Política

Até que ponto Grande ABC é
uma zona cinzenta eleitoral?

  DANIEL LIMA - 08/09/2020

O jornal Reporter Diário, versão TV, ouviu dois chamados cientistas políticos instalados no Grande ABC. Um (Ivan Fernandes) da Universidade Federal do Grande ABC (Ufabc), outro (Fernando Luiz Monteiro) da Universidade Municipal de São Caetano (USCS). Supostamente falariam sobre eleições na região. O programa tornou-se frustração. Mais uma prova da ausência de regionalidade em tantas modalidades. Os especialistas apenas tatearam o que seria a pauta do programa. Nenhuma surpresa, portanto.  

Tanto um quanto outro passaram o tempo quase todo metendo o pau no presidente Jair Bolsonaro. Como todo acadêmico que enxerga apenas metade do copo com água. A outra metade é esquecida porque a maioria dos acadêmicos tem engajamento ideológico congelante. E também condenatório. Contrapontos são heresias. Parece haver um código de honra corporativo, de classe, que manda o seguinte recado: pau no homem; não interessa até que ponto o pau é justo ou exclusivo.  

As pesquisas de diversas fontes, inclusive de fontes viciadas, estão aí para provar que as trapalhadas de Jair Bolsonaro têm impacto menos intenso no gosto popular do que muitos imaginam. Um terço da conta é dele. Os dois terços restantes são debitados a outros agentes públicos. Governadores, prefeitos, Supremo Tribunal Federal.  

E as eleições municipais?  

Ouvi dos dois especialistas argumentos com os quais concordo e argumentos dos quais discordo. Mas isso é o de menos. O que me deixou frustrado mesmo foi não ouvir quase nada sobre as eleições municipais na região. Eles se prenderam a capitais de Estados, que é outro mundo.  

Mas num ponto um e outro eles foram enfáticos, principalmente o representante da USCS: os prefeitos do Grande ABC seriam beneficiados nas eleições com o andar da carruagem de fogo do vírus chinês.  

Sem entrar em detalhes e sem grandes incursões explicativas, têm eles o desfecho favorável aos incumbentes atuais. “Incumbentes” é um termo horroroso. Foi utilizado pelo representante da Ufabc.  

Não compartilho com a opinião deles sobre o saldo positivo dos prefeitos do Grande ABC. Os números relativos estão aí. Estamos entre os piores rankings de letalidade no mundo. Mas isso é outra história.  

Zona cinzenta mesmo  

Ao ouvir atentamente os dois especialistas, cheguei a uma conclusão à qual há muito tempo desconfiava que chegaria um dia a expressaria sem temores. Trata-se do fato de que, considerada a vulnerabilidade temporal de qualquer emissão de juízo de valor sobre eleições na região, vivemos num mundo particularmente sob a penumbra da Capital. Uma zona cinzenta nos colhe.  

Há grau inquietante de que ficamos a reboque da mídia da capital tão próxima. Não por ser tão próxima, mas porque não temos mídia de massa num horário eleitoral remunerado, por exemplo. Diferentemente, portanto, de tantas regiões do Estado abastecidas por redes de televisão abertas. As condições topográficas não nos ajudaram na distribuição espacial.  

Somente uma pesquisa comportamental muito bem-feita, sem vieses malandros, sem pressa, sem escassez de dados, poderia diagnosticar até que ponto o eleitorado do Grande ABC está preso a formulações externas no ambiente político e, portanto, permeável a sequestramentos de opinião.  

Cidadania dividida  

Além de não se apresentar sequer como puxadinho direto da disputa na Capital do Estado, cujas transmissões em televisão aberta inundam o período de disputas eleitorais na região, há outro vetor a ser avaliado como deletério ao regionalismo da agenda.  

Temos de enfrentar o esvaziamento de cérebros da população economicamente ativa que passa ano, entra ano, mais se desloca ao principal centro de desenvolvimento econômico e intelectual do País.  

