Política

Qual o peso do vírus chinês nas
próximas eleições municipais?

  DANIEL LIMA - 21/07/2020

Escrevi ainda outro dia -- depois de cauteloso em textos anteriores -- que o vírus chinês não teria peso preponderante nas disputas eleitorais de novembro na região. É preciso entender que sempre que se leva qualquer temário ao altar político-eleitoral, recomenda-se caráter precário. O possível enquadramento perceptível de hoje pode virar sucata avaliativa mais adiante. É essa premissa que me levou àquela análise. E a mantenho neste texto.

Seria muito idiota se encaminhasse o jogo eleitoral dando ao Coronavírus a condição de favorito ao aniquilamento ou à consagração de determinada candidatura. Mas também não pode ser descartada eventual desequilíbrio tendo a pandemia como protagonista.

Os acontecimentos relacionados a essa desgraceira podem saltar no noticiário a qualquer momento. O vírus é indomável e como tal tanto pode estar aquietado hoje como devassador amanhã.

Somente eventos excepcionais fariam com que a temperatura eleitoral se alterasse intensamente tendo o vírus chinês como elemento-chave.

Gravidade sustentável

Uma denúncia grave de uso de recursos da União em falcatruas durante a pandemia, com repercussão midiática e nas redes sociais além da trivial ligeireza destes tempos, teria impacto de deslocamento de números que pesquisas muito privadas já capturam.

Por enquanto não vejo no Grande ABC situação que provoque calafrios sanitários aos candidatos que buscam a reeleição. Exceto o que está mais que escondido, embora não tanto, na farra de dinheiro federal repassado a municípios e utilizado pela Fundação do ABC.

Se a caixa-preta da Fuabc for aberta e o fedor ali instalado, mas sob controle rígido de forças de pressão, expandir-se sociedade afora, tudo pode acontecer. Inclusive terremoto em determinadas campanhas que nestas alturas do campeonato proclamam vitória em primeiro turno para disfarçar a quase inexorável necessidade de returno.

Barcaça provinciana

A dispersão provocada pelas mídias sociais alterou as disputas eleitorais municipais. O que era uma barcaça provinciana à deriva na Represa Billings transformou-se em embarcação poderosíssima num oceano de tranquilidade.

Diferentemente do passado, quando havia monopólio das mídias convencionais, hoje, por mais graves que determinados casos se apresentem, há sempre perspectiva de redução dos danos colaterais. Tudo porque há uma disputa insana por audiência balizada por múltiplas temáticas do dia a dia infernal das plataformas tradicionais e digitais.

O processo de portabilidade tecnológica dissemina de tal forma os escândalos que chegamos ao paroxismo, porque, em vez de gerar massa de reação coletivamente asfixiante, neutraliza-a ou minimiza-a na medida em que correntes conflituosas entram no campo de batalha.

As redes sociais, para o bem e para o mal em determinadas situações, contemplam o congelamento de questões por força da industrialização de fatos, versões e mentiras reportados. Uma declaração bombástica agora é substituída por um fato novo em poucos segundos. O ambiente regional é contaminado por tudo isso.

Bombardeio intenso

Uma das condições psicossociais para que determinados assuntos supostamente ou mesmo bombásticos causem efeitos que impactem os autores de barbeiragens no Grande ABC passa primeiro pela informação em si e, na sequência, pelo que chamaria de digestão e metabolização dos suprimentos expostos.

Tudo se modificou com o bombardeio diário dos aplicativos de smartphones com informações sem fronteiras e cada vez mais tratadas com o desvelo de produção à caça de audiência. O relevante no ambiente regional vira fumaça ante o noticiário gataborralheirescamente ou não mais importante que vem de fora.  

Repare o leitor que não larga do celular o quanto jorra de notícia a cada minuto em forma de alertas? É preciso ter muito poder de concentração para resistir à pressão. E isso poucos têm.

Concentração difícil

Não faltam estudos que identificam em algoritmos o quanto em média somos levados a dar uma espiada qualquer no celular e o quanto movimentamos a engrenagem de interações. A atenção sobre determinado assunto reflui. É colhida frontalmente pelo impacto do enxame de novas informações.

Devo admitir que sou quase uma exceção à regra porque me doutrino a ficar atento ao que mais me interessa num dia a dia em que tenho compromisso de leitura e produção jornalística.

