Imprensa

30ANOS: um bailarino que
fez história em Santo André

  DANIEL LIMA - 15/09/2020

O Grande ABC cultural perdeu em outubro de 2018 uma referência artística com a morte de Ruslan Gawriejuk. Dezoito anos antes, a jornalista Tuga Martins escreveu a biografia do ucraniano radicado em Santo André. O texto ocupou duas páginas da revista de papel LivreMercado.  

Trazer às páginas de uma publicação fortemente econômica, mas não apenas econômicas, gente de todas as esferas da sociedade regional era uma das especialidades de LivreMercado. Havia a premissa de que sem passar pela publicação, seria mais difícil concorrer ao Prêmio Desempenho, realizado durante uma década e meia e que contemplava pessoas físicas e jurídicas, além de gestores públicos. 

Esta é a centésima-trigésima-segunda edição da série 30ANOS do melhor jornalismo regional do País, uma junção dos 19 anos de circulação de LivreMercado e os atuais 19 anos de CapitalSocial.   

Coreografia de

um sonhador  

 TUGA MARTINS - 05/03/2000 

Nome de origem ucraniana e pronúncia difícil, Ruslan Gawriejuk não causaria espanto se fosse visto estampado em cartazes de grandes companhias de balé ao redor do mundo. Mas a sina desse homem de 60 anos, nascido em Odessa, meio polonês e meio russo, insiste em estar nas fileiras de quem batalha em busca de um sonho -- uma escola de talentos. Esse é o desafio que o professor e bailarino Ruslan persegue incansável. "No Brasil falta espaço para aprimoramento de artistas natos. E sem espaço especial não temos como levar os alunos ao topo do topo" -- lamenta.  

A escola idealizada reuniria bons professores de dança, música e canto nos moldes do Metropolitan americano ou do Bolshoi soviético. Formaria alunos aptos a pisar em palcos de porte internacional e não apenas a participar de poucos concorridos festivais. O que falta? Recursos, já que disposição Ruslan tem de sobra. 

Com os pés novamente na realidade, o professor enfrenta o ritmo descompassado das mudanças de costumes. Chora pelo fato de a dança não ocupar mais posição de destaque na educação de crianças e adolescentes. Há 40 anos em Santo André, a Academia de Ballet Ruslan não anda bem das pernas. Os alunos não passam de 45, quando houve tempos em que acolhia mais de 150. O fato não chega a desequilibrar o experiente bailarino. "Importante aqui é que procuro valorizar o jovem que queira estudar a dança, que demonstre interesse pela arte" -- diz Ruslan, um dos primeiros professores de balé do Grande ABC.  

Família de artistas  

Ruslan chegou a Santo André com 13 anos. Aos 10 desembarcava em solo brasileiro junto com os pais atraídos pela colônia de imigrantes instalada na Vila Zelina, na Capital, divisa com a região. "Toda a família é de artistas" -- alardeia. O tio Leonid Urbeni foi maestro da primeira formação da Orquestra Sinfônica de Santo André, da qual Ruslan participava com violino. O instrumento é companheiro inseparável nas jornadas culturais que promove. "Faço shows com música ao vivo" -- empolga-se o professor, que se desdobra nas produções que assina. Cria o espetáculo, monta a coreografia, desenvolve a trilha sonora e corre atrás de palcos para abrigar sua arte. "Toco violino, canto e danço" -- afirma. 

Às vésperas do golpe militar de 1964 que emudeceu o País, Ruslan deslizava pelos palcos como membro do Corpo de Baile do Teatro Municipal de São Paulo. Não sentiu as pressões da ditadura. Sequer foi perseguido em razão da nacionalidade. Na trilha sobre sapatilhas integrou o Ballet Paulista e Ballet São Paulo, onde dividiu experiências profissionais com Marika Gidali, do Ballet Stagium. Apesar de insistir que não gosta de política, tampouco de políticos, o professor recorda com ânimo do apoio dado pelo então presidente Jânio Quadros ao Ballet 4º Centenário. "Nossos dançarinos já tinham estrutura para exportar o balé brasileiro. Tínhamos qualidade de ponta" -- diz Ruslan. 

