Imprensa

Breve manual de fake news
do jornalismo profissional

  DANIEL LIMA - 11/08/2020

O jornalismo profissional nem sempre é flor que se cheire. As corporações mais reluzentes que se juntam para demonizar as redes sociais sabem muito bem que há historicamente todo um arcabouço de artimanhas para dourar a pílula. Por mais que seja verdade que as redes sociais têm sim caudalosos demônios que o regime democrático precisa preservar com o contraponto de que devem merecer atenção judicial, nada exime o jornalismo profissional de gigantescos senões.  

É preciso reconhecer e revelar que não existe apenas jornalismo profissional ético e republicano. Há também série de retalhos que compõem uma partitura bem orquestrada de acomodações semânticas ou descaradas, utilizadas para vender gato por lebre. Se não existia alguém para dizer isso com todas as letras e enunciados, acabou de aparecer. Há, portanto, muito insumo que poderia ser rotulado de fake news no jornalismo profissional.  

O jornalismo profissional também é feito de interesses nem sempre nobres. Autoprotegido corporativamente, os donos do jornalismo profissional que pegam estradas vicinais de espertezas sabem bem o quanto usam o manto da hipocrisia para estabelecer um divisor de águas em relação às redes sociais.  

E se incomodam com contrapontos cada vez mais fluentes de um público cada vez menos exclusivamente consumidor de informação. Agora esse mesmo público também é formulador de informação, quando não crítico combativo de informações de terceiros.  

Qualidade distante  

Claro que o conjunto da obra de produção das redes sociais está longe da qualidade e da matreirice de produção do jornalismo profissional menos profissional do que muitos imaginam. E possivelmente jamais oferecerá algo que seja concorrencial. Menos, claro, se, cada vez mais desmascararem a atuação de jornalismo profissional feito sob medida, de acordo com o gosto do freguês.  

O que se segue é um breve manual detector de modalidades utilizadas pelo jornalismo profissional travesso para se manter no mercado de informação. As redes sociais, até porque dispersas, jamais alcançarão o nível de profissionalismo de quem faz da informação mais que uma vocação à informação, mas o negócio da informação.  

Conheça, portanto, 20 modalidades do jornalismo profissional e suas peripécias. São modelos não necessariamente excludentes. Mais que isso: há elevado grau de porosidade, de transmissibilidade, de contaminação, entre um enunciado e outro.  

 Jornalismo de luva de pelica 

 Jornalismo do faz de conta 

 Jornalismo do conta que faz 

 Jornalismo de dissimulação 

 Jornalismo de confrontação 

 Jornalismo de embromação 

 Jornalismo de engajamento 

 Jornalismo de degustação 

 Jornalismo de descarrego 

 Jornalismo de aconchego 

 Jornalismo de mediação 

 Jornalismo de arremedo 

 Jornalismo de mistificação 

 Jornalismo de subjugação 

 Jornalismo de sofisticação 

 Jornalismo de imprevisão 

 Jornalismo de especulação 

 Jornalismo de bajulação 

 Jornalismo de manipulação 

 Jornalismo de omissão  

Vitrine exposta, agora vamos ao destrinchamento de cada tema. Não custa lembrar que o que se segue é o que chamaria de resumo do resumo de experiência profissional longeva. Colocar cada um dos enunciados no mesmo patamar de escorregadelas, por assim dizer, seria um exagero. Tanto quanto acreditar que tudo o que se vai ler é alucinação. É realidade pura, claríssima.  

Não foi à toa que escrevi em 2003 o livro “Meias-Verdades”. A matéria-prima daquela obra foram textos publicados em vários jornais. O que difere aquele período dos mais recentes, agora de polarização política e ideológica, é a deterioração do ambiente nas redações sob a instrumentalização mais abusada das forças de pressão.  

Forças de pressão também podem ser chamadas de pelotões de financiamento. A mídia em geral atravessa gargalo insano, de quebra contínua do contingente de profissionais de jornalismo e avanço fluvial de agentes de negócios. A digitalização democratizou a informação e a tornou, também, muito mais suscetível a desvarios tanto de profissionais de jornalismo quanto de agentes sociais.   

 Jornalismo de luva de pelica 

Trata qualquer informação de interesse da casa com cuidado de cirurgião cerebral. Não pode haver movimento que coloque em risco as relações construídas com esmero. Palavras são meticulosamente avaliadas. Não pode subsistir nesga de imprecisão. Pão é pão; queijo é queijo. A subjetividade escorregadia com probabilidade de conotação diferente à pretendida é sumariamente atirada no lixo.  

