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Meias Verdades
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Versões e buracos em
excesso no comércio

  DANIEL LIMA - 01/04/2003

 Trechos principais da matéria da Folha de S. Paulo de 12 de junho de 2002 sob o seguinte título: “Cai a participação do comércio no PIB”.

A participação do setor de comércio no PIB (Produto Interno Bruto, o total de riquezas produzidas no país) caiu de 10% em 1990 para 7,3% em 2000. Apesar da queda, o segmento apresentou, no período, crescimento de 65,4% no número de empresas e uma ampliação de receita de 59,5%.

As conclusões são do IBGE, que divulgou ontem o primeiro levantamento do setor de comércio com abrangência de uma década. O estudo também concluiu que, no segmento varejista, foi identificado um processo de concentração de receita em torno dos hiper e supermercados.

Na década de 90, segundo o levantamento, houve uma queda de 15% para 8,5% do faturamento total de estabelecimentos convencionais, como lojas de rua e pequenos armazéns varejistas. Simultaneamente, o setor de hiper e supermercados aumentou sua participação na receita total de 19,1% para 24,9%.

Economista do Departamento de Comércio e Serviços do IBGE, Roberto Saldanha diz que o fenômeno não implicou necessariamente queda do total de lojas de rua e pequenos estabelecimentos. A maior participação dos hipermercados deveu-se principalmente ao aumento de faturamento e de margem de lucro, entre 1990 e 2000.

Além da abertura do mercado a grandes cadeias estrangeiras, Saldanha diz que o estudo identifica na última década uma expansão das grandes cadeias já existentes. Esses estabelecimentos, segundo ele, diversificaram as linhas de produtos vendidos.

Paralelamente, os dados indicam uma redução do faturamento dos estabelecimentos de menor porte, como lojas de rua, armazéns e mercearias. Em 1990, eles respondiam pelo equivalente a 15% do faturamento total do setor varejista. Em 1996, o percentual já havia caído para 9,2%. Em 2000, era de 8,5%.

“A década de 90 não pode ser considerada perdida para o comércio, apesar da queda de sua participação no PIB. Hoje, o faturamento médio das empresas do setor está 60% maior do que era em 1990, em termos reais (já descontada a inflação do período)”, afirma Saldanha.

O economista diz, no entanto, que a média de salários no comércio caiu de 3,3 mínimos em 1990 para 2,5 mínimos em 2000.

 Trechos principais de “Ajuste no comércio aumentou a produtividade a níveis recordes”, matéria publicada no jornal Valor Econômico de 12 de junho de 2002:

A forte reestruturação porque passou o comércio brasileiro na década de 90 resultou numa redução de 13,5% no salário médio real pago pelas grandes empresas do setor (com mais de 20 empregados) e num aumento de 64,5% na receita dessas companhias, onde predominam os hipermercados. O lado positivo da mudança foi o aumento de 65,4% no número de empresas do setor e de 31,7% no de empregos, mas o brutal aperto do ajuste produtivo fez com que o número médio de empregados por empresa diminuísse 20,3%.

Roberto Saldanha, gerente de análise de dados do Departamento de Comércio do IBGE, revelou que a reengenharia do comércio nesse período elevou em 21,6% a produtividade média da mão-de-obra no comércio, entendida como receita por pessoal ocupado. “Nas micros e pequenas empresas essa produtividade caiu 6%, enquanto que nas empresas de grande porte cresceu 67,9%”, revelou.

As empresas de maior porte cresceram realmente por um processo de enxugamento, como revela a pesquisa. “O número de empresas de grande porte aumentou 12% no período pesquisado, enquanto que o número de empregados dessas companhias ficou estagnado”, destacou. Segundo Saldanha, as empresas comerciais de maior porte ocupam hoje 1,9 milhão de pessoas, o mesmo que há 10 anos.

“Houve mais demissão que contratação, o que explica esta produtividade gigante”. Como exemplo, citou o crescimento médio de receita por pessoa ocupada nos 500 maiores supermercados, que era de R$ 80,1 mil em 1990 e pulou para R$ 109,5 mil em 2000, registrando um aumento de produtividade de 30,7%.

