Sociedade

Brasil teria quase 200 mil
mortes se fosse São Caetano

  DANIEL LIMA - 10/08/2020

A possibilidade de morrer em consequência do vírus chinês é praticamente 50% maior para quem mora em São Caetano do que no Brasil como um todo. Se o Brasil fosse São Caetano, já teriam morrido quase 200 mil pessoas de Covid-19. O resultado estatístico não é uma alquimia de valor ou odor político ou partidário. É caso de saúde pública, apenas isso.   

Não há, portanto, enviesamento algum. Apenas uma constatação que, gostem ou não, desdobra em série de explicações, suspeições e incertezas. A pergunta essencial que se deve fazer é a seguinte: por que morre tanta gente em São Caetano em relação à média nacional se as condições sanitárias no Município são consideradas de Primeiro Mundo?  

Para colocar São Caetano ou qualquer Município num mesmo patamar de avaliação técnica sem politização manda fazer uma conta simples, que somente os empedernidos ideológicos de plantão resistem: divida o total de óbitos pelo número de habitantes. 

90,77 por 100 mil 

São Caetano registrou até ontem 147 casos letais, o que, dividido por 161.936 habitantes, significa 90,77 óbitos para cada grupo de 100 mil habitantes. O Brasil registrou 101.136 óbitos que, divididos por 211.755.671 habitantes resulta em 47,76 mortes para cada 100 mil habitantes. 

A comparação não é arbitrária. São Caetano detém a liderança do Grande ABC em casos letais do Coronavírus. É uma liderança ameaçada apenas por Diadema. Uma cidade que se assenta historicamente em caudais de imigrantes e uma cidade vizinha notabilizada por avalanche de migrantes atraídos pelo então paraíso industrial.  

Há três vetores que colocam São Caetano em desvantagem no confronto com a média brasileira que sai das estatísticas letais do Coronavírus.  

Pesam muito (segundo especialistas que tentam cercar o vírus chinês com o máximo de informações) os fatos de São Caetano estar na Região Metropolitana de São Paulo, de contar com elevada densidade demográfica e também de reunir grupo mais numeroso de moradores com 60 anos ou mais, estrato preferido do vírus chinês.  

Contra e a favor  

O que São Caetano difere do Brasil de forma positiva, ou seja, como anteparo à ação da pandemia, é uma rede de proteção sanitária construída ao longo de décadas em que atingiu alto padrão econômico para a realidade nacional. Além de uma população cujo estrato social de riqueza consolidada é muito superior à média nacional.  

São Caetano tem uma infraestrutura física e social muito acima da média nacional. É um oásis dentro do Brasil. Por isso, os dados estatísticos do vírus chinês intrigam. Ou seja: São Caetano detém fatores econômicos protetivos na luta contra o Coronavírus, em contraponto, portanto, às vicissitudes geográficas e etárias.   

Riqueza consolidada 

São Caetano conta com participação relativa de famílias de classe rica mais de três vezes superior à média brasileira. Das 60.140 moradias desse estrato social, 6,6% (3.987) são de moradores do topo da pirâmide social. No Brasil não passam de 2,1%, ou 1.300.578 moradias de um total de 60.554.076.  

A classe média tradicional de São Caetano reúne 33,9% das moradias, enquanto no Brasil são 20,9%. Ou seja: São Caetano conta com vantagem de 38,34% de classes médias ante a média nacional. Os classes média-baixa de São Caetano são 45,1% das moradias, enquanto no Brasil são 48,7%. E entre os miseráveis e pobres, São Caetano registra 16,8% das famílias, ante 28,3% da média nacional. Uma distância de 68,45%.  

Segundo dados da Consultoria IPC, especializada em potencial de consumo, que significa tudo o que cada família tem para gastar numa determinada temporada, o PIB do Consumo de São Caetano para este ano é de R$ 31.209,13 por habitante. A média brasileira é de R$ 21.086,65 per capita. Vantagem de 32% de São Caetano. Não é pouca coisa. Significa melhores condições de vida em todas as situações. Da alimentação à escolaridade.  

O peso dos idosos 

A proporção de moradores com 60 anos ou mais é um calcanhar de Aquiles de São Caetano no confronto com a média brasileira. Ter 60 anos ou mais é o caminho mais curto entre o vírus chinês e os casos de letalidade. Em média, no País, os casos letais envolvem esse estrato da população em proporções inquietantes. São 75% dos casos.  

Em São Caetano, com 60 anos ou mais, são 40.439 moradores, ou 24,97% da população. No Brasil são 24.388.618 milhões, ou 11,52% da população. Portanto, mais que o dobro de incidência da chamada Terceira Idade em São Caetano. Uma média europeia.  

Como ainda falta muito tempo para os estragos do vírus chinês se consolidarem no Grande ABC e no Brasil como um todo (há previsões que esticam a ação até o final do primeiro trimestre do ano que vem), parece ainda pouco conclusivo o resumo da ópera em execução. 

Partitura incompleta 

De qualquer forma, os resultados de São Caetano ganham aderência explicativa de cunho operacional interno que precisa ser atentamente observada. Traduzindo em miúdos: São Caetano poderia ter deixado de reagir (assim como todo o Grande ABC, de elevados indicadores de vulnerabilidade ao vírus chinês) à altura das necessidades.  

Teria havido tanto em São Caetano quanto nos demais municípios da região uma partitura incompleta de combate ao vírus. Seguiram-se protocolos atrelados demais ao governo do Estado até que a vaca da uniformidade de ações levou todos para o brejo. E quando se fala em levar todos para o brejo significa a incapacidade generalizada de conciliar saúde e economia. 

A vizinha Diadema tem dados socioeconômicos melhores e piores que a média brasileira e, como São Caetano, está no mapa da Região Metropolitana de São Caetano, conta com elevada densidade demográfica (13mil habitantes por quilômetro quadrado ante 11 mil de São Caetano) e uma população de idosos bastante inferior. Mas de infraestrutura social e física muito aquém de São Caetano. Até que ponto é possível considerar normal que São Caetano tenha índice de morte por cada grupo de 100 mil habitantes maior que Diadema?  

Os dados mais recentes contabilizam 1.906 mortes por Coronavírus no Grande ABC, de um total de 25.114 no Estado de São Paulo e 101.136 no Brasil. Quando se encaixam os números absolutos no conceito de proporcionalidade por grupo de 100 mil habitantes, o Grande ABC registra 67,11 ante 47,93 do País. Não são dados satisfatórios para a região. E a projeção é de superar a 2,8 mil casos fatais nos próximos tempos. Resultado suficiente para ultrapassar as mortes relativas no Reino Unido e Bélgica, que lideram a contabilidade macabra no mundo. São Caetano e Diadema chegarão bem antes.  

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