A manchetíssima que você acabou de ler aí em cima é uma pegadinha. Pode não ser uma pegadinha clássica, mas tem tudo de pegadinha. Leia de novo a manchetíssima. Leia mais uma vez. “Paulinho ganha na disputa pelo governo” tem um duplo sentido. O problema é que o segundo sentido, eclipsado pela matreirice deste jornalista, não foi captado pela maioria dos leitores. Fiz o teste ontem e hoje nas redes sociais. Antecipei o título sem entrar em detalhes. A maioria entendeu o que poderia ser explicitamente entendido, mas não é o que deveria ser o mais entendido seguindo à risca as artimanhas da política. Confuso? Vou explicar.
Não acredito que os marqueteiros de Paulinho Serra, que arrasaram de tanto sucesso durante oito anos de Prefeitura de Santo André, chegariam ao ponto de acreditar para valer que Paulinho Serra seria páreo para Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad na disputa estadual.
Não acredito também que Paulinho Serra sairia da disputa ao governo do Estado num primeiro turno com peso eleitoral suficiente para engrenar apoio substantivo a Tarcísio de Freitas, embora não se possa duvidar que, numa manobra arriscadíssima, surpreenderia a todos com engajamento favorável a Haddad. Loucura? Não esqueçam que Gilberto Kassab, o mago das engrenagens subterrâneas, é capaz de tudo para influenciar os cordéis.
MILAGRE DOS MILAGRES
Acredito mais mesmo que Paulinho Serra teria votação baixíssima. A polarização que Paulinho Serra tanto condena em coluna domingueira no Diário do Grande ABC e em eventos públicos, na expectativa de que poderia ser a bola da pretensa razoabilidade política da vez, essa polarização vai ficar para o futuro. Claro que, milagre dos milagres, se houver mesmo futuro sem direita e esquerda bem definidos, influentes e prevalecentes na política brasileira. Duvido muito disso.
Tudo isso que temos na praça de especulações sobre a disputa paulista se deve à largada atrevida, desajeitada, corajosa e tudo o mais de Jair Bolsonaro. Ele tirou a direita do armário da autodepreciação e da covardia tanto quanto Lula da Silva colocou o pobre diretamente no orçamento federal com o Bolsa Família. Tanto um quanto outro exageraram na dose.
A facada colaborou um bocado como peça principal da vitória presidencial e a solidificação de um movimento político-social execrado por gente que estava acostumada ao jogo de compadres paulistas entre tucanos e petistas. Um jogo de compadres que foi defenestrado pelo então candidato e depois governador paulista João Doria. Já contei essa história. O assassinato de Celso Daniel foi incluído no diagnóstico e nas operações. Elegeram até uma senadora medíocre, de origem andreense.
EXPLICANDO A MANCHETÍSSIMA
Então, se a manchetíssima de CapitalSocial de hoje é uma pegadinha de bom senso, ou seja, que Paulinho Serra não se meteria numa disputa previamente sem possibilidade de sucesso, ou de razoável sucesso, para não dizer algum sucesso, por que então Paulinho Serra só teria a ganhar na disputa pelo governo do Estado?
Essa é a grande interrogação que, por sua vez, leva a uma série de especulações. A principal, entre todas que configuram a ausência de Paulinho Serra entre os concorrentes a governador é que Paulinho Serra precisa de muitos votos como deputado federal para sensibilizar os vencedores da direita, que levarão esse caneco eleitoral.
Se não obtiver muitos votos, mas muito mais votos, Paulinho Serra irá a Brasília apenas como mais um deputado. Por isso, deve-se decidir pelo apoio a Tarcísio de Freitas se quiser ter mais visibilidade e engrenar uma quinta marcha rumo a expressiva quantitativa de votos.
A presidência estadual do PSDB de nada lhe valerá como vale pouco nestas alturas do campeonato em que o partido foi repartido e metralhado nos últimos anos. A chefia do batalhão de Brancaleones tucanos pode render visibilidade a Paulinho Serra, mas é isoladamente um enchimento de linguiça retórica.
CANTO DA SEREIA
Se Paulinho Serra cair no canto da sereia de que pode surpreender com eventual candidatura a governador, terá dado um passo em falso sem tamanho. Será engolido na sequência dos acontecimentos políticos.
Sem ter o que oferecer a Tarcísio de Freitas e, mais que isso, antepondo-se ao grupo do governador, Paulinho Serra correria o risco de isolar-se como deputado federal. Mais que isso: caso não haja um acordo que respeite a eventual intenção de Gilvan Pereira concorrer à reeleição municipal, Paulinho Serra terá de aquietar-se em respeito àquele que o sucedeu, ou, então, precipitar-se ainda mais numa complexidade de inquietudes políticas sem salvaguardas relevantes.
Como os leitores estão notando e eventualmente anotando, hoje estou de bom humor a ponto de não entrar mais uma vez em detalhes sobre meu juízo de valor do político Paulinho Serra. Certo é que o vejo hoje, aqui e agora, apenas como candidato a qualquer coisa nas próximas eleições.
E a candidatura a governador do Estado é claramente insensata se pretender surfar na estreiteza analítica de que o eleitorado paulista, contrariando todos os estudos e provas das urnas, entenderia que está na hora de acabar com a polarização e, numa ação coletiva extraordinária, bandear-se em favor do ex-prefeito de Santo André.
