Economia

Região ganha quase 200 mil
negócios na década. E daí?

  DANIEL LIMA - 23/06/2020

Atenção com o andor do enunciado do título porque o santo das especificidades e do consumo por habitante embutido no comportamento do PIB Geral é de barro. A interrogação é proposital. E se verá elucidativa na sequência. A explicação está nos Microempreendedores Individuais e Microempresas. Fazem volume, mas pesam pouco. São negócios de subsistência em larga proporção. Desempregados disfarçados de empreendedores.

Quero dizer o seguinte: o Grande ABC (e o Brasil como um todo) explodiu em empreendedorismo na última década (a partir de abril de 2011), mas isso está longe de sinalizar vitalidade.

Diferentemente disso: mais gente correndo atrás de negócios num ambiente regional de contração econômica tem o significado de vulnerabilidade individual e coletiva acentuada com repercussão predatória. Que se acentua em tempos de pandemia.

Quando chegou abril de 2011, o Grande ABC contava com 95.202 empreendimentos formalizados. Nos 10 anos seguintes, até abril deste ano, soma 293.169. Ou seja: aumento líquido (diferença entre abertura e desativação) de 197.967 unidades, ou 232,35%. Um pouco acima do crescimento relativo do Brasil como um todo, de 224,32% -- eram 6.289.604 e passou para 20.399.727. Milhões, mesmo!

Congelamento regional

A diferença entre a média de crescimento regional de empreendedorismo e a média nacional é que o PIB Geral do Consumo do País cresceu em termos reais, desde janeiro de 2011, descontando-se a inflação, 21,56%. No PIB do Consumo per capita o crescimento nacional foi de 9,5%.

No Grande ABC, como já mostramos em outros textos, houve congelamento do PIB Geral de Consumo – no PIB do Consumo por habitante a queda regional foi de 11,12%.   

Entenderam por que em determinadas situações mais empreendedorismo significa mais complicações econômicas?

No fundo, há um erro de enunciado em atribuir ao fenômeno da pejotização no Brasil o conceito de empreendedorismo. Usamos para não embaralhar a cabeça dos leitores. Pejotização e empreendedorismo não podem ser sinônimos. O primeiro é uma gambiarra para fugir da carga tributária estúpida. O segundo é empreender de verdade.

Contextualização

É difícil a determinados ramais da mídia pouco reflexiva entender essas nuances. Geralmente se jogam na lata do lixo a contextualização econômica, com as especificidades inerentes, e os índices inflacionários.

Mas não é isso que interessa agora. O que vale mesmo é situar o Grande ABC no contexto interno, entre os sete municípios, e também em outras áreas econômicas.

Há outro aspecto que precisa ser considerado quando se coloca na mesa estatística o número de empreendedores no Grande ABC (e no restante do País), partindo-se da premissa da década que se completa neste ano. Em abril de 2011, data de referência, contabilizavam-se poucos empreendimentos categorizados como Microempreendedores Individuais e Microempresas. Isso faz muita diferença.

Houve explosão de negócios --- na maioria dos casos de sobrevivência. Como, aliás, no restante do País que não consegue crescer e cujo PIB Geral por habitante patina sem parar. Ou seja: a economia corre na mesma linha do crescimento da população.

Pejotização em massa

Houve mesmo uma explosão de empreendedorismo de pejotização no Grande ABC numa década. Algumas atividades são emblemáticas do quanto de desempregados que viraram empreendedores.

Só na saúde o crescimento foi de 127,71%: eram 3.006 negócios em abril de 2011 e passaram para 6.845 em abril deste ano. Na área de Educação o aumento foi de 509,38%, com salto de 1.908 para 11.627. No setor de alimentação, o total passou de 5.936 para 21.919, ou 269,25% de aumento. O comércio atacadista saltou de 4.921 para 7.545. Já o comércio varejista subiu de 27.626 para 59.441.

Acreditar nos números de empreendimentos no Grande ABC sem levar em conta nuances macroeconômicas e, sobretudo, o processo de depauperação da economia local é insanidade pura.

Perda de grandes e médias

Em julho de 2018 mostrei um aspecto do Grande ABC que não deixa dúvida sobre a fragilidade dos números. Nos últimos sete anos encerrados em 2017, a região contabilizou queda de 716 empresas de médio e grande porte na lista de atividades. Já as pequenas empresas sofreram desidratação semelhante: 588 baixas.

Aqueles dados saíram do forno estatístico da Consultoria IPC, do pesquisador Marcos Pazzini. O mesmo especialista que incorpora aos números do PIB do Consumo informações suplementares como o número de atividades em cada Município.

Lembramos naquele texto que o resultado metabolizado significava que não necessariamente aquela totalidade de empresas desapareceu ou se transferiu da região. Em larga escala, alertamos, poderia ter havido enxugamento.

Em abril de 2011 a região contabilizava o CNPJ de 9.118 empresas com entre 10 e 29 funcionários de carteira assinada. Em abril de 2018 estavam registradas 9.246 empresas. Em abril de 2011 eram 1.291 médias empresas que registravam entre 100 e 499 colaboradores formais. Em abril de 2018 eram 746 empresas. Já entre as grandes empresas, eram 302 endereços na região em abril de 2011 ante 131 em abril de 2018. Na soma dos sete anos eram 1.593 empresas de médio e grande porte. Em abril de 2018 sobraram 877.

Quando mais é menos 

Ainda naquele texto expliquei que, se entre médias e grandes organizações o balanço indicava a perda de 711 empreendimentos, entre os Microempreendedores Individuais e Microempreendedores, o total registrado em 2011 saltou de 139.376 para 276.099 negócios em 2018.

Para reforçar o conceito de que quantidade não é qualidade quando se vincula desenvolvimento econômico tendo como indexador o número de empreendimentos legais, basta comparar o que era o Grande ABC antes da virada do século passado e as duas décadas deste novo século.

Em 1999, segundo dados históricos de CapitalSocial junto à Consultoria IPC, o Grande ABC contava com 71.878 empreendimentos. Ou seja, 24,5% do total registrado em abril deste ano -- 293.169.

O que torna a contabilidade dramática é que, embora representasse um quarto do total de empreendimentos, o Grande ABC registrava 2,28420% do PIB Geral do Consumo do País. Nesta temporada, com muito mais empreendimentos, o Grande ABC registra 1,65671% do PIB Geral do Consumo do Brasil. Uma queda relativa de 27,42%.  Menos riqueza para mais competidores.

Veja como foi o desempenho dos sete municípios do Grande ABC durante a última década na quantidade de empreendimentos: 

 Santo André conta com 87.306 empreendimentos -- crescimento de 206,04%.

 São Bernardo conta com 94.056 -- crescimento de 200,08%.

 São Caetano conta com 23.346 -- com crescimento de 132,77%.

 Diadema conta com 37.110 --crescimento de 243,4%.

 Mauá conta com 31.453 --crescimento de 318,36%.

 Ribeirão Pires conta com 10.911 -- crescimento de 198,68%.

 Rio Grande da Serra conta com 2.937 -- crescimento de 296,53%.

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