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Caso Celso Daniel
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Versão farsesca da morte
do prefeito vira livro (10)

  DANIEL LIMA - 21/06/2017

O pressuposto de um trabalho jornalístico que vira livro (não seria necessária essa mudança, embora a torne mais sensível) é o compromisso com a verdade dos fatos. Entretanto, o jornalista Silvio Navarro, autor de “Celso Daniel – política, corrupção e morte no coração do PT” não se preocupou com isso. Deu peso desmedidamente maior a versões fantasiosas e minimizou o outro lado das investigações e conclusões policiais do caso Celso Daniel, consideradas inadequadas ante a premissa de crime político.

A calça que Celso Daniel usava naquela noite de sexta-feira 18 de janeiro de 2002 e com a qual seu corpo foi encontrado na manhã de domingo 20 de janeiro numa estrada vicinal na Grande São Paulo gerou especulações de toda ordem. Leiam os trechos narrados por Silvio Navarro: 

 Além do embaraço para tentar explicar os problemas com o carro e como ocorrera o cerco dos sequestradores, Sérgio Gomes escorregou em um detalhe crucial quando interrogado pelo DHPP: informou que, na noite do jantar no Rubaiyat, o prefeito usava uma calça de cor bege. Começava ali um embaraço difícil de explicar, já que Celso Daniel, quando achado morto, vestia calça jeans da marca Levi´s. Ivone Santana, a namorada do prefeito, reconheceu que a roupa, de fato, pertencia a ele. Estaria Sombra enganado quanto à cor da calça do homem com quem estivera por mais de quatro horas? Ou seria mesmo bege a peça? Nesse caso, teria alguém entregue aos sequestradores um jeans da própria vítima, comprado numa viagem a Nova Orleans, nos Estados Unidos, em junho de 2001? Outra hipótese é de que alguém tivesse mentido e confundido tudo.

Mais narrativa de Silvio Navarro 

 Não foi só a cor da calça a desafiar o faro dos investigadores. Outra peça de roupa também provocaria enorme desconfiança: a cueca. Segundo o laudo do Instituto Médico-Legal, a roupa íntima do cadáver de número 320 “não apresentava sinais de uso, ou seja, examinada a olho nu e contra a luz indicou a ausência de secreções, comum no uso por horas”. Os peritos descrevem que o “tempo de agonia foi de minutos” até ele morrer. Duas linhas de apuração, portanto, seriam abertas: ou os sequestradores obrigaram o prefeito a permanecer no cativeiro, ou as vestes foram substituídas por outras, retiradas do próprio guarda-roupa da vítima. 

Mais narrativa de Silvio Navarro 

 Um documento reservado da polícia, assinado pelo delegado Fernando Schimdt de Paula, afirma taxativamente que as equipes que examinaram as fitas do circuito interno do restaurante concluíram que o prefeito usava calça bege e camisa azul de mangas curtas na noite do sequestro. Mais tarde, contudo, os investigadores que assumiram o caso afirmariam que se tratava de uma distorção das câmeras, que não captavam bem imagens coloridas. A hipótese da troca de roupas no cativeiro não prosperou no inquérito policial. A possibilidade de que as roupas tivessem sido trocadas ganharia força quando os repórteres Camila Tavares Francisco e Cleber Juliano Ferrette, da Rádio ABC, de plantão na portaria do prédio de Celso Daniel, relataram ter visto o secretário municipal Klinger Luiz de Oliveira Souza e uma mulher entrarem no edifício depois do sequestro. 

Mais narrativa de Silvio Navarro 

 Oficialmente, Ivone Santana, a namorada do prefeito, assumiu ter ido ao local. Segundo ela, para checar a fita da secretária eletrônica em busca de mensagens de Celso Daniel. Mas a repórter, inclusive em depoimento à polícia, sustentou que conhecia Ivone de diversas coberturas jornalísticas na cidade de Santo André e que, seguramente, não fora ela a acompanhante de Klinger. Uma pergunta ficaria no ar: por que Klinger teria uma chave e o acesso livre à residência do prefeito se todos os porteiros informaram que ele não recebia visitas com regularidade? Ouvida pela polícia, Ivone afirmou que somente ela e a faxineira, Rita Lima dos Santos Starcharvshi, mineira de Turmalina, tinha cópias das chaves. O depoimento da empregada, que frequentava o imóvel havia dois anos, sempre nas manhãs de quarta-feira, também chocoalharia o caso. Segundo ela, certa vez se deparara com maços de dinheiro acomodados em sacolas plásticas na lavanderia, cobertas por um lençol. Ivone revoltou-se com a informação e disse que a faxineira era uma mera diarista e que não deveria ser levada a sério. 

O complemento da narrativa 

 Em novembro de 2005, convocado pelos senadores da CPI dos Bingos a prestar depoimento, Sombra disse que havia errado ao dizer que Celso Daniel usava calça bege e reconheceu também que o único retrato falado que fizera dos bandidos, na noite do sequestro, estava malfeito. “Não presto atenção na roupa. Eu não sei por que na hora do depoimento eu pensei... Talvez ele tivesse, em outra oportunidade, ido com a calça. Normalmente, ele usava jeans. Talvez isso na hora... Não sei por quê. Os congressistas o criticaram e ele encerrou: “Se a minha história parece estranha, confusa e faltando coisas, é a verdade que eu tenho”. 