Esse trecho da história da arte não conta com gran finale. Ao contrário -- o fim foi drástico. Ninguém sabe ao certo o que motivou a dissolução do corpo de baile que tinha até agenda contratada no Exterior. Os remanescentes foram para a Companhia Paulista de Ballet. Nesse período, Ruslan incorporou a dança nas entranhas. Interpretou Don Quixote, Lago dos Cisnes e outros clássicos. Descobriu talento para partner (par) e depois de experimentar a tradição optou pelo estilo neo-clássico. "Tenho paixão pelo folclore" -- justifica.  

Estúdios de televisão  

Integrou a Cia. de Ballet do Rio de Janeiro, da qual herdou a garra e obsessão pela arte de Eugênia Fiadora, com quem incursionou por todo o País. Além dos palcos, levou o balé para os primeiros estúdios brasileiros de TV. Respondia por quadro ao vivo no programa do apresentador Abelardo Figueiredo na TV Tupi. "Apresentávamos peças completas" -- diverte-se, não escondendo que deixou de receber muitos cachês da falida TV Excelsior. 

De Santo André o professor guarda as façanhas do Teatro Alumínio, que iniciou nas artes cênicas Antonio Petrin, Sônia Guedes e Oslei Delamo. Todos sob a batuta de Antonio Chiarelli. Lembra a alegria dos bailes do Clube Alemão, na Vila Assunção, nos quais tocava pelo menos duas vezes por mês. Foi num desses encontros que Ruslan conheceu a esposa Efigênia, que nada tinha a ver com a rotina da vida artística. Era enfermeira do Hospital São Christóvão. "Tive namoradas que não aceitavam a profissão de bailarino, músico, enfim, vida de artista" -- conta Ruslan. Tiveram três filhos. Aos 15 anos o caçula partiu para os Estados Unidos levando na bagagem a paixão do pai pelo balé e bolsa de estudos da American School of Ballet. Há sete anos, Douglas Gawriejuk é o principal bailarino da Cia. de Ballet de Miami City. A filha Helena coordena os trabalhos da academia. A mais velha, Tânia, mora no Interior, distante dos sonhos do pai. Duas netas de Ruslan já entrelaçam as sapatilhas. 

Palcos internacionais  

Numa viagem de visita ao filho, Ruslan acabou se deixando levar pelo fascínio dos palcos internacionais. O passeio a Miami cedeu lugar a mais uma jornada de trabalho. Montou e dirigiu coreografia junto com Douglas. Assinou música, dança e enredo. "Foi uma excelente experiência de trabalho em família" -- emociona-se. Do Primeiro mundo traz o exemplo do profissionalismo, da responsabilidade e da arte como bom negócio. Viu e amou a montagem eterna de O Fantasma da Ópera à moda americana em pleno Metropolitan, na Broadway, Nova York. "São fantásticos" -- diz. 

Ruslan nunca voltou à Rússia, mas o filho Douglas dançou em Moscou. Ele fala pouco da infância e da terra natal, embora o ídolo não poderia ser outro: Mikail Baryshnikov. Quando era garoto, Ruslan adorava filmes do gênero capa-e-espada, principalmente Zorro. Agora se delicia com telas menos agitadas. Prefere musicais. Admite que não tem muito tempo para dedicar-se à leitura. Gosta de ficções e aventuras nos Himalaias. "Tenho muita atração pelo Tibete" -- diz. O bailarino confessa ser místico. Diz com todas as letras que é espiritualista convicto. Acredita em diversas formas de energia e frequenta templos das mais variadas crenças e religiões. "Todo artista verdadeiro é mais alma" -- avalia. Ruslan confessa admiração por Chico Xavier, diz que por meio da dança, consegue elevar o próprio espírito. Mas, no palco, o artista encena o trágico, expressão rotineira da vida com as crueldades da carne. Entre as paixões que Ruslan destina aos trabalhos realizados está Apocalipse, peça que explora o amor impossível entre uma jovem e um homem mais velho. O enredo ácido é encenado com passos contemporâneos e os pés literalmente no chão. "Ainda espero que algum dia alguém monte um espetáculo especialmente para mim" -- sonha. 

Enquanto isso, o artista rodopia entre as oportunidades do mercado. Afinal o show tem de continuar. Leciona dança na Faculdade de Educação Artística do Instituto Coração de Jesus e dança recreativa no Colégio São José, os dois em Santo André. Com violino em punho, apresenta ensaio sobre a evolução da música popular brasileira de Carlos Gomes a Tom Jobim. "É um espetáculo para todas as idades e camadas sociais" -- afirma Ruslan, que mais uma vez reclama da falta de incentivo. "Não temos como expandir". 

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