Sociedade

Vírus: risco de morrer na região
é 3,5 vezes maior que em presídio

  DANIEL LIMA - 03/09/2020

O leitor está convidado, quando não convocado, a elucidar esse enigma (enigma mesmo?): por que morre três vezes e meia mais gente no Grande ABC do que no sistema penitenciário brasileiro em consequência do vírus chinês?  

Essa é a pergunta-âncora de questionamentos que faço de forma séria, mas também com certo caradurismo, embora a atmosfera nacional não recomende um passo além da discrição de comportamento quando se trata dos estragos do Coronavírus, esse bicho feio do qual fujo como o diabo da cruz.   

Será que o leitor encontrará explicações e justificativas que deem conta desse suposto enigma? Um suposto enigma que se torna ainda mais desafiador quando destrinchamos o território regional e encontramos São Caetano como extremo negativo de casos letais do Coronavírus.  

São Caetano pior  

Quando se colocam os dados de São Caetano frente aos números dos presídios brasileiros, o resultado é ainda mais constrangedor.  

A possibilidade de o vírus chinês fazer baixas na cidade de melhor qualidade de vida da região e um dos pontos mais destacados na Região Metropolitana de São Paulo é nada mais nada menos que 4,67 vezes. Acima, portanto, das 3,5 vezes do Grande ABC. 

A contabilidade regional no ranking do vírus chinês é dramática. Colecionamos até ontem 2.277 casos letais que, divididos pela população de pouco mais de 2,8 milhões de habitantes, registra o índice de 81,10 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes. Esse é o padrão internacional e de bom senso para avaliar o estágio dos problemas.  

Brasil muito pior  

Fosse o Brasil o Grande ABC, o Jornal Nacional de hoje abriria manchete com 172 mil mortes. Bem mais do que foi anunciado ontem. Se São Caetano fosse a regra, o desastre seria ainda mais retumbante. Contaríamos hoje no Jornal Nacional 226 mil mortes por Coronavírus no País.  

Já se o comportamento letal do vírus chinês no território nacional obedecesse à fluência do vírus chinês no sistema presidiário brasileiro, contabilizaríamos no Jornal Nacional de hoje bem menos casos letais: 48.484.  

Alguém poderia sugerir que pelo menos uma vez na história o Brasil seria melhor se todo mundo estivesse trancafiado por decisão do Judiciário do que supostamente contingenciado em forma de isolamento social por determinação de governantes que já entregaram a rapadura na oposição entre Saúde e Economia.  

Rumo ao topo  

Os números do Grande ABC estão muito acima de tantas outras regiões do Estado e do País, e, no confronto com o sistema prisional, com mais de 800 detentos e servidores, apanhamos feio porque são até agora 183 casos letais. Na divisão pela população carcerária o índice não passa de 22,87. Em São Caetano são 106,83 casos letais para cada grupo de 100 mil habitantes, enquanto em Santo André são 75,14, e em São Bernardo 93,44.  

A diferença entre Santo André e São Bernardo também é fomentadora de interrogações, como já o fiz aqui. Como podem cidades vizinhas acusarem distinção tão pronunciada de letalidade do vírus chinês?  

Quem mora em São Bernardo tem 20% mais de risco de morrer do que quem mora em Santo André. E olhem que São Bernardo, segundo estudos recentemente divulgados, conta com melhor infraestrutura sanitária que Santo André.  

Produtividade silenciosa?  

Tem gato nesse canil. Alguém anda trapaceando nos registros ou há insumos insondáveis que mereceriam o chamamento do Fantástico. O que gera admiração é o marquetismo inveterado da gestão Paulinho Serra não tomar nenhuma iniciativa para cantar em prosa e verso a suposta produtividade de enfrentamento.  