Valorizando demais 

A diferença entre o que o jornalista Silvio Navarro escreveu no ano passado em forma de livro e o que este jornalista redigiu bem antes, em textos publicados na revista LivreMercado (disponíveis no site de CapitalSocial) é que, entre outros pontos, jamais a tese de calça trocada ganhou ênfase. Simplesmente porque atuamos sempre com fontes de informações consideradas insuspeitas, no caso a força-tarefa da Polícia Civil de São Paulo. Nunca é demais lembrar que essa força-tarefa pertence ao governo de Estado comandado desde meados dos anos 1990 pelos tucanos, adversários históricos dos petistas. Leiam o que escrevi naquela reportagem sob o título “Entenda como se construiu a história de crime político”, publicada na edição de janeiro de 2006”:  

 E a calça que o prefeito Celso Daniel usava na noite do sequestro? Não faltaram polêmicas. Sérgio Gomes, no primeiro depoimento à Polícia, que, segundo o delegado Armando de Oliveira, foi extremamente valorizado para não deixar transparecer medo do homem especializado em artes marciais e segurança nos tempos de campanhas eleitorais do PT, disse que Celso Daniel vestia calça de brim bege. Mas, na manhã do dia 20 de janeiro, na estrada vicinal de Juquitiba, Celso Daniel vestia jeans azul. A mesma calça que Ivone Santana afirmou, em depoimento, que Celso Daniel usava quando o viu pela última vez, na noite de sexta-feira, 18 de janeiro. Ivone dispensou o convite de Celso Daniel para jantar em São Paulo em companhia de Sérgio Gomes porque tinha outro compromisso. O que afirma o delegado Armando de Oliveira?

Mais informações deste jornalista 

 “A questão da roupa nos deu muito trabalho porque ficou aquela coisa no ar: trocou ou não trocou de calça? Afinal, se trocou, teríamos que trabalhar com a hipótese séria de crime encomendado, ou teríamos uma fonte de investigação que seriam lojas próximas ao local em que o corpo foi encontrado, as quais pudessem vender aquele tipo de produto. Como se sabe, o Celso Daniel não tinha o tipo físico padrão do brasileiro, porque era muito alto. Com o auxílio da direção do Restaurante Rubaiyat, no fim do horário de atendimento dos clientes, de madrugada, os especialistas do Instituto de Criminalística se dirigiram para lá e levaram a calça que foi colocada na mesma cadeira, na mesma posição, com a mesma iluminação, daquela noite do jantar. Repetimos, portanto, a situação anterior. Esse teste foi feito duas semanas depois do assassinato. Filmou-se a cena com a mesma câmara utilizada lá atrás pelo mesmo Rubaiyat. Pegamos essa filmagem e comparamos com a filmagem da noite do jantar num equipamento cedido pela USP (Universidade de São Paulo), porque o Instituto de Criminalística não contava com aquele material de última geração. O resultado final confirmou que era a mesma roupa” — garante o delegado.

Completando as explicações 

 O titular do DHPP completa: “Infelizmente, hoje ainda abro os jornais e vejo questionamento sobre isso. Meu Deus do céu: será que as pessoas leram e não entenderam? Ou não leram? Se não leram, a ignorância, em termos de desconhecimento, é flagrante. Se leram e dizem isso, certamente a intenção é dúbia. Acho que a opinião pública tem de ser abastecida com informações revestidas de veracidade. Ilações, conjecturas e teses não levam a nada” — afirma o delegado, num claro recado aos promotores públicos de Santo André.

Depois de conhecer pessoalmente Sérgio Gomes da Silva pouco tempo após ter sido libertado, não tenho dúvidas de que o depoimento à polícia foi mesmo um equívoco quando se referiu à cor da calça que Celso Daniel usava. Sérgio Gomes jamais se importou com detalhes próprios, quanto mais com vestimenta de terceiros. 

Despojado, Sérgio Gomes repetiria no dia seguinte a um jantar o que grande parte da população diria sob pressão de protagonizar uma ação criminal mesmo que muito aquém do traumático arrebatamento do primeiro-amigo Celso Daniel. Simplesmente não conseguiria se lembrar da cor da calça e provavelmente da camisa que vestira. 

Vou mais longe: mesmo distante de qualquer impacto emocional, ou seja, em circunstâncias normais, Sérgio Gomes teria muitas dificuldades – com a maioria da população masculina, para ser mais específico – de identificar sem risco de erro as características da vestimenta utilizada. 

Muito mais importante que tudo isso, entretanto, foi a firmeza com que o delegado titular do DHPP se referiu ao caso numa entrevista pessoal com este jornalista. As minúcias da operação que procurou retirar todas as incertezas sobre o que Celso Daniel vestia naquela noite não deixavam dúvida. A calça jeans azul arrebatada juntamente como seu dono nos Três Postos durante uma ação de guerrilha dos sequestradores era a mesma calça jeans azul daquela estrada de terra batida em Juquitiba. 

O resto foi uma baita confusão – com direito a distorções e manejos idiossincráticos – que favoreceu ainda mais a retirada do caso Celso Daniel da bitola de crime comum e o desviou a um enigma fabricado para torpedear o Partido dos Trabalhadores num período eleitoral que valia a presidência da República, alcançada na terceira tentativa de Lula da Silva. 

Sobre a cueca utilizada por Celso Daniel, além do que já consta de um dos capítulos, reservamos espaço muito maior a esclarecimentos que jamais interessaram aos cultivadores da versão de crime de encomenda.

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