 Jornalismo do faz de conta 

Construir narrativa que leve consumidores à confiança plena é arte que precisa ser bem orquestrada. Se desde o início se publicou que uma coisa é apenas uma coisa, não pode ser outra coisa em seguida, por mais que existam provas em contrário. A credibilidade está em jogo; e quando a credibilidade está em jogo a narrativa manda mais que a verdade dos fatos.  

 Jornalismo do conta que faz 

Parece que esse tipo de jornalismo é redundante em relação ao anterior, de “jornalismo do faz de conta”. Mas não é nada disso. Desta feita o veículo de comunicação defende mesmo determinadas questões que parecem históricas no portfólio de posicionamentos editoriais quando, na verdade, está longe disso. É um atalho na floresta de contradições que exige a repetição inspirada no menino que gritou por socorro apenas para chamar a atenção. A diferença é que o menino estava mentindo sempre, mas quando era verdade ninguém acreditou que se afogasse. No caso dessa especialidade da mídia tradicional, a maioria acredita que sempre é verdade, embora seja sempre mentira.  

 Jornalismo de dissimulação 

Para disfarçar política editorial de sistemático combate a determinada situação que tanto pode ser personalizada num determinado agente público ou numa determinada instituição, é premente que de vez em quando, vez ou outra, uma vez aqui e outra acolá, se divulgue algo que é claramente favorável ao adversário. Tem-se comprovado uma obra tática. Há incautos que a tornam prova provada de que o jornalismo praticado é equânime, republicano.  

 Jornalismo de confrontação 

Faça chuva de mentiras, faça sol de verdades, o que interessa é bater no adversário da vez ou histórico sem dó nem piedade. Nada de contemporização. Há sempre a perspectiva de que por traz de eventual boa notícia para quem não deve ser tratado como porta-voz de boas notícias exista uma brecha qualquer, mesmo que inconsistente, mas sempre de razoável poder bélico, para tornar a informação mais uma vez tóxica.  

 Jornalismo de embromação 

Quando a informação é negativa aos interesses da produção jornalística, nada melhor que temperá-la de modo a adocicá-la, tornando-a espécie de fato comum e, portanto, sem grande impacto. A edição do material é vital. Quanto menos destaque, melhor. O que o jornalismo de embromação não pode fazer e geralmente não faz é ignorar o fato, porque a parcialidade ficará patente demais. Minimizá-lo sim, sempre.  

 Jornalismo de engajamento 

A pluralidade do jornalismo preocupado com o combate a determinados adversários entra pelo cano e simplesmente é desativada dos manuais de redação quando entra em campo o engajamento político e ideológico disfarçado de jornalismo imparcial. Ou seja: quando a pluralidade vai para o chapéu, a ordem unida é fingir-se detentor de equilíbrio no interior do engajamento. Como uma coisa é inconciliável com a outra, mostram-se os fundilhos do jornalismo militante. Que só os cegos ideológicos alinhados à linha editorial não veem.  

 Jornalismo de degustação 

Quando a informação relevante exige desdobramentos em edições seguintes, mas é sumariamente jogada para debaixo do tapete do desinteresse ou do despreparo, eis que temos a possibilidade de morrer de fome após apresentação degustativa. Na maioria dos casos a situação se dá por má fé, gerada pela ração crítica limitada. O jornalismo de degustação é antepasto que sugere lauto jantar que, quase sempre, provoca indigestão causada pela expectativa frustrada.    

 Jornalismo de descarrego 

Quando determinada situação se deteriora entre os lados do balcão do jornalismo de negócios, ou seja, de quem informa e de quem tem importância no jogo da informação, a solução radical geralmente se dá com a sessão descarrego, que consiste em bater para valer, todos os dias, no desafeto. Tudo que estava estocado como suposta reserva de valor informativo vira manchetes. Nesse caso, nem pai de santo dá jeito.  

 Jornalismo de aconchego 

Não existe, nesse caso, risco algum de uma reserva de alto valor informativo saltar para o campo de retaliação. Até que, convenhamos, mereça tal deliberação. Isso quer dizer que o jornalismo de aconchego é parente próximo do jornalismo de descarrego. Tudo é uma questão de detalhe. As armas bem guardadas podem garantir flores para sempre entre as partes. Até que alguém se sinta contrariado. E esse alguém sempre é o lado mais forte, especializado em se aproximar do público em forma de notícia.   

 Jornalismo de mediação 

Quando um veículo de comunicação abre mão da própria personalidade editorial e fica literalmente na mão de terceiros, eis que temos o jornalismo de mediação. Que está mais para média requentada do que para articulação consensual. É preciso errar demais para se perder o poder de fogo de mando de jogo que o jornalismo garante. Ou, então, o veículo estar em início de jornada e depender demais de uma conjunção de agentes para ganhar fôlego. 