A diversificação de produtos nos hipermercados — que passaram a funcionar como um misto de lojas de departamento e supermercados — afetou também as lojas de departamentos, com o fechamento de algumas delas no período. Esse processo de concentração aconteceu também no comércio atacadista, cuja predominância de lojas do tipo Makro levou à perda de mercado para o setor de alimentos, bebidas e fumos, que declinou sua participação nesse comércio de 29,8% em 1990 para 17,9% em 2000.

Para o economista Adhemir Figueiredo, do Dieese do Rio, o que aconteceu nos últimos 10 anos reflete o que ocorreu em vários outros ramos da economia. “Esta reestruturação produtiva levou à modificação no padrão tecnológico, intensificou funções a nível de empregados e alterou o processo de trabalho no comércio”.

 Trechos principais de matéria de 12 de junho de 2002 do jornal Gazeta Mercantil com o título “Varejo em ritmo mais lento”:

Os benefícios do Plano Real para o comércio duraram pouco e se perderam a partir de 1996, revelam dados do IBGE. Na primeira metade da década de 90, o número de empresas do comércio cresceu 56%, um contraste se comparado com a expansão de apenas 6% registrada entre 1996 e 2000.

A combinação de juros altos e renda em baixa piorou o cenário. A taxa que mede o desempenho das vendas está negativa no ano, com recuo de 1,45% no volume de mercadorias vendidas pelo setor no primeiro trimestre deste ano em relação ao ano passado. Em 2001, houve queda de 1,59% em comparação com 2000.

A receita das empresas também apresentou diferenças na década, passando de R$ 283,3 bilhões em 1990 para R$ 453 bilhões em 2000. O grande salto ocorreu até 1996, quando a receita total do setor registrou R$ 411 bilhões.

Embora o faturamento tenha crescido quase 60% na década, sua participação no PIB recuou de 10% para 7,3%. As vendas em queda e as receitas crescentes — o faturamento cresceu 5% no primeiro trimestre — só são possíveis graças ao aumento de preços. “O comércio vem apresentando resultados pífios em volume de vendas. Alguns segmentos, como o de combustíveis, conseguem bons resultados por conta de aumento de preços”, avalia Luiz Roberto Cunha, economista da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Ele lembra que o fim da hiperinflação, em 1994, estimulou o crédito e reativou a demanda, que esteve reprimida por falta de financiamento ao consumidor. O problema, diz ele, é que não houve continuidade da política de estímulo ao financiamento. O crédito no Brasil representa hoje cerca de um quarto do PIB. “Muito aquém da média de países desenvolvidos e em desenvolvimento”, comenta. Dados do Banco Central mostram que a parcela de crédito bancário hoje destinada a pessoas físicas não passa de 6% do PIB.

  Trechos principais de matéria publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo em 12 de junho sob o título “Comércio cresceu 59,99% em dez anos”:

De 1990 a 2000, a receita total do comércio varejista e atacadista no Brasil, já descontada a inflação, cresceu 59,9%. “Temos que ver que 1996 foi o auge do Plano Real e a estabilidade aumentou o consumo”, disse o gerente de análise de Dados do Departamento de Comércio do IBGE, Roberto Saldanha. Depois desse período, principalmente entre 1997 e 1999, a alta dos juros diminuiu o ritmo de crescimento.

Ao longo da década, o número de empresas no setor comercial brasileiro cresceu em 445,1 mil. Dessas, 442,4 mil tinham até 19 pessoas trabalhando e apenas 2,7 mil eram empresas com 20 ou mais empregados. O número de empregos no período foi de 1,3 milhão, todos nas empresas menores. Entre as grandes empresas, o número de empregos, que era de 1,9 milhão em 1990, estava no mesmo patamar em 2000, embora tenha estado menor (1,6 milhão) em 1996.

