Política

Síndrome de Prefeito tira
o sono de Paulinho Serra

  DANIEL LIMA - 05/01/2021

Reeleito em primeiro turno com 47% dos votos disponíveis, o prefeito Paulinho Serra tem pesadelo quando olha o futuro e se enxerga ex-prefeito de Santo André. Paulinho Serra quer mais que isso. Quer romper uma corrente histórica aparentemente inquebrável. Paulinho Serra quer ser no futuro mais que ex-prefeito de Santo André. A empreitada já foi iniciada. A aproximação com Gilberto Kassab, chefe do PSD, é o ponto de partida. O duro mesmo é saber qual será a linha de chegada. 

Paulinho Serra teme que seu futuro seja igual ou pior que o de ex-prefeitos de Santo André e de outros municípios do Grande ABC. É verdade que não se deve subestimar jamais a importância de ter sido prefeito. Longe disso. Ganhar uma eleição e ficar quatro anos no poder já é um grande salto. Ganhar um novo mandato, então, é melhor ainda.  

Mas sempre há a possibilidade de voltar, como José de Filippi Júnior, em Diadema, prefeito pela quarta vez. Ou José Auricchio Júnior, em São Caetano, três vezes garantidas e uma dependendo da Justiça Eleitoral.  

O problema a ser resolvido por Paulinho Serra e o grupo que o governa na Prefeitura de Santo André é que dois mandatos seguidos e possíveis outros porque é jovem, são um objetivo muito modesto. Eles querem muito mais.  

Subindo pelo elevador 

O que Paulinho Serra quer e o grupo que o governa sonha levar adiante é algo como a Administração do Estado ou uma vaga entre 84 senadores da República. Deputado estadual ou deputado federal não são cargos que resultem em grandes conquistas. São vereadores de luxo. A região tem uma coleção deles. Somente os politólogos regionais citariam meia dúzia deles de bate-pronto. A maioria da população não o faria nem tendo a eternidade como prazo.  

Por isso Paulinho Serra e o grupo que o governa querem ter às mãos a gestão do Estado de São Paulo ou uma vaga valiosíssima no Senador Federal. Paulinho Serra está embevecido pela mensagem dos parceiros de jornada. Por isso está abrindo as portas da Prefeitura e do Clube dos Prefeitos a novos aliados paulistanos, alguns escalados completamente fora do enquadramento técnico necessário. Gataborralheirismo? Questão de ponto de vista.  

Paulinho Serra e a vizinhança muito próxima que o governa não aceitam um futuro em forma do petista Carlos Grana, de um não sei o que lá Aidan Ravin, de um ex-petista João Avamileno. Nem mesmo querem Celso Daniel evocado como referência para o futuro. Nenhum deles chegou lá e é para lá que Paulinho Serra e sua turma miram. E engatilham estratégicas eleitorais desde já.  

Sonhando alto 

Paulinho Serra e sua turma sonham mesmo com um cargo de elevada potência mandatária (executivo) ou influenciadora (senatoria). 

Principalmente por essa razão de futuro pretendido, não se deve esperar de Paulinho Serra do presente e do futuro próximo outra coisa senão um jogo calculadíssimo.  

Haverá, como já houve no primeiro mandato, uma conversão à divinização do vereador que não deixa saudade, do ex-secretário de Mobilidade Urbana que fez uma coleção de bobagens e do próprio prefeito que não sai do varejismo administrativo.  

A ordem que emana da mais elevada hierarquia do PSD de Gilberto Kassab, eventual destino partidário de Paulinho Serra, é cerrar fileiras em torno de um futuro programado para o moço de Santo André que venceu duas eleições em situações de extrema anormalidade sociopolítica. 

Vitórias do destino  

A primeira eleição vencida por Paulinho Serra, em 2016, foi um passeio que se estendeu ao segundo turno contra um PT de Carlos Grana, candidato à reeleição. O PT estava destroçado por conta da Operação Lava Jato. O entorno de Paulinho Serra, um vereador medíocre, sempre é bom lembrar, acreditou no sucesso da empreitada. Desertores do PT, que enxergaram rápido o estilhaçamento de Carlos Grana e de tantos outros concorrentes paulistas do partido, bandearam-se à linha de frente e de fundo de Paulinho Serra. Sempre com a coordenação do entorno de Paulinho Serra. Uma coordenação invisível a olhos nus. 

A reeleição de Paulinho Serra, com 47% dos votos disponíveis (ou seja, menos da metade do eleitorado de Santo André e em primeiro lugar em âmbito regional) descobriu-se uma grande mamata. Um jogo amistoso.  

A pandemia do Coronavírus produziu a maior carga nacional de reeleição de prefeitos. Paulinho Serra, querido pela maioria da mídia regional, superou adversários financeiramente esquálidos. Bem diferente, portanto, do mandatário em busca da reeleição.  

