entretanto, alguns manipulam e descartam a metodologia no caso do Covid-19. São filhotes do Datafolha.

Nesse ponto (e é esse ponto que interessa, doa a quem dos imprecisos doer), Diadema e São Caetano se distanciam relativamente com folga dos demais competidores locais. Diadema registrava até ontem 159 óbitos, enquanto São Caetano acusava 65. Quando se dividem os números pelas respectivas populações, são 40,14% casos letais em São Caetano e 37,26% em Diadema.

Colorações diferentes

A aceleração dos féretros provocados pelo vírus chinês na região nos últimos dois meses provocou descolamentos na então coloração de uniformidade registrada em março, sem retirar, contudo, a indissociável regionalidade como modus operandi de quem é invisível e pouco se lixa às fronteiras formais.

Agora há diferenças de letalidade que ultrapassam a margem de tolerância entre os municípios, situação, entretanto, que só confirma o perfil de regionalidade nuançada do Grande ABC. Não temos municípios livres ou menos suscetíveis ao vírus. Todos participam do campeonato de letalidade, embora em divisões diferentes.

Aqui, condições sanitárias, sociais e econômicas são diversas internamente em cada Município e também no conjunto da obra do bicho de sete cabeças. No balanço geral, entre a possibilidade de termos o Coronavírus retratado como uma flor de esperança ou um caixão fúnebre, ficamos dolorosamente com a segunda alternativa. O que muda de cidade para cidade é o preço do caixão, embora as dores sejam as mesmas.

Ninguém está preparado para virar estatística porque, afinal, é isso que imperará quando se fizer um balanço da pandemia em qualquer lugar do mundo.

Quem mais sofre

Apenas os mais próximos das vítimas fatais mitigarão os dados gerais porque sentirão na alma e no dia a dia as dores dos desenlaces familiares e de relacionamentos mais próximos.   

Quem me lê e mete a lupa de acidez em cada parágrafo provavelmente vai imaginar que desdenho do vírus chinês. Puta erro! Estou andando e comendo de medo. Se é que me entendem.

Já tive pesadelos. Ainda anteontem acordei assustado, mas feliz ao me dar conta de que não passava de obra freudiana estar naquela madrugada num baile funk em Diadema (vejam só, baile funk em Diadema, considerando que não gosto dessa versão cultural e por Diadema só passo a caminho da Capital) e, de repente, no meio da balbúrdia geral, de gente suarenta movida a muita cachaça, notei que ninguém usava máscaras. Foi aí que acordei.  

Depois de acertar esses ponteiros de terror que o vírus chinês me impõe, volto ao que interessa.

Há três divisões de letalidade do Coronavírus no Grande ABC, as quais, repito, refletem a sociedade em que vivemos.

Disputa pau a pau

A primeira envolve Diadema e São Caetano. O jogo está mesmo duríssimo. Acho que quando o vírus for embora teremos, proporcionalmente à população, mais mortes em Diadema. Pela simples razão de que o vírus saiu das classes mais abastadas para a periferia e da periferia não sairá tão cedo.

Sobretudo agora que prefeitos e o governador, desesperados com a crise econômica superando os temores sanitários, decidiram abrir as portas para o inferno. Demoraram para tomar a decisão e quando a tomaram atropelaram a curva de incidência de casos.

São Caetano, portanto, deve escapar do troféu inglório. A população mais velha em média do que o restante do Grande ABC (e com índices de participação no total semelhante à média da Europa) já terá sido relativamente imunizada pelo processo natural de salvação do rebanho e de confinamento mais disciplinado. O Troféu Covidão, portanto, será de Diadema mais jovem, mais pobre, mais efervescente e, portanto, mais decidida a romper as regras de isolamento social.

São menos de três pontos percentuais a separar a letalidade de Diadema e São Caetano. Acho, portanto, que Diadema vai superar São Caetano também porque há mais excluídos no confronto com mais velhos. E a densidade por quilômetro quadrado, embora semelhante, é muito mais organizada e dotada de qualidade de vida em São Caetano.

