Esportes

Jurandir Martins, mais um
Craque do Rádio a ir embora

  DANIEL LIMA - 07/09/2020

O repórter esportivo Jurandir Martins vai fazer muita falta nos embates fora de campo, especialidade que cultivou como poucos durante décadas no Grande ABC. Integrante da mais ajustada, brilhante e comprometida equipe esportiva de rádio da história da região no século passado (os Craques do Rádio, que empunhavam os microfones da Radio Diário do Grande ABC), Jurandir Martins resolveu ir embora na madrugada de uma segunda-feira que só tem futebol porque o calendário estadual e nacional virou uma loucura.  

Jurandir Martins era um gaúcho de times em todos os Estados brasileiros, mas sua paixão real e consolidada estava fincada no Grande ABC. Esse santista, flamenguista e colorado, entre tantos distintivos de quem jamais ficava sem triunfos nos finais de semanas, não era alguém com quem interlocutores principiantes se encantassem. Demorei uma vida inteira para conhecer o Jurandir Martins que se escondia no dia a dia profissional. O Jurandir Martins sem microfone, sem logomarca. O Jurandir Martins gente.  

Vivi Jurandir Martins no passado e no presente. Fácil na tradução da trajetória da bola, dos jogadores e de comissões técnicas durante os jogos, sempre como repórter volante que chegava ao atrevimento pouco comum com que a mídia trata esses protagonistas e coadjuvantes do futebol, Jurandir Martins era espécie de caixa-preta pessoal.  

Perdas cumulativas  

Uma caixa-preta no bom sentido, claro. Uma caixa-preta que pude conhecer de perto nos últimos anos, quando nos aproximamos. Jurandir Martins era prestativo, comprometido com qualquer iniciativa a que tenha se proposto.  

O lado humano de Jurandir Martins, suas preocupações, suas inquietações, tudo isso pude mensurar. Jurandir Martins falava pouco, preocupava-se com a doença que começara a devastá-lo. Os rins e a próstata já davam sinais de alerta.  

Jurandir sentiu na pele a distância que separa o profissional e o pessoal. Levou ao longo dos anos muita emoção aos torcedores de futebol da região. E viveu quase que num mundo particular de enclausuramento nos tempos finais, embora se mantivesse ativo em transmissões online.  

Não lhe faltaram amigos, mas os amigos aos poucos também foram embora. Tanto quanto os entrevistados.  

Ainda outro dia foi José Vicente Guerra. Antes, Valdir Cartola. Também Felipe Cheidde. E o meia-atacante Coppini. Jairo Livolis. E outros mais, também. De várias modalidades esportivas.  

Mulheres bonitas  

Jurandir Martins recordava momentos do basquetebol feminino da região com a sensibilidade de quem parecia saber adestrar o tempo. Simone, a grande cantora, lembrava Jurandir Martins, fora atleta de basquetebol em São Caetano, onde a conhecera. Jurandir Martins era um apreciador especial de mulheres bonitas. Destrinchava cada uma delas em detalhes sem que parecesse desrespeitoso.  

Os amigos que restavam a quem completaria 76 anos em 15 de outubro já não têm a mesma saúde e disponibilidade de antes. Viver é morrer a cada dia, sabia Jurandir Martins.  

Mas, nem mesmo nos últimos dias antes de dar entrada no Hospital de Clínicas, a pedido do prefeito Orlando Morando, Jurandir Martins emitia sinais de desesperança. Tampouco se sentia esquecido. Já andava cambaleante, já perdera muito peso, mas lá estava Jurandir Martins a interessar-se por um jogo das equipes da região.  

A Vila Belmiro também era um destino natural. A paixão pelo Santos de Pelé sempre se manifestava, como em todos os santistas do planeta, quando a realidade de eventuais tropeços destes tempos, o colocava em xeque numa discussão. Pelé é o coringa que liquida com qualquer desvantagem santista. Jurandir Martins o utilizava sempre. Quem não o faria se tivesse tido a sorte de ver Pelé com a camisa de sua preferência? Os olhos de Jurandir Martins brilhavam.  

Coração dividido  

Jamais consegui entender até que ponto Jurandir Martins seria mais santista que o Jurandir Martins do primeiro amor chamado Internacional de Porto Alegre. Nunca lhe perguntei sobre o coração dividido quando as duas equipes se enfrentavam.  

Mas Jurandir Martins nem sempre ganhava as disputas a que se lançava com sofreguidão. Era contraditório porque o futebol é feito de pontos e contrapontos que se enroscam, que se esgarçam. E que, contraditoriamente, se amarram.  

