Economia

Massa salarial industrial de
São Caetano cai R$ 1 bilhão

  DANIEL LIMA - 15/07/2020

O setor de transformação industrial de São Caetano colapsou nos últimos quatro anos, entre janeiro de 2015 e dezembro de 2018. Os dados oficiais de 2019 ainda não são conhecidos integralmente, mas, pelas parciais, intensificarão a derrocada. E é melhor nem falar deste ano. A pandemia acentuará o desastre. Quando se compara a massa salarial de 2018 com a de 2014, a perda supera a R$ 1 bilhão. Uma calamidade que se elevará quando for apurado o resultado do ano passado.

Em 48 meses São Caetano perdeu 41,46% do efetivo de trabalhadores industriais com carteira assinada e o assalariamento médio do setor caiu 41,28% em termos reais, descontada a inflação. Não há nada sequer semelhante no G-22, o grupo dos maiores municípios do Estado de São Paulo. Os dados são oficiais do Ministério do Trabalho e Emprego.

Trata-se de coleção de estragos. São Caetano vem perdendo participação real e proporcional da indústria nas atividades econômicas desde o começo dos anos 1980. Mas os níveis que se imaginavam residuais a partir da potencial exaustão do processo são surpreendentes.

Explosão surpreendente

Quem perde continuamente durante muito tempo tende a reduzir o impacto de perdas a cada nova temporada. O que se deu em São Caetano foi uma explosão entre os já contabilizados janeiro de 2015 e dezembro de 2018.

Qualquer análise que retire o selo de que São Caetano passa pelo mais insidioso processo de desindustrialização estrutural flertará com mentira escandalosa. Não se trata, portanto, de resultados circunstanciais, decorrentes de fatores excepcionais e temporários. Até porque, outros endereços municipais, mesmo no Grande ABC, oferecem números muito menos tenebrosos.

Mais que o desprezo à própria realidade, que se reflete no PIB de Consumo em franca decadência, manifesta-se a pretensão que beira à arrogância de acadêmicos locais. Eles anunciaram intenção de, juntamente com o inútil Clube dos Prefeitos, estabelecer regras de crescimento econômico para o Grande ABC. 

Superando expectativas

O roto (no caso a USCS, Universidade Municipal de São Caetano) pretende acertar a vida do rasgado. Com a intermediação de uma entidade incapaz sequer de manter em dia o fluxo de contribuição das prefeituras. O colegiado que reúne os prefeitos dos sete municípios do Grande ABC cuida tão bem da economia regional como pedófilos de uma creche.

Ou seja, e sem firulas: o Grande ABC nos municípios separadamente e o Grande ABC dos municípios supostamente em conjunto é uma anedota econômica repetidamente exposta a ponto de desmoralizar os gestores públicos.

Após demostrar em duas edições que Santo André e São Caetano entre 2017 e 2019 são os casos mais dramáticos dos efeitos deletérios da fragilização do setor industrial, decidi focar a chamada Capital da Qualidade de Vida da região. São Caetano é disparadamente o caso mais grave de desindustrialização nos quatro anos especificados. E no quinto que virá também em forma de novos dados oficiais. 

Derrocada salarial

Em dezembro de 2014, São Caetano contava com 26.410 trabalhadores industriais com carteira assinada. Quatro anos depois, em dezembro de 2018, eram 15.459. Uma perda líquida de 10.951 colocações. Ou 41,46%.

A massa salarial dos trabalhadores industriais registrava o valor nominal de R$ 103.597.450 milhões em dezembro de 2014. Esse é o valor nominal ao se multiplicar o total de postos de trabalho e o salário médio, de R$ 3.922,66.  Quando se aplica a inflação do período dos 48 meses, de 25,64% pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o montante de dezembro de 2014 passa para R$ 130.159.836 milhões. Muito acima do valor de dezembro de 2018, de apenas R$ 44.736,800 milhões -- montante decorrente da multiplicação do salário médio industrial de R$ 2.893,90 pelo total de trabalhadores remanescentes.

A diferença real em termos monetários entre a massa salarial de dezembro de 2014 e de dezembro de 2018 chega a R$ 85.423,36 milhões. Extrapolando esses valores ao apanhado de 12 meses (ou seja, a diferença é mensal), chega-se a perda de R$ 1,025.080 bilhão entre os dois dezembros distanciados em 48 meses. Tudo isso sem considerar o pagamento do 13º salário. 

Indústria miniaturizada

A participação relativa dos trabalhadores industriais no conjunto dos empregados com carteira assinada em São Caetano caiu 23,14% para 14,62% entre os dezembros de 2014 e 2018. Isso representa uma queda de 8,52 pontos percentuais. Com isso, a massa salarial industrial encolheu sensivelmente em quatro anos, quando confrontada à massa geral de trabalhadores: era 33,24% do total e passou para 13,31%.  

Traduzindo: cada vez mais São Caetano perde musculatura econômica derivada do setor industrial e com isso compromete o conjunto de assalariados das demais atividades econômicas.

Tanto é verdade que o salário médio do universo de todos os trabalhadores formais de São Caetano entre dezembro de 2014 e dezembro de 2018 sofreu perda real de 8,41%. Os R$ 2.762,38 de salário médio geral (de 112.826 carteiras assinadas) em dezembro de 2014 corresponderiam a R$ 3.470,65 quando se aplica a inflação do IPCA no período. Mas em dezembro de 2018 o valor real médio de salários gerais (de 105.702 carteiras assinadas) registrava R$ 3.178,81. 

Diadema bem melhor

Apenas a título de comparação: em Diadema, onde o peso do emprego industrial é muito maior que o de São Caetano porque conta com praticamente o dobro de participação relativa de trabalhadores do setor no conjunto de empregos, a perda salarial (sempre em valores corrigidos) não passou de 3,73% entre os mesmos dezembros. Ou seja: menos da metade da perda de São Caetano. Diadema perdeu proporcionalmente menos trabalhadores industriais nos quatro anos em relação a São Caetano. E também acusou menos impacto na massa salarial industrial: foram apenas 3,73% de redução, contra 41,28% de São Caetano.

O salário médio industrial de São Caetano (em valores nominais, ou seja, sem considerar a inflação) em 2014 era um dos mais elevados do Grande ABC: R$ 3.922,66 ante R$ 3.064,26 de Diadema, R$ 2.505,51 de Rio Grande da Serra, R$ 4.799,10 de São Bernardo, R$ 3.662,41 de Santo André, R$ 2.617,12 de Ribeirão Pires e R$ 3.410,71 de Mauá. Ou seja, ocupava a segunda posição no ranking regional.

Quatro anos depois, em dezembro de 2018, São Caetano passou a contar com salário médio industrial de R$ R$ 2.893,60, ante r$ 5.908,82 de São Bernardo, R$ 3.937,72 de Santo André, R$ 3.730,51 de Diadema, R$ 4.163,68 de Mauá, R$ 3.218,87 de Ribeirão Pires e R$ 2.898,33 de Rio Grande da Serra. Resultado: caiu para o último lugar na região. Uma catástrofe ainda a ser explicada. Tomara que a USCS tão ambiciosa em termos regionais decifre o enigma no próprio território em que está instalada.

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