Mas, por mais que fique atento, tudo vai por água abaixo se não exercer o livre arbítrio de ser cruel comigo mesmo e resistir à demanda geral. Fico a imaginar o que se dá com consumidores de informação sem a obrigação de preparar insumos formalmente jornalísticos.

Overdoses informativas

Não chegaria a dizer que a sociedade em geral está contaminada por uma doença mais intensa embora muito menos letal do que o vírus chinês. Mas também não faltam estudos recheados de dados estarrecedores sobre a saúde mental que overdoses de informações estimulam no cotidiano. Ainda mais nestes tempos de reclusão obrigatória.

Ficar em casa tem se configurado um tormento. Além dos celulares endiabrados temos o açodamento das emissoras de televisão tipo Globonews e, principalmente, a CNN, a nos enfiar minuto após minuto sempre uma nova abordagem sobre o que se passa, principalmente nos arredores do Palácio do Planalto.

Com toda essa complexidade midiática a tomar o espaço diário de quem mora no Grande ABC, parece pouco provável que questões locais, municipais e regionais, contem com o mesmo grau de percepção e compreensão de antigamente. Entenda antigamente como cinco anos passados. Não mais que isso.

É verdade que não faltam grupos virtuais que se dedicam às questões, mas em geral são extremamente segmentados por interesses específicos que esquartejam uma visão mais aprofundada e ampla do que se passa na região.

Ambiente nacional

Esses mesmos grupos, não custa lembrar, também estão engajados na política nacional. Em muitos casos, estão muito mais engajados na política nacional. As redes sociais exibem uma mistureba temática polarizada que raramente abre espaço a questões regionais de interesse coletivo.

A despersonalização do municipalismo e do regionalismo do Grande ABC por força de mídias sociais, portanto, não é uma blasfêmia.

O comportamento também contempla oportunismo de quem se pretende comprovar preocupado com o andar da carruagem nacional para compensar estratagema do qual faz uso ao silenciar-se às questões locais.

Ou seja: temos guerrilheiros à direita e à esquerda do espectro político ideológico apenas quando o território a ser devastado é o que se passa longe daqui. Cada um sabe onde aperta o calo de interesses e precauções.

Falta de instrumentos

Como se tudo isso não bastasse, falta à região uma instituição a monitorar o sentimento da população em vários aspectos. Sem estudos honestos e históricos que permitam olhar o Grande ABC sem ter a mesma sensação de alguém que ingressa num quarto escuro, torna-se sempre uma aventura enveredar por caminhos sociológicos.

Quer um exemplo prático do que poderia ser a constatação estatística em vez de percepção? Quantos bolsonaristas da região estão alinhados aos candidatos da direita e da centro-direita que vão disputar as próximas eleições? Mais didatismo? Da base dos eleitores que pretendem votar nos tucanos José Auricchio Júnior, Paulinho Serra e Orlando Morando, quantos são bolsonaristas? Como avaliam a demissão de Sérgio Moro? Mais? Qual é o percentual de apoiadores de Lula da Silva mesmo depois de tanta tempestade petista?

Estamos no cantinho do cinema de informações com valor agregado. As pesquisas nacionais não capturam sentimentos locais. Atravessamos às escuras um oceano de mudanças comportamentais. Fazemos das tripas coração para encontrar um ou outra luzinha que indique algum caminho. As relações pessoais foram abatidas com a pandemia. As relações digitais pessoais, além de grupais, são sempre às pressas e nem de longe têm a sensibilidade do presencial.

Inutilidades imperam

Com tudo isso e muito mais, o que é relevante perde a força e a contundência num piscar de olhos. Enxurradas de superficialidades das redes sociais trituram o imprescindível.

As guerrilhas dissuasivas preparadas por paus mandados de mandachuvas são liberadas ao ataque ou à dissimulação ao menor sinal de risco de desconforto. Dispersar temáticas desagradáveis é a regra geral.

É um jogo de vale-tudo em que a tempestade de assuntos é o arsenal de combate a informação qualificada nas redes sociais. Sem mídia tradicional de peso equivalente ao passado de controle da informação, o Grande ABC fica refém do provincianismo também no campo da informação. As redes sociais tornaram-se poderosíssimos.

Em meio a tudo isso, a essa confusão dos infernos, a pandemia do Coronavírus só vai dar sobressalto em candidato importante nas eleições de novembro se o buraco for muito, mas muito escandaloso. Fora isso, entrará por um ouvido e sairá por outro. Vivemos o paraíso do transbordamento midiático. E o inferno da quebra de todos os protocolos de segurança e objetividade informativa.

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