Esportes

E lá se foi Luiz Carlos Ferreira
o maior colecionador de acessos

  DANIEL LIMA - 15/09/2020

Rei do Acesso é um título que a crônica esportiva distribui com certa generosidade a treinadores de sucesso longevo na arte de tornar realidade em campo o que regulamentos estabelecem como prêmio máximo às equipes que chegarem entre os primeiros; ou seja, disputar a competição hierarquicamente superior na temporada seguinte.   

Há vários Reis do Acesso no futebol paulista. Luiz Carlos Ferreira, enterrado domingo em Leme, onde vivia, depois de uma doença devastadora na cabeça, talvez tenha sido o maior Rei do Acesso do futebol paulista. Seguramente é um dos maiores.  

A biografia de Luiz Carlos Ferreira está na história do Santo André e do São Caetano, equipes que dirigiu na região. Principalmente Do Santo André. 

Luiz Carlos Ferreira seria um colecionador de ossos, de borboletas, de moedas, do que fosse e entendesse caso decidisse ser. Preferiu o futebol. Unia o pragmatismo tático ao evangelho motivacional. Luiz Carlos Ferreira era o remédio certo para horas incertas. Era a devoção por resultados. Era a paixão levada ao extremo.  

O Santo André o tem entre os maiores treinadores da história, senão o maior, depois de série de passagens pelo Estádio Bruno Daniel.  

Um jogo apenas 

Em dezembro de 2003, Luiz Carlos Ferreira foi chamado a toque de caixa para um único jogo, contra o Campinense, fora de casa, num estádio lotadíssimo, por uma vaga de acesso à Série B do Campeonato Brasileiro. Não deu outra: o Santo André ganhou de virada, de dois a um, e subiu juntamente com o Ituano, campeão da competição.  

O título de Rei do Acesso, como se nota, tem conotação flexível. Não necessariamente se conquistam títulos. Conquistam-se vagas à competição imediatamente superior. Luiz Carlos Ferreira ganhou títulos e ganhou acessos com a mesma frequência.  

No ano seguinte ao acesso à Série B do Brasileiro, Luiz Carlos Ferreira poderia ter-se consagrado. Ele organizou o time que ganhou o título da Copa do Brasil contra o Flamengo no Maracanã. Mas cometeu o erro de trocar o Santo André pelo Sport do Recife no meio da caminhada. Arrependeu-se tempos depois. Perdeu o título e a visibilidade nacional que o levariam a outras estratosferas esportivas. Como levou Péricles Chamusca, que comemorou a conquista. O mercado internacional tornou Chamusca treinador de elevadíssimos salários.  

Tornar-se provavelmente o maior Rei do Acesso do futebol paulista fez de Luiz Carlos Ferreira um santo remédio na hora do aperto. Havia na praça sempre uma equipe em busca da glória.  

Rei de Salvamentos? 

O outro lado da moeda é instigante. Falta bibliografia que identifique quantos times sob o comando de Luiz Carlos Ferreira escaparam do rebaixamento. Não se tem, inclusive, o contraponto dos sucessos. As informações são desencontradas. Consta da biografia de Ferreira muitas festas de final de campeonato. Faltam as jornadas heroicas ou não que o fizeram protagonista dos deserdados na tábua de classificação.  

Afinal de contas, teria sido Luiz Carlos Ferreira também o Rei de Salvamentos? A marca registrada do treinador era mesmo a prevalência da vocação vencedora na reta final de qualquer competição. Mesmo que não houvesse participado da formação do grupo de jogadores. Ou seja, em situações em que tenha sido requisitado como socorrista, como no acesso do Santo André à Série B do Brasileiro em 2003.  

Treinamento virtual  

Quem indicou Luiz Carlos Ferreira para assumir a equipe no jogo final e decisivo contra o Campinense foi o então diretor-executivo de futebol Sérgio do Prado, hoje no Guarani de Campinas. Serginho chegou para o então presidente Jairo Livolis e sugeriu Ferreira como salvação da lavoura. O Santo André estava prostrado nos vestiários do Estádio Bruno Daniel naquela quarta-feira de fim de novembro de 2003. A equipe acabara de ser derrotada em casa pelo Botafogo da Paraíba por um a zero pelo quadrangular final da Série C do Brasileiro. Restava a rodada final e o jogo com o Campinense fora de casa. Só a vitória impediria um ano perdido na luta pelo acesso.  

O então presidente Jairo Livolis entendeu a mensagem e tomou todas as providências. Luiz Carlos Ferreira foi chamado às pressas. Luiz Carlos Martins foi demitido. O mesmo Luiz Carlos Martins que também carrega o título de Rei do Acesso da crônica paulista.  

Ferreira deu um treino de campo virtual à equipe. Campo virtual é a prancheta que simula situações de jogo. O Santo André calou mais de 40 mil torcedores do Campinense. Uma consulta na Internet registra ainda hoje naquele jogo como espécie de Waterloo de Campina Grande. A festa já estava preparada para o acesso. Bastava vencer. E o Campinense saiu na frente. O Santo André virou o placar nos últimos 15 minutos. 

Tabelinha perfeita  

Luiz Carlos Ferreira morreu no mesmo mês e quase três anos depois de Jairo Livolis, o maior presidente da história do Santo André. Jairo Livolis e Luiz Carlos Ferreira trocaram muitas figurinhas. Discutiam detalhes de contratações que reforçariam a equipe. Conversavam demoradamente após os jogos. Havia eletricidade entre eles. O circuito de entendimento brotava de desafios, de pontos e contrapontos.  

Jairo Livolis era um Luiz Carlos Ferreira no banco de reservas. E Luiz Carlos Ferreira era um Jairo Livolis na presidência. Eles se entendiam. Sabiam os limites orçamentários a pautar a formação da equipe. Ou dos limites às chamadas emergências ou preventivas quando estavam separados e o Santo André exigia intervenção dentro de campo. Ferreira era sempre chamado. 

Luis Carlos Ferreira, na versão econômica de hoje, retirada de peça publicitária apropriada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, era um “Posto Ipiranga”. O Santo André jamais se furtou a chamar o Posto Ipiranga. Foram inúmeras as passagens. Ficaram os registros mais expressivos, mas, exatamente porque sempre foi requisitado, Luiz Carlos Ferreira pautou a carreira por uma lógica que poucos atentaram: afinal, se era tão requisitado por determinadas equipes, submergia às conquistas elementos técnicos e comportamentais menos visíveis, mas providenciais, independentemente do resultado final.  O Rei do Acesso, portanto, era mais que o Rei do Acesso. O que não era pouco, claro. Mas não era tudo.

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