Administração Pública

Paulinho Serra reage e abafa
a crise na Fundação do ABC

  DANIEL LIMA - 26/06/2020

Está confirmadíssima a Operação-abafa na Fundação do ABC. Sabedor de que uma crise na entidade estouraria no próprio colo político-eleitoral desta temporada de caça aos votos, Paulinho Serra agiu com os poderes de quem é o prefeito da vez no comando formal do que mais interessa na instituição: a Central de Convênios. Tanto que fez das tripas coração para alcançar um objetivo temporariamente resolvido. A presidente da entidade, Adriana Berringer, indicada por São Caetano, está com os poderes esterilizados. Por conta de conveniência do prefeito José Auricchio Júnior.

O Clube da Saúde Pública do Grande ABC é mantido com dinheiro do SUS. Trata-se de potentado de 25 mil funcionários e orçamento de R$ 2,7 bilhões. Atende muito além da estrutura pública regional. Coleciona mais de uma dezena de endereços. Formalmente chamadas de mantidas.

A Central de Convênios tem atividade praticamente autônoma. Como se fosse um enorme cofre a salvo de qualquer inspeção minuciosa. Tanto que os executivos que a dirigem não dão satisfação dos negócios nem mesmo à presidente Adriana Berringer. Ou principalmente a ela.

Mais que decorativo

O prefeito de São Bernardo, Orlando Morando, indicou Luiz Mário Pereira de Souza Gomes, Procurador-Geral do Município, para ocupar a vice-presidência. O cargo não é exatamente decorativo em relação à Central de Compras. Decorativo o é em relação à presidente. Luiz Mário não chega a ser praticamente nada na ordem de importância daquele departamento que controla quase a metade do orçamento da Fundação do ABC, garantem vários funcionários.

Não fosse o ano eleitoral e a pandemia do Coronavírus é bem possível que a Fundação do ABC correria o risco de explodir. Primeiro, porque a presidente Adriana Berringer fracassou na tentativa de retirar do sistema de comando o Diretor-Geral Carlos Eduardo Fava, indicado por Paulinho Serra. E também o Diretor-Administrativo Décio Teixeira Prates Júnior, igualmente indicado pelo prefeito de Santo André. Décio teria sido afastado, mas há controvérsias sobre o destino que teria tomado. Fala-se que estaria de volta a qualquer momento. Fornecedores de produtos e serviços que o procuram na Fundação do ABC recebem a enigmática resposta de que ele estará de volta nesta sexta-feira.

Distribuição de poderes

A gestão tripartite da Fundação do ABC obedece a uma linha de distribuição de poderes a cada novo mandato do presidente indicado pelo prefeito da vez. Isso quer dizer que o prefeito de São Caetano, José Auricchio Júnior, manda apenas relativamente nesta temporada.

Adriana Berringer, médica formada na Faculdade de Medicina do ABC, instituição ligadíssima à Fundação do ABC, não resistiu à prova de fogo de mudanças. Segue presidente mas tem o poder mitigado por Paulinho Serra. Por isso é vista com desconfiança pelos próprios funcionários. Os mesmos funcionários que viram nesta semana uma grande movimentação na Central de Convênios. Computadores foram retirados às pressas. Eram de uso exclusivo dos dois executivos na mira da presidente.

Um dos curadores da Fundação do ABC só lamenta inexistir entre a maioria dos demais integrantes da instância qualquer iniciativa que colocasse a instituição mais próxima da sociedade, tratando as contas com transparência. E também lamenta que não existe no Legislativo de Santo André quem se interesse pelos desvios já constatados na gestão do Central de Convênios.

Unanimidade burra

A Central de Convênios da Fundação do ABC é uma unanimidade burra no sentido de que tudo pode porque até mesmo eventuais oposicionistas partidários se calam por conveniência. É um território em que a democracia vale apenas para quem manda e desmanda.

Não falta quem negue que vereadores, deputados e assemelhados, e mesmo derrotados em eleições diversas, já não contam tão facilmente com a Fundação como quintal de trocas de favores. Adriana Berringer teria colocado a casa em ordem nesse sentido. Mas não é o que parece. Até porque o que parece não é tão importante assim. O pote de ouro da Fundação do ABC está na Central de Convênios.

Do orçamento geral, mais de 40% passam por ali. E a contabilidade trafega à distância da sala da presidência. Adriana Berringer foi derrotada na tentativa de instalar sensores que captassem inconformidades. E que os procedimentos obedecessem ao cronograma oficial. Não se deu conta do cronograma paralelo, quando não clandestino.

Menos liberdade? 

Entretanto, nem tudo estaria correndo leve e solto como antes de Adriana Berringer tentar dar um xeque-mate e centralizar com sua equipe de especialistas todas as contas da Central de Convênios. Funcionários mais experientes comentam que há pelo menos um ensaio de transparência com a contratação de duas profissionais de Direito. Elas estariam atuando como inspetoras. Traduzindo em miúdos: o titular da Central de Convênios já não teria liberdade como antes. O bom-senso indica que é melhor não acreditar nessa versão.

CapitalSocial insiste em afirmar que a sequência de matérias sobre a Fundação do ABC decorre da importância de acompanhar a entidade nestes tempos de pandemia. E que conta com série de documentos para assegurar irregularidades.

Mais que isso: dada a situação de nebulosidades, sugere ao prefeito de Santo André a programação de espécie de entrevista pública, com o chamamento de toda a mídia. Paulinho seria desafiado a contrapor-se aos documentos de que dispõe este jornalista. E a colocar em campo, em nome da moralidade, o Procurador-Geral do Município acompanhado por um comitê independente, para dar um pontapé de largada nas inspeções. Tarefa que cabe ao Ministério Público Estadual, que até agora não se manifestou.

Caso o prefeito de Santo André considere um exagero essa sugestão, pode patrocinar um encontro mais reservado. Basta uma reunião na própria Fundação do ABC com todos os curadores. Este jornalista faria apresentação munido de provas das esquesitices sacramentadas durante a pandemia.

Definição chegando

Essa sugestão é consequência de informações de um dos curadores que não teria resistido à tentativa de desclassificar as denúncias de CapitalSocial. Um dos vários pontos de ligação deste jornalista com a comunidade interna da instituição, o curador em questão garante que teve de se conter para não desmentir os enviados do prefeito de Santo André.

Nos próximos dias o que vai se definir para valer é se a dupla do barulho que comanda a Central de Compras será recomposta ou não. Recomposta porque o Diretor-Administrativo já teria sido demitido. Estaria afastado das funções até que tudo se resolva na cúpula diretiva. Ele tem a retaguarda de Paulinho Serra. Como o Diretor-Geral.

Talvez o maior erro da presidente Adriana Berringer foi acreditar que a Fundação do ABC obedece a critérios corporativos de vanguarda ao lidar com o dinheiro público federal. A presidência é um cargo de valor residual quando se trata de colocar ordem na casa da Central de Convênios. Os prefeitos de Santo André, São Bernardo e São Caetano formam espécie de Conselho Superior. Eles decidem tudo de mais relevante. Inclusive sandices na Central de Convênios.

Para chegar ao que chegou nos últimos dias, no sentido de arranjos para manter o Diretor-Geral e o Diretor-Administrativo, é certo que os três prefeitos frequentaram a mesma rota de voo de pacificação. Ou de conserto do avião em pleno voo, para evitar o desastre de a crise contaminar as eleições programadas para novembro. Resta saber o que fazer mais tarde, quando a tempestade voltar a virar agenda obrigatória. 

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