 Jornalismo de arremedo 

Essa identidade está entre o jornalismo de aconchego e o jornalismo de descarrego. Para que uma situação não desemboque em outra (ou seja, do aconchego ao descarrego) há um meio de campo relativamente vasto que permite e estimula negociações que desembocam numa espécie de meio-termo que, à semelhança no Centrão em Brasília, sempre apara as arestas.   

 Jornalismo de mistificação 

Vale tudo quando se pretende esculpir uma liderança que supostamente representaria novo paradigma sobretudo no tecido político. Fazem-se acordos nem sempre republicanos. Dá-se destaque a situações triviais. Fabrica-se imagem que não comporta extensão materializável. Ou seja: o que se vê no noticiário não é compatível com tudo que se constata no dia a dia. A ilusão é muito maior que a razão. As pedras no caminho são eliminadas.  

 Jornalismo de subjugação 

Não existe meio termo quando se traça o destino que mais interessa: ou o agente principalmente público se submete ao padrão de jornalismo que vai muito além do que sugerem os mais ingênuos, ou o pau vai cantar. Não se aceita de forma alguma nada que contrarie os interesses do poder midiático em questão. É obedecer ou apanhar. Até obedecer. Tem parentesco com outras tipologias, mas é espécie de pau-de-arara editorial.  

 Jornalismo de sofisticação 

São poucos os veículos que fazem com classe e suposta nobreza o que a maioria impõe pela força e pela grosseria, quando não pela ameaça. Nesse tipo de jornalismo a influência que também pode ser entendida como obediência devido a uma carga inquestionável de diplomacia (praticamente à prova de qualquer desconfiança) é uma raridade que comporta apenas agentes de comunicação resistentes a castigos de retaliação publicitária. As mentiras e as meias-verdades do jornalismo de sofisticação são quase imperceptíveis a olhos destreinados.    

 Jornalismo de imprevisão 

Tudo é possível quando não se tem estrutura sistêmica para orquestrar uma atuação uniforme na relação com agentes da sociedade que fazem parte do noticiário. E nesse caso, como nos demais, sempre prevalece a incidência de participação da classe política. Quando um veículo está aparvalhado com o próprio destino é possível que tudo aconteça, inclusive desaforos surpreendentes em momentos de beijos e ajeitamentos em situações de tapas. O jornalismo de imprevisão é um jornalismo bastardo. Aprendiz de feiticeiro. Mal se dá conta de que está no fio da navalha do caos.  

 Jornalismo de especulação 

Testar permanentemente a fidelidade do outro lado do balcão e, mais que isso, procurar esticar a corda de conveniências, faz parte do receituário do jornalismo de especulação. Há entre as partes constante vocação ao estresse. Mas em muitos casos o estresse é programado, projetado, exatamente para alargar a pista de acordos. O jornalismo de especulação é elástico por natureza e safadeza.  

 Jornalismo de bajulação 

Faça chuva de complicações mais que visíveis, faça sol de eventuais consertos, o jornalismo de bajulação perdeu a capacidade de avaliar o que é bom e o que é ruim no jogo de interesses e, portanto, ao resultado final em forma de credibilidade. Isso significa que tudo vira a mesma maçaroca. Quando se aplaude, independentemente dos ingredientes informativos e críticos, chega-se ao fundo do poço do servilismo. Os leitores demoram, mas sabem que há alguma coisa fora do lugar que merece descrédito. E descarte.   

 Jornalismo de manipulação 

Quanto determinados interesses políticos e partidários, quando situações setoriais da economia não estão bem encaixados, quando improdutivos da sociedade seguem prestigiados, quando tudo isso acontece, o jornalismo de manipulação está mais que consagrado – e desprestigiado. Quando a sociedade sabe muito bem quem são os supostos líderes de atividades importantes, mas o jornalismo de manipulação parece viver no mundo da lua, não existe mais possibilidade de acrescentar credibilidade onde impera desencanto.  

 Jornalismo de omissão 

Há certo parentesco entre o jornalismo de manipulação e o jornalismo de omissão, mas até determinado ponto. O jornalismo de omissão é menos impuro que o outro, porque, o outro, cara de pau, prestigia declaradamente os inúteis e farsantes da sociedade, quando não os mantêm nos respectivos postos, e, mais que isso, os colocam como salvadores da pátria em determinadas situações. Jornalismo da omissão tem a vantagem de não ser tão cara de pau, porque lhe resto a humildade do constrangimento.

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