Administração Pública

MP coloca Fundação do ABC
no organograma de crimes

  DANIEL LIMA - 09/09/2020

A Fundação do ABC, riquíssimo conglomerado de saúde administrado pelas prefeituras de Santo André, São Bernardo e São Caetano, está na rota de investigações da Polícia Federal, na esteira do escândalo que estourou na semana passada em Mogi das Cruzes. Finalmente surge no horizonte uma luminosidade que retiraria a Fundação do ABC da zona de completo breu institucional.  

Nada mais apropriado para estes tempos de vírus chinês, que colocam o Grande ABC entre os piores endereços de letalidade no mundo. Aqui morre muita gente. Mais que a média do Estado e do País. Mais que a média da maioria quase absoluto de endereços fundo afora.  

Tudo isso e muito mais diante da complacência generalizada de autoridades públicas e da sociedade desorganizada. As ilhotas de inconformismo se calam diante de pressões de todas as espécies. Inclusive físicas.  

Organização criminosa  

Há uma relação muito íntima, um concubinato institucional, entre a Fundação do ABC e pelo menos um dos vereadores, entre os quatro (e os três empresários) presos pela Polícia Federal na última sexta-feira em Mogi das Cruzes.  

A Fundação do ABC terá dificuldades de contornar a gravidade de um problema que vem de longe, mas que até agora tem resistido a operações policiais agudas.  

O organograma da chamada “organização criminosa” desenhado pelo Ministério Público Estadual, poderá enfeitar redutos eleitorais de oposição principalmente ao prefeito Paulinho Serra, que controla a casa da moeda da Fundação do ABC, no caso a Central de Convênios. Que também é Central de Negócios.  

A chamada Central de Convênios é administrada por mandachuvinhas indicados pela gestão do prefeito de Santo André. Um departamento praticamente autônomo na estrutura corporativa da Fundação do ABC. Um gueto que levou a instituição a constar da genealogia do crime organizado. A identidade da Fundação do ABC está registrada no organograma da denúncia do Ministério Público Estadual de Mogi das Cruzes. 

E está diretamente relacionada ao vereador Francisco Bezerra, o Chico Bezerra, um dos vereadores presos em Mogi das Cruzes. O contrato entre a Fundação do ABC e a Secretaria de Saúde de Mogi das Cruzes foi assinado durante a gestão de Chico Bezerra, então titular da pasta.  

Relações incestuosas 

As relações entre a Fundação do ABC e Mogi das Cruzes são mais profundas do que se imagina. Nos próximos dias vamos perscrutar mais informações substantivas.  

Um dos pontos-chaves que deverá deslocar forças-tarefas do Ministério Público Estadual e da Policia Federal ao Grande ABC, mais precisamente a Santo André por conta de contratos emergenciais sem licitação entre a Fundação do ABC e a São Francisco Serviços Médicos. São mais de R$ 50 milhões nos últimos meses.  

Não são contratos comuns. Ainda recentemente escrevi sobre os resultados da parceria da Fundação do ABC com uma rede de fornecedores de produtos e serviços. A auditoria externa contratada pela presidente da instituição, Adriana Berringer, à revelia da Central de Convênios, constatou barbaridades. A São Francisco está em situação proeminente em irregulares. Contou com porteira aberta nos contratos. Outras empresas menos votadas também. 

Show de horrores  

A pandemia foi um show de horrores legais na Fundação do ABC. E em Mogi das Cruzes também. Tudo sob o mesmo comando, na Central de Convênios da Fundação do ABC. Comandada por homens da gestão tucana em Santo André.   

Ao que tudo indica não haveria porta de saída à Fundação do ABC no desdobramento regional da quadrilha identificada e parcialmente presa em Mogi das Cruzes. Gradualmente (até porque temos informações e documentação exclusivas) vamos revelar o entranhamento entre as duas porções da mesma laranja de irregularidades. Uma laranja que não tem metade apodrecida e metade ainda a salvo. A laranja é integralmente podre. A denúncia do MP é estarrecedora. As prisões são definidoras. 