A reprodução dos trechos mais importantes da coletiva dos técnicos do IBGE é pedagógica. Uma leitura atenta do material permite variadas conclusões. Talvez a mais acertada é a de que a reportagem mais próxima do ideal seria a fusão dessa salada de informações. Entretanto, mesmo com o ajuntamento de abordagens há muitas fendas informativas e fissuras interpretativas. Isso decorre do impacto que o cronograma de produção provoca nos cascos da qualidade do jornalismo impresso diário.

O texto da Gazeta Mercantil rompeu com o facilitarismo de entregar integralmente aos entrevistados o formato e o conteúdo da notícia que, antes mesmo que os jornais circulem, será consumida pela mídia eletrônica.

A aceitação tácita de estudos cujos roteiros pré-estabelecidos os autores nem sempre estão dispostos a alterar é submissão que atinge a mídia por motivos variados. Entre os quais a preguiça crônica de consultar arquivos, entrelaçar informações e ouvir outros estudiosos. Enfim, dar sistematicidade e traduzir as complexidades que surgirão. Opta-se geralmente pela simplificação superficial e sedutora.

A notícia veiculada pela Gazeta Mercantil é extraordinariamente elucidativa em relação ao comportamento dos demais jornais porque separa o período da pesquisa entre o antes e o durante a lua-de-mel do Plano Real, de euforia econômica conhecida de todos, e o pós-Plano Real, completamente diferente pelo estresse das consequências de uma abertura econômica sem juízo e também pelo desgaste de uma moeda artificialmente valorizada. Provavelmente quando a atualização da pesquisa atingir períodos subsequentes, a proletarização do comércio varejista terá feito muito mais estragos aos pequenos e médios empreendedores, soterrados pela disparidade de forças econômicas.

Mesmo com o entrelaçamento das informações, o estudo do IBGE não consegue responder a indagações pertinentes. O tratamento nacional ou mesmo macrorregional dos números é viagem por instrumentos que assegura aterrissagem confortável, mas não permite a identificação de minúcias só aparentemente supérfluas.

Um exemplo específico que o documento do IBGE não levou a público versa sobre os estragos provocados nas regiões metropolitanas, atingidas em cheio pela sinistra associação de arrefecimento industrial e inchaço de atividades comerciais e terciárias. As estatísticas que conferem aos hiper e supermercados voracidade de crescimento sem paralelo na história econômica do País seriam muito mais impactantes se os sismógrafos registrassem os terremotos sociais e econômicos que atingiram a Região Metropolitana de São Paulo.

Sem que governos federal, estaduais e municipais opusessem resistência com a aplicação de medidas preservadoras dos pequenos negócios — preparando-os tecnicamente para um regime de competição encardida –, hiper e supermercados dominaram os territórios metropolitanos superpovoados. Em muitos casos, não só se deu a omissão das autoridades públicas — e o deslumbramento de incautos dirigentes empresariais que pretensamente representariam os empreendedores mais atingidos pela avalanche — como também foram oferecidos incentivos à implantação de megaempreendimentos. A certeza de que consagradas grifes comerciais estimulam a auto-estima de consumidores da periferia das grandes Capitais metropolitanas e as facilidades de arrecadar recursos tributários em operações sempre mais complicadas junto aos pequenos negócios — pulverizados e pouco dispostos a seguir as regras do jogo — converteram os administradores públicos em torcidas organizadas de megaempreendedores nacionais e internacionais.

Embora faltem números oficiais sobre o predomínio dos varejistas de grande porte nas regiões metropolitanas, porque as pesquisas insistem em vôos panorâmicos, há indicativos de que já ultrapassa a 70% a participação das grandes redes no mercado de consumo da Região Metropolitana de São Paulo.

Independentemente da precisão estatística, o fato é que não se pode fazer um balanço sobre o setor de comércio no Brasil sem que se desça ao andar de baixo dos pequenos negócios e, também, à rede de mudanças provocadas pela macroeconomia. Acreditar em quantidade em vez de qualidade é o pior dos atalhos que se deve tomar para interpretar o mercado empreendedor num período em que políticas econômicas privilegiaram o sistema financeiro internacional, a desregrada abertura econômica e o duplo choque de desemprego industrial e rentabilidade comprimida.