UMA OUTRA MÚSICA
Convenhamos que a banda não toca assim. Conforme pesquisas recentes, nas quais consta com mais rejeição do que intenções de minguados votos, Paulinho Serra deveria descartar qualquer perspectiva de deslocar domicilio ao Palácio dos Bandeirantes.
Portanto, parece que a melhor alterativa para Paulinho Serra ganhar a disputa pelo governo é sossegar o facho desmesurado de otimismo, que poderia ser confundido com arrogância, e meter-se campanha eleitoral adentro a deputado federal. Sair das urnas com uma frota de votos seria a melhor resposta de Paulinho Serra em busca de novos espaços na política estadual.
Essa projeção, de alguma forma e a bem da verdade, seria interessante para o Grande ABC, porque se trata de um dos quadros da nova sofra de políticos locais com ambições elevadas – um direito sagrado que a política praticamente exige como elixir de transformações.
Os caciques estaduais e os marqueteiros que dão embalo, coragem, determinação e empenho a Paulinho Serra nesta temporada de votos provavelmente estejam mesmo explorando o terreno em que pisam. Eles pretenderiam aferir até que ponto a pretensão anunciada de concorrer com Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad não se converteria em anedota de salão.
GATABORRALHEISMO
Anunciar a candidatura ao governo do Estado sem, entretanto, oficializá-la, e uma série de iniciativas que procuram dar visibilidade a Paulinho Serra, fazem parte do jogo promocional. Mas vai chegar o momento em que a definição a que cargo Paulinho Serra concorreria se tornará inadiável. A média do eleitorado pouco compreendedor das alquimias marqueteiras tende a valorizar o candidato de Santo André e do Grande ABC sem colocar em xeque sequer a hipótese de viabilidade eleitoral.
O gataborralheirismo explica isso. Basta o propagandismo destes tempos para lustrar a ficha do ex-prefeito de Santo André. E isso é suficiente para uma reserva de valor que embalaria Paulinho Serra na disputa pela Câmara Federal.
Acreditar que a polarização do eleitorado paulista e brasileiro está com prazo de validade praticamente vencido é meter uma venda nos olhos e dirigir uma motocicleta a 100 quilômetros por hora em direção à Baixada Paulista.
Cada vez mais o eleitorado segue as respectivas correntezas de votos conservadores e progressistas. Escrevo progressistas com certa ironia, porque, em determinadas pautas, o que temos de fato são eleitores regressistas. E os chamados conservadores também carregam vieses que cheiram à naftalina.
Talvez, nesse sentido, fosse interessante os estrategistas de Paulinho Serra, quando não o próprio candidato, darem uma observada na última disputa pelo governo do Estado.
TERCEIRA VIA SEPULTADA
Vamos, vamos lá. Deem uma verificada. Está lá o placar do primeiro turno de 2022. A polarização está presente, implacavelmente presente: Tarcísio de Freitas chegou à frente com 42,322% dos votos, enquanto Fernando Haddad registrou 35,70%. A terceira via, que na largada da disputa era primeira via, porque chefiava o Estado, chegou em terceiro, muito longe em terceiro, com 18,40% dos votos.
O então governador Rodrigo Garcia, do mesmo PSDB de Paulinho Serra, levou uma sova porque ficou em cima do muro, contemplando com desdém a polarização que corria solta. Ao que se saiba, Paulinho Serra não tem a máquina do Estado para chegar sequer próximo da votação de Rodrigo Garcia, sofrível naquelas circunstâncias. As pesquisas eleitorais que apontam Paulinho Serra abaixo de Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad escancaram a crudelíssima situação do ex-prefeito de Santo André. A distância não sugere qualquer reação ante o ambiente dividido.
Quatro anos antes da cristalização das esfregas entre direita e esquerda para valer do eleitorado nacional, ainda era possível falar em terceira via. Em 2018, João Doria chegou em primeiro no primeiro turno com 31,77% dos votos, Marcio França registrou 21,53% e Paulo Skaf 21,09%. A quarta força, Luiz Marinho, então ex-ministro petista, não passou de 12,66% dos votos.
SIMONE TEBET
A perspectiva de Paulinho Serra concorrer a governador aponta que não alcançaria nem mesmo 5% dos votos válidos. É muito pouco para atrapalhar a vida dos finalistas a ponto de ter o capital eleitoral valorizado num segundo turno, encaminhando-se, portanto, à rentabilidade futura.
Paulinho Serra não seria no âmbito estadual desta temporada o que foi Simone Tebet na disputa presidencial de 2022, quando seus 4,16% de votos (4.915. 423 milhões) contribuíram para fazer a diferença no segundo turno em que Lula da Silva venceu com menos de um ponto percentual de vantagem, ou menos de dois milhões de votos no País. Os percentuais podem até ser próximos, mas não passam dessa etapa. Bolsonaro chegou quatro pontos percentuais atrás de Lula da Silva. Medida certa dos votos de Simone Tebet. Tarcísio de Freitas chegaria ao fim do primeiro turno com vantagem mais robusta. Isso, caso não resolva tudo no primeiro turno. Está nas pesquisas de todos os calibres.
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28/04/2026 PAULINHO GANHA NA DISPUTA PELO GOVERNO