É claro que o perfil da população carcerária é diferente da média dos moradores do Grande ABC e, sobretudo de São Caetano. Há mais jovens e menos idosos nas penitenciárias. Há mais homogeneidade de classes sociais, com menos incidência de ricos e de classe média tradicional e, também, maior densidade de pobres e miseráveis. Tudo isso ajuda e explicar a situação. Mas seriam indicadores suficientes a estabelecer tantas diferenças? 

E os pontos negativos de quem está trancafiado e cumpre confinamento no sentido mais extremo do verbete, em relação a quem mal cumpriu o chamado distanciamento social entre os que estão na sociedade regional?  

Confinamento prisional tem sentido muito distante de isolamento social. Ninguém gostaria de ficar trancafiado obrigatoriamente e, mais que isso, isolado do mundo, mas em meio a um amontoado de parceiros de crimes. Um flagrante colhido nas prisões é suficiente para impor legenda obrigatória que remeta ao sofrimento implícito de tanta gente em tão pouco espaço.  

É muito difícil escrever sobre o que separa os dois mundos quando a epidemia está no centro do debate. O jornalismo destes tempos ainda não produziu nada que fosse substantivo quanto à vida nos presídios brasileiros.   

Manchetíssima discutível  

Os protocolos, sei disso, são seguidos rigorosamente, mas é pouco provável que qualquer planejamento técnico-científico por si só resista a uma característica que estimularia muito mais letalidade nas prisões: o desafio à física de que dois corpos sólidos não ocupam o mesmo espaço. Nas prisões, o buraco é muito mais embaixo e o nível educacional também é suscetível a desobediências com o cuidado pessoal como, por exemplo, o uso de máscaras.  

Fosse este jornalista espetaculoso e procurasse manchetíssima a qualquer custo (tanto quanto alguns economistas locais loucos por ocupar os jornais com previsões estarrecedoras sobre os efeitos do vírus chinês), teria rasgado aí em cima um título mais ou menos alarmante. Algo como: “É melhor ir para a cadeia do que morar no Grande ABC em tempos de vírus chinês”.  

Os maledicentes de sempre vão dizer que foi o que mais ou menos sugeri, quando não induzi, com o título escolhido lá em cima. Sou obrigado a concordar não com a carga de admoestação ética que estaria embutida no julgamento, mas com a inevitável remissão à mensagem provocativa.  

E os leitores haverão de entender que não existe saída diplomática para produzir um título que reflita tudo o que se passa com clareza ao ponto que chegamos. Os indicadores demonstram claramente que é mais arriscado morrer de Covid fora da prisão do que na prisão no Grande ABC.  

Independemente da comparação, mesmo que supostamente insensata, o fato irretorquível é que a saúde do Grande ABC foi abatida pelo vírus chinês em grau muito mais agressivo do que na maioria dos municípios e de regiões brasileiras. Estamos caminhando celeremente ao topo do mundo, como antecipamos aqui há muito tempo.  

Distanciamento crítico  

Só existe algo pior que isso e isso precisa ser dito e repetido: a situação está tão fora de controle no sentido de agressividade comparada, que não se deve perdoar ou negligenciar a derrota dos mandachuvas e mandachuvinhas da região, incluindo-se na lista a grande maioria dos veículos de comunicação impressos e digitais. 

Todos estão no mesmo barco de descaso crítico com o andar da carruagem. Tratam o quadro regional burocraticamente. Medidas reativas não servem quando a prerrogativa impõe ações preventivas.  

Não contamos com confinamento prisional e tampouco com isolamento social democrático e responsável. E não existe garantia alguma, como está provado, de que a alternativa de distanciamento social resolveria a questão, porque ninguém é uma ilha.  

O Brasil como um todo e o Grande ABC particularmente erraram ao não uniformizarem medidas recomendadas por especialistas que desprezam a política. Testagem, testagem e testagem, eis a palavra-chave que, provam os profissionais da área, jamais se efetivou no nível adequado e sobretudo com ferramentas seguras.  

Talvez os presídios brasileiros tenham tido essa resposta focalizada e por isso mesmo resolutiva.

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