O comércio varejista pesquisado pelo IBGE acresceu mais de quatro centenas de milhares de novos empreendimentos de pequeno porte, entre outros motivos porque grande parte das matrizes industriais entrou em pane com o escancaramento do Brasil à competitividade internacional. Sem gradualismo nessa operação de abertura dos portos, não restou alternativa aos industriais senão entregar os pontos para o capital estrangeiro em atividades mais sensíveis à internacionalização dos negócios. A desnacionalização em áreas-chave, facilitada pela sobrevalorização da moeda, foi a porta de entrada a um País vendido como paraíso consumista e de rentabilidade que, realidade cambial estabelecida, disparidades sociais esclarecidas, ilusão encerrada, agora se defronta com o refluxo dos investimentos internacionais.

Particularmente no Grande ABC, região brasileira em que o peso relativo da indústria sempre superou largamente os setores de comércio e serviços, os anos 90 não identificados pelo IBGE foram extremamente difíceis. A perda líquida de 100 mil empregos industriais com carteira assinada entre 1990 e 2000 no Grande ABC já seria indicativo da revolução tecnológica das empresas, que se soma à evasão e à desativação de negócios. A cada queda do índice de participação da região no ICMS do Estado, e isso foi uma rotina nos anos 90, contavam-se os esqueletos da fragilização da massa salarial.

Como se desgraça pouca fosse bobagem, o Grande ABC em declínio industrial se viu invadido por grandes conglomerados comerciais que, finalmente, descobriram o potencial de consumo de uma região com 2,3 milhões de habitantes. Esse movimento de profissionalização de um comércio até então provinciano se efetivou sem qualquer planejamento municipal ou macrorregional e só poderia dar no que deu: canibalizaram-se empreendedores locais mais tradicionais. Com o agravante de que grande parcela dos desempregados industriais montou negócios de comércio e de serviços num período de fundas transformações nas duas atividades.

Não é preciso ser especialista em economia para diagnosticar o mundo comercial do Grande ABC. O avanço no volume de arrecadação no comércio não tem qualquer relação com crescimento econômico. O que existe é uma concentração maior e tributariamente menos vulnerável de larga faixa de consumidores que não resistem aos apelos propagandísticos das grandes redes.

Em suma, o que se tem registrado no Grande ABC e no País é a multiplicação do nanismo empreendedor na área comercial e de serviços, acompanhado de rebaixamento dos salários e, em larga escala, do avanço da informalidade como última trincheira de resistência à concorrência de maior porte e ao pantagruelismo tributário das várias esferas de governo. A situação é proporcionalmente mais aguda onde a densidade demográfica é convite insuperável aos ganhos de escala.

Num eventual próximo estudo do IBGE, além desses aspectos essenciais à compreensão dos movimentos dessa selva em que leões massacram cordeirinhos, será preciso ater-se também à identificação dos pequenos e médios empreendedores comerciais. Colocar as unidades cada vez mais capilarizadas de subsidiárias dos grandes grupos varejistas na mesma forma dos negócios familiares de sobrevivência é distorcer tanto os números quanto a realidade. Os pequenos vinculados às grandes redes varejistas não são pequenos semelhantes aos dos milhares de empreendimentos familiares que costuram a rede do equilíbrio social. Frente ao desproporcional aparato gerencial, econômico, financeiro, logístico e de marketing, os pequenos negócios familiares contam apenas com a contra-ofensiva da personalização do atendimento.

Abandonado à própria sorte, como se livre mercado não exigisse o pressuposto de Estado planejador e disciplinador, o segmento de pequenos e médios negócios varejistas está submetido a um fogo cruzado intermitente, cujos desdobramentos sociais ajudam a entender por que a qualidade de vida nas regiões metropolitanas brasileiras é bexiga de gás espetada em final de festa de aniversário.

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