São Paulo é uma vizinha econômica desleal porque exerce atratividade semelhante à desesperança por postos de trabalho com qualidade no Grande ABC. A doutrina industrial da região jamais conciliou dupla de valor com atividades de serviços. Diferentemente do que se vê na Capital.  

Contamos, portanto, com dois obstáculos ao encaixe preciso e certeiro na apuração da qualidade de voto nos municípios da região nas eleições para prefeito: a invasão televisiva que nos rouba a atenção e metropolitiza, quando não nacionaliza, temáticas, e a evasão de cabeças pensantes que, de fato, só vivem o Grande ABC aos sábados e domingos e, mesmo assim, sem a interação social desejada, porque, no fundo, todos passam a ser espécies de cidadãos locais pela metade.  

Qualidade do voto  

Quando me refiro à qualidade de voto é importante explicar do que se trata. Não é o voto qualitativo em qualquer sentido que o leitor possa inferir, sobretudo elitista. Qualidade de voto específica do Grande ABC é o voto com tessitura municipalista em primeiro plano e, menos ambicioso, o voto regionalista.  

O que quero dizer com isso, insistindo na tentativa de dar didatismo à expressão, é que somente uma pesquisa séria detectaria até que ponto o voto num determinado candidato a prefeito teria o mesmo município como foco principal, levando-se em conta questões estritas ou mais amplas, e convergentes, do dia a dia em que vive.  

Esta não é a primeira nem será a última vez que enveredo por nuances de votos do eleitorado do Grande ABC. O tema é instigante e por isso mesmo jamais poderia ser omitido por qualquer cientista política com endereço de atuação na região.  

Não diria que é imperdoável, porque cada um observa a região e o que mais entender conforme desejos e conhecimentos, mas que aquele programa de TV do Reporter Diário deixou a desejar como fonte de inspiração, disso não tenho dúvida. 

Aliás, o formato em si do que supostamente seria um debate de ideias não pareceu adequado. Afinal, juntaram na tela dois acadêmicos com praticamente o mesmo parecer geral sobre o que se passa no Brasil. Sem antagonismos que pudessem, ao menos no campo da política estadual e nacional, oporem pontos de vista instigantes.  

Medição de força  

Houve na verdade uma medição de força intelectual para definir o quanto o presidente da República é nefasto, sobremodo no caso do vírus chinês. Nada mais impreciso, porque, como disse, as pesquisas estão aí para democratizar responsabilidades.  

Até prova em contrário (e isso só seria possível com embasamento científico da tal pesquisa sugerida), o Grande ABC é sim uma zona cinzenta eleitoral nestes tempos em que as mídias sociais tomaram o protagonismo dos veículos convencionais da Imprensa.  

O peso relativo das redes sociais avança claramente, mas também há grande interrogação a contemplar seus efeitos: dada a barafunda organizacional das redes sociais, é possível acreditar que o resultado da algazarra informativa traga segurança de opinião aos eleitores nas disputas municipais?  

Vou tentar traduzir a equação: os grupos organizados nas mídias sociais claramente divididos entre direitistas e esquerdistas sempre mais ativos no volume de opiniões vão manter a identidade ideológica nas eleições municipais?  

Creio que em larga escala que sim. Mas, como em tantas outras situações postas pela política como ciência, entendo que há mais intuição do que qualquer outra coisa nessa avaliação. E os desdobramentos disso? A pergunta está relacionada à exposição de ideologias sob pressões da mídia tradicional, sobretudo a televisão, na campanha eleitoral na Capital. O quanto o efeito-carona impactará a região?  

O Grande ABC é mesmo uma zona cinzenta na disputa eleitoral municipal destes tempos tão convulsivos. Os fatores municipais perdem força, mas não se deve afirmar em hipótese alguma que deixaram de ser preponderantes na hora do voto.  

Vamos especular mais sobre isso. Uma decisão jornalística bem mais interessante, acredito, que ouvir dois acadêmicos militantes que não fizeram uma referência sequer ao assunto. Acho que eles não são do planeta Grande ABC. Apenas estão no planeta Grande ABC.

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