Para que não se coloque no saco de gatos de trivialidades o escândalo de Mogi das Cruzes com extensão ao Grande ABC, o noticiário mais recente sobre o destino de vários dos envolvidos não é nada amistoso.  

Prisões em Mogi  

Os quatro empresários e assessores da Câmara de Mogi das Cruzes presos na semana passada foram transferidos ontem para o Centro de Detenção Provisória (CDP) na cadeia de Mogi. Já os quatro vereadores que estão na cadeia pública devem ser levados para o presidio de Tremembé, no Vale do Paraíba. As informações constam do site do G-1, das Organizações Globo.  

A Policia Civil informou que, na cadeia de Mogi, os suspeitos ficaram em uma cela especial coletiva e não estão recebendo visitas. Os transferidos são Carlos César Claudino de Araújo, empresário e irmão de Mauro Araújo, apontado pelo Ministério Público como o operador financeiro do esquema; os empresários Joel Leonel Zeferino, Willian Casanova, do ramo da construção civil e também funcionário da Câmara; e André Alvim, conhecido como Gordão, assessor do vereador Diego de Amorim Martins. Matos foi preso no sábado. O vereador Antônio Lino segue foragido, assim como o empresário Pablo Nogueira, filho do vereador Francisco Bezerra. Também não foi cumprido um mandado de prisão de um empresário que não teve a identidade revelada. Francisco Bezerra continua em prisão domiciliar por causa de problema de saúde.  

Passado recomenda 

Havia muito tempo a Fundação do ABC exigia de autoridades legais mais que voyeurismo investigativo. Há sinais históricos de que uma instituição que movimenta quase R$ 3 bilhões de orçamento a cada temporada mereceria atenção especial. O modelo gerencial da Fundação do ABC, no qual se destina a organizações políticas o controle autárquico do cofre chamado Central de Convênios, subverte a lógica corporativa. E a lógica corporativa diz que o dirigente máximo da instituição, em forma de presidente, não pode ser ignorado nas tomadas de decisões. E é o que se deu e está se dando na gestão de Adriana Berringer.  

Poucos poderiam imaginar que a Fundação do ABC seria atingida por um tiroteio de malandragens e roubalheiras a menos de 100 quilômetros de distância. A operação “Legis Easy” faz parte de uma investigação da Promotoria do Patrimônio Público de Mogi das Cruzes e envolve, ao todo, 12 mandados de prisão, dos quais nove já foram cumpridos. A investigação aponta que os empresários compravam apoio para aprovar leis encomendadas por eles.   

Corrupção na Câmara 

De acordo com a promotoria, a investigação aponta corrupção na Câmara e em contratos com a Secretaria Municipal de Saúde de Mogi das Cruzes e o Serviço Municipal de Águas e Esgotos (Semae). Cruzamentos de dados entre conversas de Whatsapp, documentos e quebra de sigilo bancário levaram a Promotoria a identificar três empresas usadas para lavar dinheiro e quem eram os beneficiados pelos repasses financeiros.  

Segundo o Ministério Público, a investigação em Mogi das Cruzes aponta as empresas WA, de Mário Araújo; a MLC do irmão dele, Carlos César Claudino de Araújo; e a Casanova Mix, uma empresa da área de matérias de construção de Willian Casanova. As empresas repassavam dinheiro a outros vereadores.  

O que mais interessa diretamente ao Grande ABC -- e particularmente a quem coloca a Fundação do ABC na alça de mira -- foi registrado na Secretaria Municipal de Saúde de Mogi das Cruzes. Quando o vereador Francisco Bezerra, agora em prisão domiciliar, era secretário da pasta, contratou a Fundação do ABC para gerir o Hospital Municipal de Brás Cubas. A Fundação do ABC contratou a empresa (São Francisco) do filho do então secretário, Pablo Bezerra, para gerir um equipamento de saúde em Santos. O MP detalhou, segundo informação do G-1, que o dinheiro foi desviado pela empresa de José Pedro Beraldo, que já morreu. O contrato segue valendo. O dinheiro vinha do Semae, mais uma vez passava pelo vereador Mauro Araújo, que repassava aos outros vereadores.  

Leia mais matérias desta seção: