Esportes
A- A+

Veja como o Água Santa pode
disputar a Série A1 Paulista

  DANIEL LIMA - 20/08/2019

Não existe caminho mais ético, moral e técnico de o Água Santa de Diadema disputar a Série A1 do Campeonato Paulista senão repetir no ano que vem na Série A2 a campanha deste ano, menos num dos jogos, contra o Santo André na fase semifinal do mata-mata.

O Água Santa é um dos times da região que deve ficar na história como exemplo travesso do destino, porque deixou escapar num único jogo o que já se dava como certo: ganhar a competição. Guardadas as devidas proporções, o Água Santa deste ano foi a Seleção Brasileira de 1982, de Telê Santana. A derrota para a Itália nas quartas de final é uma prova provada de que no futebol não existe placar final antes do apito final. A máxima de Chacrinha, “um programa que acaba quando termina” cabe como luva no futebol.

Era tão competente o Água Santa desta temporada de acesso à Série A1 do Campeonato Paulista que cometi um erro crasso para quem tem obrigação de ser cético em tudo quando se trata de jornalismo: dei a conquista do título como favas contadas na semana do primeiro confronto do mata-mata contra o Santo André. Veja alguns trechos daquele texto de oito de abril, do qual não me arrependo porque, de vez em quando, é preciso mesmo sair do quadradismo de cuidados excessivos. O título “Quem vai subir com o Água Santa? ” é autocondenatório: 

 Os times que ainda estão disputando espaço na Primeira Divisão (Série A-1) do Campeonato Paulista do ano que vem só têm uma vaga a preencher.  Se o futebol não for violentado nos jogos que restam, o Água Santa de Diadema homologará o título de campeão da temporada. Isso quer dizer que o Santo André, adversário do Água Santa, já está marcado para morrer? Não é bem assim, mas quase assim. |(...). Sei que a torcida do Santo André não vai gostar dessas linhas, mas nada posso fazer exceto levantar a bandeira branca da paz e sugerir que acredite no imponderável para chegar à finalíssima. E o imponderável pode ser chamado também de “clássico”. Embora sem tradição, as duas equipes representam a região e por isso o jogo se apresenta como especial. Clássico é clássico e vice-versa – eis o mote para o Santo André tentar salvar a lavoura improvável. 

De salto alto

Caí do andaime porque o Água Santa, de salto alto descomunal (o zagueiro Luizão deixou o gramado do Estádio Bruno Daniel falando horrores dos companheiros, como raramente se vê num esporte coletivo) não só perdeu o jogo como comprometeu a probabilidade de recuperação no confronto em Diadema.

Tanto que dançou diante de um Santo André que, na sequência, ironia das ironias, foi praticamente contratado como time-base. Não só os jogadores, como também a comissão técnica.

Aliás, sobre essa transfusão de valores do Santo André campeão da temporada para o Água Santa, o campeão mais provável e mais frustrante das últimas temporadas de acesso, convém uma ressalva: não teria este jornalista feito tanta mudança no grupo de jogadores, por melhor que o Santo André tenha se apresentado nas etapas de mata-matas. Mas isso não interessa agora.

Para a história

Para não dizerem que sou maluco ao comparar, sempre guardadas as devidas proporções, o fracasso do Água Santa na Série A2 deste ano com a Seleção Brasileira em 1982, ouso ficar nos exemplos locais. Mas não vou me ater a fracassos ou decepções. Prefiro mesmo destacar a qualidade de algumas das equipes que dignificaram o futebol do Grande ABC até onde minha memória alcança. Vou citar apenas alguns casos.

Quem não se lembra do Santo André de 1997, também no campeonato de acesso? Vinte e quatro jogos invictos, uma máquina de fazer gols e, na fase decisiva (era um quadrangular) foi operado pela arbitragem, teve jogadores expulsos e não chegou entre os dois primeiros.

Mais história

Mais um time do Santo André que aparece na tela de minha memória: o que conquistou o título de vice-campeão paulista em 2010 na final contra um Santos de emergentes Robinho e Ganso. O Pacaembu lotado de santistas viu estupefato o time de Sérgio Soares dar um nó tático. O resultado só não se traduziu em festa ramalhina porque no minuto final uma bola chutada por Rodriguinho.

A manchete do dia seguinte do Estadão não deixava margem à dúvida; “Santos sofre e perde, mas é campeão”. E o texto de abertura: “Robinho, Paulo Henrique Ganso e, principalmente, Neymar foram coroados neste domingo com o título de campeão do Campeonato Paulista. O Santos não passou pelo guerreiro Santo André - perdeu por 3 a 2 -, no Estádio do Pacaembu, mas garantiu a sua 18.ª conquista do estadual. (...). Neymar foi a grande estrela da tarde. Com dois gols, além de todo um repertório de dribles e passes precisos, o atacante santista aumentou ainda mais a campanha por uma convocação para a seleção brasileira que vai à Copa do Mundo. Os gritos de "Neymar é seleção" foram até mais intensos que o de "é campeão".

Mais história

Mais um time do Santo André que fez história: o da campanha no Campeonato Brasileiro da Série B de 2008, quando chegou em segundo lugar, atrás apenas do Corinthians, rebaixado no ano anterior. Um time que jogava com a bola de pé em pé.

Seria dispensável mencionar o Santo André campeão da Copa do Brasil em 2004 diante do Flamengo em pleno Maracanã, depois de empate no então Parque Antarctica. Um time que valorizava a posse de bola, que tinha talentos e muita esperteza tática. Vejam alguns trechos da edição do Estadão do dia seguinte à decisão:

 Júlio César; Dedimar, Alex e Gabriel; Nelsinho (Da Guia), Dirceu, Ramalho (Ronaldo), Elvis (Dodô) e Romerito; Osmar e Sandro Gaúcho. Esses 14 jogadores, mais o técnico Péricles Chamusca, vão poder levar para o resto da vida uma lembrança: o dia em que, defendendo o Santo André, derrotaram o Flamengo, por 2 a 0, calaram um Maracanã lotado, foram campeões da Copa do Brasil e levaram a equipe, atualmente na Série B do Campeonato Brasileiro, para a cobiçada Taça Libertadores da América. Foi uma vitória do time mais determinado e obediente taticamente. O Santo André não se deixou abalar pela maior arma do Flamengo: mais de 70 mil torcedores. (...). Na chegada muitos torcedores tiveram dificuldades de acesso ao Maracanã. Nos minutos finais, flamenguistas, revoltados com a derrota do time, passaram a soltar rojões em direção ao gramado e brigaram na geral.

E o São Caetano?

É claro que o São Caetano, o time de maior destaque contínuo na história do Grande ABC, arrasou nos primeiros anos deste século. Ganhou a fama de “namoradinha do Brasil”. Por duas vezes seguidas chegou em segundo lugar no então Campeonato Brasileiro, em decisões contra o Vasco e o Atlético Paranaense. E perdeu o título da Libertadores da América em pleno Pacaembu lotado depois de vencer o Olímpia no Paraguai por um a zero. Foram dois a um no tempo normal e quatro a dois nas penalidades máximas.

Veja o que escreveu a Folha de S. Paulo sobre a decisão, sob o título: “São Caetano ofensivo fracassa, e Olímpia ganha de virada”:

 O terceiro fracasso seguido do São Caetano numa decisão aconteceu numa noite em que o setor ofensivo da equipe, principal motivo de orgulho do técnico Jair Picerni, voltou a falhar, como já ocorrera nas finais da Copa JH e do Nacional-2001. Apesar de começar o jogo com quatro jogadores de características ofensivas -- Aílton, Robert, Anaílson e Somália--, o clube do ABC não teve poder de fogo para alcançar o empate que lhe daria o sonhado título da Libertadores.

Passaram pelo São Caetano tanto jogadores que fizeram sucessos em times grandes quanto jogadores que, ao se tornarem destaques, alçaram grandes voos nacionais e internacionais. Sem contar uma imensidão de treinadores badalados ainda hoje, na ativa ou como comentaristas: Dorival Júnior e Muricy Ramalho, por exemplo. E Tite, em particular. Quem fez mais sucesso à frente do São Caetano foi Jair Picerni que, em seguida, dirigiu a Seleção Olímpica.

É claro que não se pode esquecer o título paulista da Série A1 em 2004, com Muricy Ramalho no comando. Depois, chegou às quartas-de-final da Libertadores. Não resistiu ao Boca Juniores.

Como se observa, o Água Santa de inesquecíveis resultados nesta temporada da Série A2 não precisa entrar na Série A1 pelas portas dos fundos. A história registra grandes feitos de times pequenos e médios não necessariamente com conquistas. Perseverança é algo muito mais respeitável que um atalho qualquer.

Leia mais matérias desta seção:

Administração PúblicaEconomiaImprensaEsportesRegionalidadePolíticaCaso Celso DanielSociedadeMetamorfose Econômica

Entrevista EspecialNosso Século XXI (1ª Ed.)Nosso Século XXI (2ª Ed.)Mercado ImobiliárioEntrevista IndesejadaMeias Verdades

Quem somosSeçõesLinksAnuncieContato

Capital Social | Regionalidade para ser impressa

Fone: (11) 4425-6449 • Email: capitalsocial@capitalsocial.com.br

© 2016 | desenvolvido por Agogô e Orion Public