Jurandir Martins não esquecera jamais a derrota do Brasil na Copa do Mundo de 1950. Carregava o coração esportivo de restrição a goleiros negros. Não que fosse racista, claro. Era apenas um opositor atávico às virtudes de Barbosa, um goleiro negro.  Diante da lembrança de que outro negro, Dida, multicampeão, fizera tanto sucesso, Jurandir Martins concordava. Jurandir Martins não era racista. Era prático.  

Colegiais na estrada  

Jurandir Martins vai fazer muita falta porque as lembranças do passado assaltam e nos dão conta do tempo em ritmo de fumaça. Quantas vezes viajamos juntos, eu e companheiros dos Craques do Rádio, numa mesma Kombi rumo ao Interior do Estado? Acompanhamos nos anos 1970 os jogos principalmente do Santo André.  

As horas de viagem pareciam menos longas e cansativas. Jurandir Martins as animava com trocadilhos de sempre. A gente achava graça e participava também. Eram frases expostas ao desafio da complementação. Eram pegadinhas. Geralmente com uma palavra de baixo calão. Assim nos divertíamos na estrada.  Parecíamos colegiais em excursão. Quando comprei uma cítara numa viagem, até o calado Rolando Marques, um monstro de narrador esportivo, perdeu a fleuma. Mas demonstrou certa irritação quando me meti a dedilhar acordes com a destreza de um hipopótamo. Jurandir Martins zombava.  

Conheci Jurandir Martins de verdade nos últimos anos. As equipes de esportes do jornal Diário do Grande ABC e da Radio Diário do Grande ABC eram próximas, mas não íntimas. Nos juntávamos quando das viagens em veículo único. No dia a dia os encontros, principalmente com Jurandir Martins, eram casuais. Nos treinamentos das equipes.  

Talvez o que fará mais falta nos dias que virão é acreditar que encontraremos Jurandir Martins num estádio de futebol da região. Já não tenho comparecido muito, porque a televisão nos acomoda, mas havia sempre a perspectiva de um telefonema dele em forma de pedido de carona caso um jogo estivesse na minha agenda.  

Despedida programada  

Fui-me preparando para a despedida de Jurandir Martins. Sabia que a gravidade limitava seu tempo de vida. Procedimentos indispensáveis ao enfrentamento do Coronavírus, que o colheu nos últimos dias de internação, já não eram necessários. A contagem do tempo para Jurandir Martins passou a obedecer a um ritual de conforto possível, de quem vai embora sem sofrer tanto fisicamente.  

O zagueiro-central das peladas de radialistas e jornalistas já não tinha forças para responder aos medicamentos. A devastação física caminhava célere. Os pulmões foram invadidos pela metástase dos rins e próstata.

Dirce, a mulher que o acompanhava há décadas, sentia que estava chegando ao fim parceria discreta de um radialista e uma costureira de mão cheia.  

Jurandir Martins se junta a Rolando Marques, Oswaldo Lavrado, Agapito Assumpção e a Aristides Vital na transmissão de grandes jogos da região numa estratosfera especial da qual ninguém escapará.  

Passado e futuro  

Jurandir Martins descansou numa segunda-feira que não deveria ter um jogo sequer de futebol na região. Foi-se embora um gaúcho teimoso, pouco afável a quem só o enxergava com a envelopagem profissional. Foi-se embora alguém que jamais teve marketing pessoal suficiente para demonstrar aos menos próximos que não era o bicho-papão de poucas palavras e certo enfado. Jurandir Martins era diferente. No fundo, era um tímido com saudade eterna do Rio Grande do Sul, espaço que jamais abandonara. A cultura gaúcha jamais saiu de Jurandir Martins.  

Santos, Santo André, São Bernardo, São Caetano, Internacional, Flamengo e tantos outros times perderam um grande torcedor. O mais múltiplo dos torcedores. A síntese de quem viveu uma vida esportiva como poucos.  

O muitas vezes carrancudo Jurandir Martins era melhor do que parecia. Esse foi o Jurandir que conheci nos últimos anos. O outro era apenas um ensaio do futuro que chegou. E terminou hoje.  

Exatamente hoje, uma data emblematicamente nacional, de Independência do Brasil. Uma homenagem perfeita para quem enxergava o futebol brasileiro sob ótica muito especial – a ótica de que o concubinato esportivo como um clube em cada Estado não era um crime de lesa-coração. Era uma prova de resistência – e também de esperteza -- à própria paixão única.  

“É de bola na rede que o povo gosta”, era o mote mais famoso de Jurandir Martins, entoado a cada jogo em que não se registrava placar em branco.  Para ele, o zero a zero era uma probabilidade escassa. O multiclubismo garantia alegria sempre. Não bastasse torcer por Pelé. 

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