Política

Paulinho tem votos demais e
Ailton de menos? Vamos ver

  DANIEL LIMA - 06/11/2020

Estou encafifado com os resultados da pesquisa do Instituto Ibope em Santo André. Acho que se apostasse que há algo de equivocado não seria exagero. O prefeito Paulinho Serra conta com 72% dos votos válidos. Ailton Lima, ex-secretário de Desenvolvimento Econômico e vereador, não passa de 2%. Em qualquer situação pretérita, em que concorreu a deputado federal e a prefeito, Ailton Lima sempre obteve muito mais votos relativos e absolutos do que apontam os 2% de agora.  

Acho que houve alguma coisa diferente na transposição de votos das planilhas para a tabela geral. O falso gigantismo de Paulinho Serra e o exagerado nanismo de Ailton Lima estão refletidos no ambiente eleitoral em Santo André, medido, apesar das dificuldades, nas redes sociais, principalmente. E também no comportamento do prefeito. Há uma orquestração deliberada para esvaziar os votos de Ailton Lima. Quem sabe ler jornais de papel e digitais garante.  

Também acho, por força do que exponho, que o prestígio do Ibope está em jogo, como muitas vezes em tantas outras eleições. Qualquer votação de Paulinho Serra fora da margem de erro de quatro pontos percentuais (seria então 68% o limite mínimo) e qualquer coisa diferente de 6% de Ailton Lima (dentro do limite máximo) será um furo nágua. Acho que o Ibope vai ter dificuldades em sustentar os dados registrados nas páginas do Diário do Grande ABC.   

Freio de arrumação 

Não sei se haverá uma nova rodada de pesquisa do Ibope antes das eleições que estão chegando, em 15 de novembro. Talvez haja. Será a oportunidade a ajustamento dos números não só em Santo André como também em outros municípios. Ajustamento dos números é uma expressão que uso para dizer outra coisa. 

Que outra coisa? Que é usual entre os institutos de pesquisa darem carregamento de votos em favor de determinado candidato e, consequentemente, esvaziamento de terceiros, para criar ambiente artificial na reta de chegada.  

Não estou dizendo que todos os institutos de pesquisa são manipuladores por natureza. Estou dizendo que institutos de pesquisa em geral têm vocação à manipulação deliberada ou não. Basta lembrar o que houve na última disputa presidencial. Ibope e Datafolha fizeram de tudo para que a disputa fosse para o segundo turno. Mas isso não interessa agora.  

A confidencialidade imposta pelo jornalismo quando o segredo da fonte está em jogo não me permite avançar no tema que chamaria de fragilidade política dos institutos de pesquisa.  

Milagre da multiplicação  

Além dos 72% dos votos válidos de Paulinho Serra e os míseros 2% destinados a Ailton Lima, também fiquei com um pé atrás com os resultados do cenário de “voto espontâneo”.  

Voto espontâneo se dá quando o entrevistador do Ibope pergunta em quem o eleitor vai votar. Nada menos que 45% nominaram Paulinho Serra e apenas 1% disseram o nome de Ailton Lima.  

O interessante nesse quadro é que o batalhão de eleitores que disseram que não votaria em nenhum candidato chegou a 13% e, vejam só, os que “não sabem ou preferem não opinar” registraram 32%.  

É aí que a roda da desconfiança ou do milagre pega. Se no total de votos espontâneos nada menos que 45% disseram que votariam em branco, nulo ou não tinham feito escolha nominal alguma, como imaginar que dos demais 55% dos eleitores ouvidos pelo  Ibope, nada menos que 90%, ou seja 45% de 55%, apontaram imediatamente o nome do prefeito de Santo André?  

Dúvida sobre operação  

Apresentada a questão do voto espontâneo, a metodologia do Ibope avançou para o voto estimulado. Trata-se da apresentação de uma cartela circular em que os nomes de todos os candidatos estão dispostos ao apontamento do entrevistado. É isso que suponho, porque não tenho detalhes sobre a operação. Se algo for diferente disso, a pesquisa está furada.  

Por exemplo: se ao invés da cartela circular foi apresentado outro dispositivo em que se dê prioridade ao nome de Paulinho Serra como primeiro da lista, ou de qualquer outro concorrente, o vício de origem está consumado.  