Fundação do ABC  

A Fundação do ABC (especificamente a Central de Compras comprovadamente corrupta) teria lubrificado a maquinaria eleitoral, entre outras fontes. Um jogo de investimentos eleitorais completamente desigual, portanto.  

Não custa lembrar que a Central de Compras da Fundação do ABC está na alça de mira do Judiciário. Mais que na alça de mira: está sob fogo cruzado. Mas ainda sem a intensidade que as falcatruas exigem. Aquele clube particular de compras de produtos e serviços está sob o comando do Paço Municipal de Santo André. São quase R$ 3 bilhões de orçamento da instituição. Mais da metade sob o controle da Central de Compras. É um mundo à parte da presidência da entidade, ligada ao prefeito José Auricchio.  

A Fundação do ABC é a única regionalidade que deu certo no Grande ABC porque a Fundação do ABC (especialmente a Central de Compras) é o corolário de acordos mutuamente satisfatórios entre as organizações que a mantém, no caso as prefeituras de Santo André, São Bernardo e São Caetano. Não tem sido assim ultimamente. A situação político-administrativa é tão surreal que os honestos são execrados. São corpos estranhos no ninho de falcatruas confirmadas por auditoria externa.  

A Central de Compras é a joia da coroa multipartidária da Fundação do ABC, mas o histórico da entidade, de competência técnica que não se deve negar, está recheadíssimo de oportunismos políticos. Entram gestões, saem gestões e a Fundação do ABC é vilipendiada. Resiste porque profissionais de saúde fazem do trabalho razão de viver. Tanto quanto administradores técnicos que resistem às pressões.  

Abertura à crítica  

Talvez a Síndrome de Prefeito faça de Paulinho Serra e do entorno que o governa um tapa-olhos que os impediriam de vislumbrar um futuro menos alvissareiro do que pretendem.  

A exposição sobretudo ao cargo de chefe de Estado paulista ultrapassa a linha de fundo de viabilidade eleitoral. Quanto mais se tornar importante num eventual cenário de disputa (algo de que duvido, mas isso é outra história), mais se prenunciará o desvendar da carreira do titular do Paço de Santo André. Ambição atrai curiosidade crítica do jornalismo independente.  

Nesse ponto, claro, a Central de Compras da Fundação do ABC seria a mais comprovada complicação do prefeito de Santo André. Paulinho Serra vai ser chamado a dar explicações que sonega à Imprensa local que o incomoda com questões que fujam do concretismo da bajulação explícita ou implícita.  

Morando na frente  

Deixando o terreno movediço da área de saúde, o que teria Paulinho Serra como comissão de frente para viabilizar candidatura a alto cargo? A construção de uma alça do viaduto que completa a ligação de Santo André e o subdistrito de Utinga é fichinha perto, por exemplo, da revolução que o vizinho Orlando Morando fez em São Bernardo.  

Praticamente mais nada de obras físicas com vistas ao futuro se captura em quatro anos. Obras intangíveis, motivacionais, mobilizadoras de transformações? Nem pensar. 

Morando fez muito mais e é mais competente, porque experiente e menos dependente de comandos externos e internos. 

Faço a comparação apenas para dizer que a Síndrome de Prefeito também povoa a cabeça de Orlando Morando. Como povoou a cabeça de antecessores, igualmente imersos num universo de limitações geopolíticas impostas pelas características de subalternidade midiática do Grande ABC.  

Lula não vale 

O Grande ABC não tem um passado de prefeitos que resvale na possibilidade de mudança de rumo que sugira mesmo como exceção a força-motriz de libertação. Ou seja: não há prefeito eleito em qualquer Município do Grande ABC que tenha chegado à senatoria ou ao governo do Estado pela via de votos. 

Quem puxar do coldre do oportunismo argumentativo o ex-presidente Lula da Silva incorrerá em jogo sujo e estúpido. O ex-metalúrgico não disputou cargo algum na região e é produto da confluência de uma genialidade política que transpôs o terreno do corporativismo metalúrgico ao seduzir organizações católicas de base, intelectuais, acadêmicos e a classe artística.   

Prometi no fim do ano passado e deixei de abordar neste texto um dos pontos que já se colocam na praça como desbravador marqueteiro à exteriorização de suposta liderança regional de Paulinho Serra. Vou tratar em outra ocasião do assunto em questão.  

Qual? O de que o tucano é recordista de votos em Santo André, superando Celso Daniel. Bobagem que ignora a matemática e, mais que isso, coloca frente a frente a insensatez da comparação numérica que sugeriria superioridade política de Paulinho Serra.  

Trata-se de uma agressão à história e à inteligência. Talvez o único parentesco entre Paulinho Serra e Celso Daniel seja, com as diferenças contextuais, a organização para arrecadação de fundos eleitorais e outros mais. Se é que me entendem. 

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