Mais parelhos

O segundo bloco, ou a Série A-2 de letalidade do Coronavírus, envolve Santo André e São Bernardo, vizinhos de populações quantitativamente semelhantes. Santo André registra 26,06 casos para cada 100 mil habitantes (188 mortes de uma população de 721.231 pessoas), enquanto São Bernardo tem número levemente superior (29,40 casos por 100 mil habitantes, resultado da divisão de 248 mortes por 844.418 habitantes).

Com contingentes de excluídos (pobres e miseráveis) próximos (são 19% em Santo André e 20,2% em São Bernardo), acho que esse jogo vai continuar pau a pau, com derrota de São Bernardo na reta final. Ou seja, vai registrar número de óbitos maior que Santo André na contagem relativa a cada grupo de 100 mil habitantes. Mas nada que seja uma tragédia além da tragédia em si.

Terceira Divisão

O terceiro bloco do Covidão, ou Série A-3, conta com Mauá (19,89% de letalidade) Ribeirão Pires (19,33%) e Rio Grande da Serra (17,50%). Resta saber se a periferização de incidência do vírus já chegou para valer nesses três municípios vizinhos entre si ou se a onda paulistana que se espraia ainda vai varrer o mapa da região Sudeste da Grande São Paulo.

O desempenho do Grande ABC durante a pandemia que pode se estender até o trimestre final do ano está muito abaixo da média nacional, mas talvez nesse ponto o tempo possa colaborar, minimizando a tragédia. Há territórios do País que só agora começaram a ser invadidos. A Região Sul talvez confirme ao final da competição que será uma exceção à regra.

A média regional de mortes é de 28,06 para cada grupo de 100 mil pessoas. São 788 casos para 2.807.483 milhões de habitantes. O Brasil registra 18,79 casos. Uma diferença de 33%. Ou seja: quem mora no Grande ABC tem 33% mais de probabilidade de virar vítima fatal do vírus. Quando a comparação é com a média do Estado de São Paulo, que registra 22,16% óbitos para cada 100 mil habitantes, a relação cai para 21%.

Guilhotina para prefeitos

Talvez os leitores sejam induzidos por este texto a imaginar que simplifico a avaliação dos estragos visíveis do Coronavírus no Grande ABC. Nada disso. Estou é estabelecendo mais uma vez as bases de uma construção que não pode ser avaliada estruturalmente sem que o demônio vá embora e se tenham mais dados a instrumentalizar análise crítica.

Estou de olho no comportamento da tropa de prefeitos da região. De antemão coloco todos eles na guilhotina porque seguiram cartilha mais que manjada de falso cientificismo do governador do Estado, do qual só procuram se libertar. Viram que a vaca do prestígio estava indo para o brejo. Há arrependimento coletivo no Clube dos Prefeitos.

Aliás, por mais esforços de marketing que faça, essa instituição está muito aquém do mínimo necessário para combater a pandemia. O Clube dos Prefeitos é uma vítima preferencial do Coronavírus. Está estrebuchando, embora alguns o tenham como amálgama emergencial das demandas da região.

Maranhão e Rio Grande

O prefeito dos prefeitos do Clube dos Prefeitos, Gabriel Maranhão, ainda outro dia deu uma entrevista de página inteira ao Diário do Grande AB. Mais que ninguém ele simboliza o estágio da entidade. Maranhão está à altura de Rio Grande da Serra. E quilometricamente distante de uma das regiões metropolitanas (o Grande ABC é isso mesmo) mais importantes do País.

Aliás, os demais prefeitos dessa safra não têm estatura de regionalidade para avocar liderança em tempos normais, quanto mais de guerra ao vírus.

São prefeitos municipalistas como a quase totalidade dos prefeitos que, desde dezembro de 1990, ingressaram nessa barca furada. Onde reinam o divisionismo e o estrelismo, além da falta de organização e propostas factíveis, sobrevive a mediocridade.

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