Ainda seguindo o ritual da pesquisa esquadrinhada em Santo André, no voto estimulado Paulinho Serra avançou de 45% dos votos espontâneos para 57% para votos estimulados. Essa contabilidade leva em consideração todos os votos da pesquisa, incluindo os descartáveis em forma de brancos, nulos e indecisos.  

Turbinando números  

Paulinho Serra, portanto, ganhou 12 pontos percentuais na ponte que liga o voto espontâneo e o voto estimulado. Bruno Daniel, seu principal concorrente segundo o Ibope, saltou para 11%. Ganhou, portanto, sete pontos percentuais. Ailton Lima saiu de 1% para 2%.  

Embora com dados relativamente distintos, mas sem ferir o roteiro de Santo André dos votos espontâneos aos votos estimulados, os demais líderes apontados pelo Ibope também registraram números avantajados na primeira etapa, ou seja, da escala de nominação natural à nominação turbinada pela cartela. E também, como em Santo André, o universo de votos descartáveis quando do voto espontâneo, atinge números expressivos.  

Pitadas de cinismo  

O que os eleitores estão lendo nas páginas de jornais e nos sites sobre a reação oficial dos concorrentes não é exatamente o que os candidatos preteridos pelo eleitorado manifestam diretamente ou por terceiros nas redes sociais. Há desconfiança generalizada de que o Ibope cometeu falhas gravíssimas. Esse tipo de reação é natural nas campanhas eleitorais. Pesquisa boa é para quem está na liderança. Ou em situações especiais para quem não está fora do jogo levando-se em conta a margem de erro. 

Escrevi ontem com uma pitada de cinismo que o Ibope já elegeu cinco prefeitos no Grande ABC em primeiro turno. Só faltariam os vencedores em Diadema e em Mauá. O que pretendi mesmo foi prender o Ibope a uma argamassa de cimento estatístico, da qual não se desvencilhará até que as urnas de verdade se manifestem.  

Uma nova rodada de pesquisa, como já disse, seria oportunidade a correções. No caso de Santo André, parece evidente que há reparos a fazer. Correções tardias significam que o jogo jogado foi adulterado. Marcaram gols de mão, deixaram de marcar penalidade máxima. Essas coisas ajudam a explicar determinados resultados. 

Números em xeque  

Transformar a margem de erro em números encarceradores de resultados não é uma artimanha descabida. Salvo grande estouro no campo administrativo, o movimento das pedras de votos no Grande ABC não está sujeito a grandes oscilações. Falta mídia de massa para tanto.  

E as redes sociais, que seriam um caminho, estão muito concentradas em determinados grupos de militantes que se dividem entre o cenário regional e principalmente o nacional. Fala-se mais de Bolsonaro do que sobre qualquer prefeito local.  

Quero, portanto, dizer que o Ibope está em xeque. Principalmente em Santo André. Só não faço uma aposta de que os números serão outros nas urnas dia 15 de novembro porque acho que seria muito atrevimento.  

Fosse fazer um desafio, diria  o seguinte aos leitores que me acompanham em grupos de terceiros e nas listas de transmissão que organizei como extensão da linha editorial de CapitalSocial: prometeria que durante determinado período, emitiria diariamente a seguinte frase: “Paulinho Serra é o maior prefeito da história de Santo André”. Seria um castigo imenso para um jornalista que considera Paulinho Serra um dos muitos medíocres mandachuvas da Administração Municipal do Grande ABC ao longo de décadas.   

Paulinho Serra é um jovem-velho político que, sob a proteção de poderosos, vai encerrar o mandato com uma coleção de bravatas e ignorância. Não sabe sequer, como disse num desses debates eleitorais, o que significa Polo Tecnológico.  

Quem passou a vida toda num Legislativo inoperante e, como secretário temporário de Mobilidade Urbana do governo petista cometeu o crime de instalar corredores de veículos em conflito com a física, porque dois corpos sólidos não ocupam o mesmo espaço, Paulinho Serra não surpreende como chefe de governo. Está à altura do passado. 

Quem sabe num eventual segundo mandato Paulinho Serra tenha a humildade e se faça acompanhar por gente bem melhor do que a que lhe presta reverência? 

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